Onde levam as lágrimas do homem mais poderoso do mundo

Barack Obama não conteve as lágrimas na sua mais recente intervenção sobre o controlo das armas nos Estados Unidos da América. O presidente americano recordou o tiroteio numa escola do Connecticut em 2012, numa intervenção onde foi às lágrimas e onde aproveitou para anunciar um conjunto de novas medidas ao controlo das armas. O Panorama falou com Germano Almeida, autor das “Histórias da Casa Branca” e analista de politica americana, para saber qual o alcance das medidas.

Barack ObamaEstima-se que diariamente morram nos Estados Unidos 90 pessoas devido à livre compra de armas. Levando Barack Obama a dizer que “não vai resolver cada crime violento no país” e que “não vai evitar cada tiroteio em massa” mas que pode “salvar vidas e evitar a dor destas perdas às famílias”.

Entre as medidas estão o controlo dos vendedores de armas, até ao momento isentos dessa verificação em muitos casos; a criação de uma listagem de proibição de venda de armas devido a casos mentais bem como um conjunto de medidas de longo alcance, nomeadamente a contratação de mais fiscais, o aumento do investimento em saúde mental e o investimento em melhorias de segurança nas armas. O aumento de fiscais vai permitir que se possam tratar casos de verificações durante 24h sem interrupções.

Para Germano Almeida, autor das “Histórias da Casa Branca”, para além de autor de dois livros relacionados com a politica norte-americana, Obama procura agora “já sem tempo para uma tentativa de fundo no Congresso” tenta agora “medidas presidenciais, executivas e unilaterais, que serão sempre alvo de censura política por parte dos republicanos (que o vão acusar de tendência ‘tirânica’, de assinar ‘fast and furious’, sem consultar o Congresso)”, apesar de ter “do seu lado parte do país e uma certa «vantagem moral» nesta questão. Mas dificilmente conseguirá aprovar mudanças de fundo”, referindo que em sete anos de presidência Obama “nunca conseguiu encontrar um «consenso político» capaz de mudar decisivamente essa questão”.

Armas Estados Unidos da AméricaGermano Almeida explica no entanto que “a questão do direito à posse de armas é endémica na sociedade americana”, acrescentando que “não por acaso, estamos a falar logo da «segunda emenda» na Constituição Americana, o que dá conta do grau de prioridade que os norte-americanos dão ao direito de se protegerem de eventuais agressores pela via das armas” e explicando que “há que compreender a mentalidade americana: aquele país cresceu e afirmou-se por uma noção de individualismo. A ideia de ser o Estado, neste caso pela via presidencial, a impedir o acesso a um direito constitucional é tudo menos pacífica”.

Este modo de afirmação da cultura nos Estados Unidos levou ainda a que “muitos americanos que vivem em zonas em que o «poder federal está muito longe, lá em Washington DC»”, especialmente “em estados do Midwest, do Sul e da «Bible Belt», vigora um paradigma do «xerife», mais do que a autoridade natural do Presidente”.

Ainda assim, Germano Almeida diz ao Panorama que não tem dúvidas de que este é um combate “sem solução possível no ponto de vista do «consenso»”, explicando que “a NRA [a Associação Nacional de Armas] é uma das associações mais poderosas nos EUA; os defensores do direito à posse de armas respondem a quem considera que é preciso travar o acesso para diminuir o número de mortes de inocentes com um axioma: “a única forma de nos protegermos dos tipos maus é termos armas como eles, não é impedindo o acesso”.

Ainda assim no entender de Germano Almeida, Barack Obama tem razão ao querer aplicar medidas restritivas, tendo em conta que “em perto de duas dezenas de situações, nestes sete anos de presidência teve que se dirigir à nação para lamentar mortes de inocentes na sequência de ataques sem sentido por via de armas”.

Corrida presidencial aquece com a questão das armas

Jeb BushEntretanto em período de corrida presidencial nos Estados Unidos da América, de um lado os democratas apoiam medidas mais restritivas, mas os Republicanos endurecem o discurso aproveitando para tentar conquistar mais votos dentro da sua fatia de eleitorado.

Germano Almeida explica ao Panorama que “os dados em relação ao «gun control» estão lançados: Hillary e Sanders claramente favoráveis a medidas restritivas, apoiando neste caso o Presidente; os candidatos republicanos a endurecer o discurso nesta fase de pré-primárias, muito presos ainda aos financiadores ligados à NRA”.

O analista de politica americana falou ainda do caso de Jeb Bush que “tem tido posições mais radicais em relação a este tema do que se esperava” o que pode levar com que Obama tenha “maiores dificuldades para este «final push»”.

Descomplicador:

Barack Obama chorou na sua mais recente intervenção sobre o controlo de armas nos Estados Unidos da América. O presidente norte-americano vai lançar mais um conjunto de medidas mas ao Panorama, Germano Almeida diz que apesar de ter “do seu lado parte do país e uma certa «vantagem moral» nesta questão, dificilmente conseguirá aprovar “mudanças de fundo”.

 

 

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *