Dilma salva Lula e Lula salva Dilma

A política brasileira é comparada com frequência a House of Cards, a série em que Kevin Spacey mostra como vencer num mundo complicado recorrendo a muita manipulação, ainda mais jogo sujo e pouquíssimos escrúpulos. Há dias, Lula foi e deixou de ser ministro várias vezes em poucas horas; a teia de corrupção implica os patamares mais altos da política nacional; e as pessoas que acusam recorrem a métodos questionados pelo público e pela imprensa. Nem sempre é fácil perceber o que se passa no Brasil, mas o Panorama faz um apanhado de alguns termos-chave que aparecem em quase todas as complicadas notícias sobre o estado da política brasileira.

1. Tchau, querida.

Lula da SilvaQuem se despede é Lula, quem ouve é Dilma. Esta constatação pode não parecer muito relevante, mas tem a ver com um dos conceitos mais discutidos no decorrer da crise do Brasil: a noção de foro privilegiado. É que as escutas (ou grampos: mais um conceito novo) onde se ouve esta despedida de Lula, reveladas por ordem do juiz Sérgio Moro, na altura encarregado das investigações da Operação Lava Jato, envolviam Lula e Dilma e isso coloca dúvidas legais: se é verdade que Lula era o escutado, também é verdade que elas “apanharam” Dilma, que pela posição no Governo goza de “foro privilegiado” e por isso tem outro estatuto legal.

2. Documento de posse

Rebobinando um pouco essa gravação, percebemos que Lula e Dilma falam do documento que Lula deve assinar para se tornar oficialmente ministro da Casa Civil (um dos principais ministérios) no Governo de Dilma. Isto também tem a ver com o foro privilegiado: Lula é acusado de querer ir para o Governo (e Dilma de o convidar) apenas com a intenção de obter o tal estatuto especial, ou seja, de ser julgado apenas pelo Supremo Tribunal Federal e não pelas mãos do, segundo a imprensa brasileira, “implacável” Sérgio Moro…

3. Transparência

… Que nem sempre o é da forma mais transparente possível, dizem alguns. “Transparência” é o termo com que Sérgio Moro justificou a divulgação das escutas ao público, mas também é o que os seus detratores dizem que lhe falta na sua missão de condenar os envolvidos no megaprocesso de corrupção em causa. Um dos que partilham esta opinião é Teori Zavascki, juiz do Supremo, que esta quarta-feira decidiu retirar o caso das mãos de Moro, explicando que é ao STF que compete decidir sobre “a legitimidade ou não, dos atos até agora praticados”. “Não há como conceber a divulgação pública das conversações do modo como se operou, especialmente daquelas que sequer têm relação com o objeto da investigação criminal”, explicou o juiz.

4. Ministro

Parece um conceito claro, mas na política brasileira nem tudo o que parece é. Entre quarta e quinta-feira da semana passada, Lula tomou posse como ministro perante muitos protestos, deixou de ser ministro devido a ações que deram entrada em vários tribunais dizendo que a nomeação estava a ser usada com “desvio da finalidade” (ou seja, para obter o foro privilegiado e ser julgado de outra forma), voltou a sê-lo porque umas foram anuladas por serem baseadas em “meras suposições”, deixou de fazer parte do Governo de novo porque as queixas chegaram às dezenas (21 no total). Por enquanto, graças à decisão de Zavascki Lula não é ministro mas também não pode ser preso, pelo menos enquanto não se perceber qual é o tribunal com competência para julgar o seu caso.

5. Lava Jato

Este é um dos termos mais ouvidos e lidos no contexto da crise brasileira, mas é essencial porque é nele que tudo começa (literalmente): foi mesmo nos lava jatos, ou seja, nos negócios de lavagem de carros, que foi lavado o dinheiro trocado em esquemas de corrupção. No caso de Lula, o ex-presidente é acusado de receber pagamentos por favores políticos como apartamentos ou “doações” ao seu instituto disfarçadas de pagamentos pelas palestras que dava.

6. ImpeachmentDilma Roussef

Antes dissemos que Lava Jato é “só” um dos termos mais usados porque impeachment é o claro vencedor em termos de frequência nos títulos da imprensa brasileira. O processo de destituição de Dilma, que muitos reclamam nas ruas, pode ser aberto na Câmara dos Deputados na altura do plenário que deve acontecer em maio. E é por isso que no início do texto falamos de que Lula também pode salvar Dilma: muitos analistas vêem a entrada do ex-presidente no Governo como a única salvação para a sua sucessora, uma vez que ele pode ser o único a conseguir segurar o apoio do PMDB e assim segurar o próprio Governo, que já viu melhores dias.

Descomplicador:

É tarefa difícil a de descomplicar a política brasileira. Lula foi ministro e deixou de o ser; Dilma é presidente e pode deixar de o ser. Uma coisa é certa: as duas figuras proeminentes do Partido dos Trabalhadores (PT) podem ajudar-se mutuamente.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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