A Banalização da Europa

Por estes dias corre pela Europa aquilo que José Régio no seu Cântico Negro chama de “sangue velho dos avós”, atrevo-me mesmo a dizer – usando mais uma vez as palavras do poeta – que começam a escassear aqueles que como Monnet, Schuman, Spaak ou Churchill amam “o longe e a miragem”.

Longe de ser uma miragem, a Europa é hoje um projeto mais conseguido do que falhado, só os eurocéticos afetados de uma miopia intelectual típica dos ‘Velhos do Restelo’ poderão negar o contrário, talvez porque o que hoje está na moda é o ´glamour’ intelectual do pessimismo.

Europa União Europeia

É certo que os acontecimentos recentes – a grave depressão económica espelhada na falha dos sistemas bancários e de regulação (que não são um advento europeu, a Crise do Subprime Americano e a queda de titãs da finança mundial como o Lehman Brothers assim o demonstram), a assistência financeira internacional às economias mais débeis como a portuguesa, a por vezes exagerada burocracia emanada das instituições, o drama do desemprego, o longo inverno demográfico que a Europa atravessa, a opção do Reino Unido referendar um tal Brexit, a maior vaga de migração desde a II Grande Guerra e os ataques terroristas em solo europeu (mais uma vez não são um advento nosso, não esquecemos os ataques do 11 de Setembro de 2001 mesmo debaixo do olhar congelado da Estátua da Liberdade) , claro que como por cá dizemos – ´com o mal dos outros podemos nós bem’, obviamente tudo isto sustenta a tese de que algo vai mal no Velho Continente, no entanto, será que tudo está posto em causa de tal forma que o único diagnóstico possível seja a morte lenta, dramática, sabe-se lá quando mas morte certa da União Europeia?

Parece-me exagerada esta visão, embora desse exagero possa advir um importante alerta ao que de pior poderá acontecer mas nunca deverá servir de anunciado epitáfio de uma Europa a sepultar. As novas gerações de políticos com responsabilidades estatais e especialmente aqueles com papeis supra-estatais têm o dever de demonstrar – utilizando uma expressão muitas vezes atribuída a Jacques Delors – “os custos da não-Europa” –  quer aos europeus quer àqueles que agora chegam para serem integrados.

Brexit

É necessário demonstrar com exemplos do quotidiano os ganhos do projeto europeu assim como apelar à maior indiscutível capacidade de afirmação económica que uma Europa unida terá ao competir com o resto do mundo. Numa altura em que se discute Schengen muito por causa de uma agenda xenófoba que alguns políticos anexam ao eleitoralismo fácil, urge questionar o que seria a Europa dos últimos trinta anos sem a livre circulação de pessoas mas também de mercadorias, capitais e serviços? Conseguirá Boris Johnson, Mayor de Londres, possível futuro P.M da Inglaterra e agora fervoroso defensor do Brexit justificar aos britânicos  aquilo que o próprio escreveu no seu livro O Fator Churchill Como Um Homem Fez História, onde a certa altura o próprio transcreve as palavras de Winston C. – “Ser-nos-á muito mais vantajoso participar nas discussões do que ficar de fora e deixar que os acontecimentos sigam o seu curso sem nós (…) A ausência da Grã-Bretanha compromete o equilíbrio da Europa…” .

A Europa com as suas virtudes, defeitos e vícios é viável, não é estática e terá forçosamente de adaptar-se às novas realidades como a recente onda migratória que exige uma política comum de imigração, terá de aumentar os meios de intelligence e prevenção do terrorismo. Naquilo que não é novo a Europa precisa de aproximar Bruxelas de todo o resto, sair dos gabinetes e do parlamento para procurar desburocratizar-se numa óptica que permita às economias de cada estado membro o espaço necessário para a competitividade própria, deve procurar o equilíbrio e não o bloqueio das capacidade endógenas de cada membro.

“As ferramentas e coragem” de que a Europa precisa não são fáceis de arranjar mas já Jean Monet dizia que a “Europa se fazia nas crises”.

Vereador na Câmara Municipal de Santana – Madeira. Vice-Presidente da Juventude Popular da Madeira.

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