Perfil: Assunção Cristas aceitou “outros caminhos” e agora chegou a presidente do CDS

O inicio da vida politica de Assunção Cristas já foi escrito e reescrito. Paulo Portas viu-a na televisão e enviou-lhe uma mensagem a convidá-la para integrar o CDS. Semanas depois, com reflexões e conversas pelo meio, Assunção Cristas aceitou o convite, tornou-se deputada, vice-presidente e agora nove anos depois tornou-se presidente do CDS e sucessora de Paulo Portas.

Assunção CristasActualmente com 41 anos e, orgulhosamente, mão de quatro filhos, Assunção Cristas tornou-se no passado Domingo a sétima presidente do partido e a primeira mulher a ocupar o cargo. Num congresso marcado pela falta de “delimitação” ideológica, Assunção Cristas assume-se como de direita, defensora da “liberdade individual”, um “valor que muitas vezes está associado à esquerda”.

Ainda assim, sem posições “maniqueístas” quanto à ideologia, Assunção Cristas confessou mesmo em entrevista à Anabela Mota Ribeiro, publicada em 2010 no jornal Público que se habituou a “a olhar para o mundo com os olhos de uma família de direita”, resguardando-se assim numa “matriz democrata cristã”, mais próxima dos “valores da liberdade, subsidiariedade e solidariedade”.

Ao Diário de Noticias, Pedro Mexia, seu colega na Faculdade de Direito de Lisboa, dizia que Assunção Cristas “não é especialmente ideológica. É sobretudo cristã. E não lhe vejo nenhum interesse naquela discussão do liberalismo versus conservadorismo”, garantindo ainda que a sua liderança será muito diferente da imposta por Paulo Portas ao longo dos últimos 16 anos. O agora assessor do Presidente da República diz ainda que Assunção Cristas é “muito mais confiável” do que o ex-presidente dos centristas.

A descontracção na vida pública

Nuno Melo Assunção Cristas CDSAssunção Cristas tem demonstrado desde o inicio da sua vida pública uma certa descontracção face ao futuro, que não pode ser confundida com falta de empenho. A agora presidente do CDS é a primeira a dizer que está “feliz na politica” e que “pode acontecer fazer política a vida toda” e afirmando ainda que se fosse pelo dinheiro “não estaria na política”.

O ir para a política é tido até por Assunção Cristas como uma vantagem na forma como enfrenta a vida pessoal e profissional, dizendo ainda nessa entrevista ao Público em 2010 que o ter aceite o convite de Celeste Cardona para a assessorar no Ministério da Justiça a fez ver “o Direito de uma maneira completamente diferente”, como um “um instrumento de resolução de problemas, de estabilização de relações sociais”, aproximando assim a sua visão académica dos “problemas reais”.

A ex-Ministra da Agricultura e do Mar contava também que quando foi convidada para o CDS decidiu “experimentar” após falar “com muita gente” coisa que “normalmente” faz. Em Janeiro, Manuel Isaac, líder da distrital de Leiria do CDS dizia ao Observador que “uma pessoa que não chegou há muito tempo ao partido ainda não tem o conhecimento das bases. Há outros que trabalham dentro do próprio partido, ela não faz isso, não tem tempo”. No entanto, este parece não ter sido um problema com as bases a renderem-se à agora eleita presidente, depois de ter percorrido todos os distritos do país e as duas regiões autónomas.

Para este “amor à primeira vista” entre muitos dos militantes do CDS e Assunção Cristas, contribuiu a forma como Assunção Cristas conquistou a capacidade de “conciliação entre a vida pessoal e a vida profissional é uma das chaves do seu sucesso” e a forma como “descomplica quase tudo na vida e como sabe distinguir entre o que é importante e o que não é”, como diz Teresa Anjinho também ao Observador.

A influência da fé no caminho de Assunção Cristas

Assunção Cristas D. Manuel ClementeCatólica praticante, Assunção Cristas não se coíbe de falar da fé e da sua relação com Deus em público, nem de misturar ambas, mantendo as distâncias formais que cada área exige. Novamente ao Público, explicava em 2010 o hábito de infância de ir à Missa nos “Jerónimos, a nossa paróquia. Umas missas que eu achava muito chatas”, confessa, apesar de agora reconhecer que “teve aspectos formativos importantes. Uma hora em que não se pode falar, é um tempo de paragem e preenchimento importante”.

Para Assunção Cristas a fé é inquestionável, como disse numa conversa na Capela do Rato com Maria João Avillez, acrescentando ainda que “se nada disto for verdade, eu sou muito feliz assim”.

Nessa mesma conversa, Assunção Cristas criticou os que vêem na fé o caminho para a resolução de problemas de hoje para amanhã. Quanto ao caminho idealizado na juventude, o de “ser professora, era porque isso me permitia ter a vida que eu achava que queria ter. Para ter uma família, para ter tempo para estar com ela, flexibilidade”, foi também a fé que a fez desviar-se.

“Faz parte de ser católica aceitar outros caminhos”, disse Assunção Cristas, procurando mais um argumento para justificar a sua escolha pela vida pública e quando “provocada” a responder sobre o porquê de ter aceite o convite de Portas voltou a citar Jesus que “nunca teve medo de se meter com gente pouco recomendável”.

O que esperar do CDS de Assunção Cristas

Assunção CristasCom dois dias de liderança, a caminho de completar o terceiro, de Assunção Cristas são apenas conhecidas intenções. Ainda assim, a presidente do CDS disse na apresentação da sua moção de estratégia global saber que “não se pode por tudo em cima da mesa para confundir as pessoas”, assumindo assim a sua prudência no tratamento das matérias.

Segundo Teresa Anjinho, Assunção Cristas é “alguém que se prepara sobre as matérias e se rodeia das melhores pessoas”, sendo também essa uma das principais diferenças que estabeleceu face a Paulo Portas nas entrevistas que deu antes da sua candidatura: a capacidade de delegar.

Apesar de dizer que nunca foi uma líder ou a “mais popular da turma, ou uma mandona”, Assunção Cristas chegou agora à liderança dos centristas, que escolheram uma líder “forte e resistente” e de “agir, estar, apoiar”. E se as palavras de 2010 ainda forem válidas seis anos depois, Assunção Cristas diz dar “muito valor ao contrato com o eleitorado. É mau dizer-se uma coisa e fazer-se outra”, embora diga que a vida partidária passa pela “cedência de todos (…) para que fique espelhada a sensibilidade maioritária”.

Descomplicador:

Assunção Cristas tornou-se no Domingo presidente do CDS, sendo assim a sétima presidente e a primeira mulher a ocupar o lugar. Baseado em entrevistas e discursos, o Panorama traçou o perfil da nova “coqueluche” centrista.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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