Daesh, o verdadeiro inimigo

Olhem para o mapa.

Atentados Bélgica

A cada ataque que nos chega perto, o medo adensa-se e torna-nos frágeis. Mais frágeis. E mais estúpidos, também.

Deixamo-nos convencer que esta é uma guerra contra um modo de vida, o nosso, que somos um alvo por vivermos com liberdade, com instituições, com democracia e sem o Deus “deles”.

Cada ataque é uma garfada de certezas ocidentais quanto aos propósitos dos terroristas. É mais uma pedra para os demagogos atirarem às nossas convicções pacifistas enquanto clamam por guerra.

Eles vêm destruir-nos. São os muçulmanos. São os refugiados. São os terroristas.

A imprensa – ou parte dela, pelo menos – inflama o discurso contra o inimigo através de bem articuladas notícias que indicam – melhor: intuem – uma qualquer ligação entre os que chegam para nos atacar e os que chegam para se defenderem.

E muitos, em histeria coletiva, desenham já no horizonte a III Guerra Mundial, que oporá o “nosso mundo” ao “mundo deles”.

Mas olhem para o mapa. E olhem para este mapa: http://isis.liveuamap.com/.

Nós seremos vítimas, porventura. Mas não somos as únicas vítimas, nem seremos certamente as maiores. Essas, vemo-las chegarem às costas europeias todos os dias.

São homens, mulheres e crianças que vivem nos territórios verdadeiramente acossados pelo Daesh. Que fogem com a família debaixo do braço.

E que são muçulmanos. E agora refugiados.

Porque esta guerra já se trava há larguíssimos meses, na Síria, no Iraque, nas fronteiras da Turquia, do Líbano e da Jordânia.

Porque esta não é uma guerra contra o “nosso” modo de vida. Contra as “nossas” religiões. Contra os “nossos” costumes.

Esta não é uma guerra contra o Ocidente. É uma guerra contra tudo o que negue ou ofenda a restrita interpretação que o Daesh faz da sua religião.

É por isso, também, uma guerra contra a esmagadora maioria do mundo islâmico. Contra milhões e milhões de muçulmanos, daqueles que alguns de nós já se apressaram a rotular de inimigos, de perigosos. Contra os que morrem, os que ainda lutam e os que tentam salvar-se.

No Daesh, são executadas pessoas em grupo, numa base regular. Homens e mulheres são escravizados. Há um genocídio em curso. Não somos “nós” que sofremos ali. São “eles”, são “os outros”, os “muçulmanos”, os “terroristas”, os que não tiveram sequer a oportunidade de chegarem a refugiados.

São todos vítimas. Potencialmente, somos todos vítimas.

E por isso percebo bem de onde vêm os gritos de guerra que os soldadinhos de Facebook escrevinham nos seus murais. Que os candidatos da demagogia lançam em busca dos votos dos desinformados e dos radicais.

Mas guerra está já em curso. A questão é se, agora, nos envolvemos ainda mais, porque nos tocou a nós, em Paris, em Bruxelas.

Mas se for para irmos, importa irmos esclarecidos.

Antes de enviarmos para o terreno, em fato de combate, os nossos homens e mulheres, pais, mães, filhos e irmãos, temos de perceber quem são realmente os nossos inimigos.

Não são os refugiados. Não são os muçulmanos.

São os terroristas do Daesh, do lado “deles”, e os idiotas que nos querem convencer do contrário, do “nosso” lado.

Olhem para o mapa.

Referências:

CNN, ISIS goes global: mapping ISIS attacks around the world, aqui.

The Atlantic, What ISIS really wants, aqui.

The Guardian, Islamic State holding estimated 3,500 slaves in Iraq, says UNaqui.

Publicado por: João Marecos

Advogado estagiário. Ex-Presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa. Global Shaper

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