A longa e atribulada estrada que liga o Iowa à Casa Branca

Não é nenhum segredo que as eleições norte-americanas são uma luta aguerrida que se arrasta durante meses, esgota recursos e pode resultar em muitos reveses. Mas se em Portugal a polémica das subvenções vitalícias pareceu animar a reta final de uma campanha presidencial sobretudo calma e, para alguns, insípida, nos Estados Unidos os sobressaltos aparecem a cada esquina e nada é dado por garantido.

O primeiro dos momentos que nesta corrida de longos meses traz algum esclarecimento sobre as reais posições dos pré-candidatos às nomeações dos dois partidos, Democrata e Republicano, fora o que dizem as sondagens, é o dos caucus. Na prática, o caucus é um evento que habitualmente decorre em escolas, bibliotecas, igrejas ou até quartéis de bombeiros em que os militantes de cada partido num estado norte-americano concreto debatem e votam num dos candidatos para demonstrar o seu apoio.

Nesta fase, depois de vários debates entre os candidatos afetos a cada partido e de muitas sondagens feitas tanto a nível local como nacional, começa a hora de tomar decisões. E os primeiros caucus dão-se precisamente no Iowa, um dos estados-chave por nunca se saber exatamente o que pode acontecer nem haver resultados garantidos – e a tendência voltou a confirmar-se desta vez, com Hillary a apanhar um susto e, do lado dos republicanos, Ted Cruz a fintar Trump e as sondagens.

Durante esta segunda-feira, os votantes estiveram divididos por 99 caucus, representando os 99 condados daquele estado, para decidirem o candidato que queriam apoiar.

Donald Trump

Mas o modelo dos caucus não é linear. No Iowa, por exemplo, os moldes em que os candidatos republicanos são votados são mais clássicos, sendo que cada aspirante a delegado do partido faz um discurso final e depois acontece a votação. O candidato mais votado consegue o maior número de delegados para levar à convenção que acontece no final do verão e resulta na escolha do candidato oficial do partido.

Já no caso do Partido Democrata, à entrada de cada um destes eventos os votantes começam por declarar publicamente o apoio a um dos candidatos ou a juntar-se ao grupo de indecisos, sendo que depois de discursar para todos os votantes, cada candidato deve reunir pelo menos 15% dos votos. Os apoiantes dos candidatos que não conseguem chegar a esse mínimo são obrigados a juntar-se ao grupo de um dos candidatos mais fortes.

hillary debateOs resultados do primeiro teste aos pré-candidatos norte-americanos trouxeram muitos nervos e algumas surpresas – embora o Iowa represente menos de 1% do eleitorado norte-americano, é o pontapé de saída para retirar as primeiras conclusões sobre aquele que será o sucessor de Barack Obama. Do lado democrata, ninguém pôde celebrar a vitória imediatamente, uma vez que Clinton e Sanders ficaram em situação de empate técnico e a ex-secretária de Estado venceu por meras décimas, admitindo estar “aliviada” no momento em que o resultado final se soube – afinal, os fantasmas de 2008, quando a ultrapassagem de Obama da então também candidata começou no Iowa, não são assim tão distantes e Sanders é a revelação desta campanha.

Já Donald Trump teve de admitir a derrota, depois de num discurso ter inclusivamente afirmado que os seus votantes são tão fiéis que “poderia disparar sobre alguém em plena 5ª Avenida e não perderia apoiantes”. Neste primeiro teste, a previsão de Trump não se confirmou – o bilionário foi batido pelo principal rival, o senador Ted Cruz, com 28,1% contra 24% dos votos (Marco Rubio, em terceiro lugar, conseguiu uns supreendentes 23,1%), ao contrário o que as sondagens nacionais e locais previam.

Dentro de uma semana, é a vez de os eleitores no estado de New Hampshire darem a conhecer as suas preferências para as nomeações oficiais dos partidos – e este poderá ser um novo teste aos nervos de Clinton, uma vez que o estado é vizinho do Vermont, a “casa” do senador Sanders. O caminho até à eleição final, marcada para 8 de novembro, é longo e complicado, uma vez que a pressão começa a fazer-se sentir e que outro fator mexe agora com a corrida: os jornais norte-americanos também assumem publicamente o apoio aos seus candidatos preferidos, colocando um novo fator de pressão e poder em jogo.

Descomplicador:

A primeira prova de fogo para os pré-candidatos à Casa Branca aconteceu no Iowa e deixou Trump e Hillary nervosos – para ela a história acabou bem, para ele nem tanto. O próximo passo é a votação no estado do New Hampshire

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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