A palavra do ano: Daesh

Treze de novembro. Pouco passa da hora de jantar quando a Portugal começam a chegar as notícias que indiciam que algo de estranho está a acontecer. Seis, sete, quase dez mortos. Talvez um ato terrível por alguém isolado? Afinal são vinte, quarenta, sessenta. Reunimo-nos de volta das televisões e dos telemóveis, as bocas abertas de espanto. São mais de cem, ouvimos. Há uma sala de espetáculos parisiense em que há reféns e estão a morrer um por um, afirma uma publicação no Facebook. Tanta informação cruzada que não se vai esclarecer – se calhar até aos dias seguintes, se calhar ainda hoje -, e uma certeza: o mundo mudou. Ou será que apenas reparámos que ele mudou?

As hashtags de #PrayforParis invadem a internet, seguidas pela resposta #PrayforTheWorld. A proximidade, como sabemos, é um valor notícia crucial. As notícias sobre as atrocidades perpetradas pelos extremistas do Daesh já vinham há muito sugerindo que o mundo ocidental também seria abalado. Chegaram a Paris. Para os europeus, chegaram à porta de casa.

Sobre o Daesh, já pouco fica por dizer. Eles executam quem diz o que não querem ouvir, eles violam e escravizam mulheres, eles tiram a vida alheia em nome de algo que não existe. Mais preocupante: eles dizem-se um Estado, com leis, com financiamento, com um plano de expansão territorial (que também abrange Portugal, supostamente parte do Califado que reclamam). Eles dizem-se um Estado Islâmico. Nós dizemo-los Daesh, numa pequenina e simbólica forma de os contrariar.

Estado Islâmico

Dizem que o histórico de vitórias deles está a esmorecer. Nos últimos dias, perderam Ramadi e alguns dos seus dirigentes, mortos em bombardeamentos da coligação internacional. O Iraque promete que a Ramadi se vai seguir Mosul. Mesmo que não o admitam, os extremistas deixam transparecer a preocupação. Também estão preocupados com a fuga dos migrantes rumo à Europa, que os deixa com uma economia desfalcada em mãos. Muitas vítimas depois, mostramos união. Somamos vítimas.

As conquistas são vistas com cautela. Pela frente não há um exército convencional; há discurso de ódio misturado com planeamento estratégico, há execuções bárbaras e profissionais de marketing qualificados a editar os vídeos que visam intimidar o mundo; há computadores que espalham a mensagem e há quem pense encontrar neles o seu rumo. Há ataques em San Bernardino, e na Rússia, e ameaças em Bruxelas, e a tentativa de nos fazer viver a olhar por cima do ombro.

O ano começou com o horror em Paris porque alguém se zangou com um desenho e acabou com o horror em Paris porque alguém se voltou a zangar – não se sabe se foi com a vida, com a “perversão” de quem é livre, com o mundo. Um mundo que começou a ser desenhado bem antes do dia 13 de novembro e possivelmente só mudará quando se pensar a reorganização de países cujas fronteiras, definidas como estão, não são reconhecidas pelos habitantes. É uma hipótese, uma visão, mas há muitas outras. Paris abriu o caminho para se discutirem as soluções, mas as vidas de 130 pessoas já não se recuperam, como as de tantas outras que morreram, cá e lá, desde a guerra no Iraque.

Nos jornais, continuamos a fazer o que não querem que façamos: falar, opinar, pensar. Não os reconhecer. Nunca desistir. É o que faz de nós diferentes. Pode ser que 2016 seja um ano de paz.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *