Um cidadão presidente

Aproximamo-nos das eleições presidenciais e, por esse motivo, não poderia fugir do tema que se impõe. Não que não pudesse fazê-lo – afinal, o principal interessado nestas eleições tem procurado evitá-las. Mas vamos por partes.

A grande marca desta corrida eleitoral não é, curiosamente, a mensagem de nenhum dos 10 candidatos que a ela se propõem. Tampouco essa marca é coisa recente, deste período de campanha propriamente dito. Pelo contrário, tem vindo a delinear-se há vários anos e consiste no favorecimento mediático do candidato Marcelo Rebelo de Sousa. E, assente nessa óbvia vantagem, Marcelo construiu a sua estratégia.

Marcelo Rebelo de SousaA estratégia de Marcelo assenta em algumas ideias fundamentais: deixar a imprensa fazer campanha por si; evitar a campanha por completo, passando a imagem de candidato frugal para esconder a ausência de posições e compromissos políticos; alargar o seu eleitorado à esquerda; apostar na sua experiência política. Vou escusar-me a fazer a análise das diversas falhas desta estratégia, mas não deixo de achar oportuno fazer uma observação: como é possível construir uma imagem de presidenciável com tão pouca substância? Marcelo não é nem nunca foi avesso a polémicas, é-lhe conhecida a capacidade de intriga e de criação de factos políticos. Mas, ao mesmo tempo, investe numa imagem de tranquilo senador, disposto a sacrificar-se pelo país, mesmo quando todos (e não deve haver português que não saiba) sabiam que as últimas décadas foram milimetricamente calculadas para nos trazer até esta candidatura.

Nunca fui dos que facilmente aceitaram Marcelo como candidato-presidente natural e os incidentes de campanha têm exposto o Marcelo para lá do “Prof. Marcelo dos Domingos da TVI”. Os debates revelaram as suas debilidades no confronto político, a sua irritabilidade e a sua ausência de propostas; a campanha do homem só, embora sempre perfeitamente coordenada com os apoiantes locais e a imprensa, bem como as críticas ao financiamento das campanhas tornou evidente a sua demagogia, sendo as suas declarações sobre Cristiano Ronaldo apenas a cereja no topo do bolo. Mas aquilo que mais me impressiona é a experiência política e a colagem à esquerda. Pergunto-me: onde esteve Marcelo nos últimos anos? Alguém consegue dizer, com clareza, quais as suas opiniões políticas? Alguém consegue dizer, sem sombra de dúvida, qual o papel que Marcelo reserva para o Estado? De que forma ele se deve efectivar? Qual deve ser o comportamento do Presidente da República? E em que consiste a experiência que reclama? Dois anos em funções executivas ao longo de quase meio século de actividade política não é uma vantagem curta? Será que, nesse tempo, os portugueses que lhe reservaram a derrota em todas as eleições que disputou estavam assim tão errados?

Sampaio da NóvoaIsto leva-me a explicar porque entendo que Sampaio da Nóvoa é a melhor opção nestas eleições presidenciais. Ao contrário de Marcelo, que dispôs e dispõe de toda a cobertura mediática que quiser, Sampaio da Nóvoa não se escondeu. Bem pelo contrário, só quem tiver andado muito distraído é que não o viu a assumir um papel importante na política portuguesa dos últimos anos. Sempre crítico da vertigem austeritária, Sampaio da Nóvoa foi promotor e porta-voz de entendimentos entre as diversas esquerdas portuguesas. Foi vocal na defesa de um caminho de prosperidade, cultura, desenvolvimento integral, de democracia. Como reitor da Universidade de Lisboa, foi incansável na defesa da Ciência, mas sobretudo da Educação, tantas vezes esquecida pelos responsáveis políticos do Ensino Superior. Como cidadão, transportou essa vontade e essa determinação em criar pontes entre grupos diferentes e essa notável capacidade em mobilizar pessoas para criar diálogos suprapartidários.

Sampaio da Nóvoa não é militante socialista, com muita pena minha. No entanto, tem uma mensagem assente na defesa de um tempo novo que considero absolutamente fundamental. Sei que muitas vezes esta ideia tem sido apoucada, mas penso que qualquer pessoa de boa vontade a entenderá. Este tempo novo que agora vivemos é o tempo de um entendimento entre forças políticas distintas mas que se reúnem no património ideológico da esquerda. É o tempo com que tantos como eu sonhámos, a preservação da pluralidade da esquerda mas, ao mesmo tempo, a capacidade de construir um projecto comum. É, no fundo, o entendimento de que há uma necessidade urgente de, mais do que construir alianças estratégicas pontuais, construir um projecto de transformação social capaz de devolver a decência e a dignidade ao país.

A escolha que se nos coloca nestas eleições é entre o aprofundamento do progresso ou o retrocesso no caminho que os portugueses conseguiram começar a trilhar no dia 4 de Outubro de 2015. Eu defendo o progresso e, para isso, precisamos de um homem de causas, precisamos de um cidadão presidente.

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Mestre e Licenciado em Bioquimica. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Coordenador Nacional dos Estudantes Socialistas

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