As horas fatídicas de João Soares

João Soares demitiu-se ontem ao inicio da tarde de Ministro da Cultura, pouco mais de 24 horas depois de um polémico post que colocou na sua página pessoal do Facebook. O Panorama recorda agora as horas finais de João Soares enquanto membro do XXI Governo Constitucional.

O post

João SoaresPelas 6h12 de Quinta-Feira, 7 de Abril, o Ministro da Cultura, João Soares publicou no seu Facebook o seguinte post:

“Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir. Não me cuzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia. Ele tinha, então, bolçado sobre mim umas aleivosias e calunias. Agora volta a bolçar, no “Publico”. É estória de “tempo velho” na cultura. Uma amiga escreveu: “vale o que vale, isto é: nada vale, pois o combustível que o faz escrever é o azedume, o álcool e a consequente degradação cerebral. Eis o verdadeiro vampiro, pois alimenta-se do trabalho (para ele sempre mau) dos outros.”
Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também”.

(Hoje, Sábado, a publicação tem mais de 1500 reacções e mais de 1400 partilhas, contando ainda com 1734 comentários)

As primeiras reacções dos visados

Augusto M SeabraAugusto M. Seabra reagiu entretanto à Antena 1 e à SIC Noticias, dizendo não comentar as declarações em especifico que disse serem “inqualificáveis”. À Antena 1, o cronista do jornal Público disse pediu aos portugueses para que “se mantenham atentos ao trabalho e às atitudes do Ministro da Cultura”.

À SIC Noticias, Augusto M. Seabra disse ser “inqualificável que numa democracia um ministro se permita fazer ameaças de agressão física a quem usou o seu direito de opinião”, acrescentando ainda que João Soares estaria a ir contra “o direito à liberdade de expressão”. Augusto M. Seabra disse no entanto não pedir a demissão de João Soares afirmando apenas que essa decisão “é da total responsabilidade do ministro”, considerando ainda que “nesta altura do campeonato não é ainda conveniente existir uma substituição”.

Durante o dia desenrolaram-se as mais diversas reacções nas redes sociais, de deputados a dirigentes partidários, de comentadores e de humoristas que foram abordando a polémica do dia, inundando assim as redes sociais com comentários à publicação de João Soares.

A primeira reacção de João Soares

João SoaresDepois das primeiras horas em que “rebentou” a polémica à volta do seu post, João Soares falou ainda à Antena 1, reafirmando a publicação, sobre a qual disse que “está escrito” e que “não foi tirado da página”, reforçando assim a mensagem que tinha publicado poucas horas antes na sua página.

A segunda reacção de João Soares

A meio da tarde, ao semanário Expresso, João Soares comentou o caso por SMS, dizendo que é “um homem pacífico, nunca bati em ninguém” e que não reagiu a opiniões mas sim a insultos. Ironicamente, João Soares acrescentou ainda: “Peço desculpa se os assustei”.

A reacção de João Soares provou ainda mais reacções nos comentadores e nas redes sociais, pela forma considerada “leviana” como reagiu a um caso que estava a marcar a agenda do dia e que se veio a tornar no primeiro caso do executivo de António Costa.

As declarações de António Costa

António CostaNa noite de Quinta-Feira, à entrada de uma peça em estreia no Teatro da Comuna, o Primeiro-Ministro disse ter recordado “aos membros do Governo que, enquanto membros do Governo, nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo”, pedindo ainda desculpa aos dois visados por João Soares. O, na altura, ainda Ministro da Cultura era suposto também marcar presença nesta iniciativa, mas acabou por cancelar.

António Costa disse que Augusto M. Seabra é “alguém por quem tem muita estima” e que Vasco Pulido Valente é “alguém por quem tem muita consideração”. Estas declarações de António Costa foram depois consideradas como essenciais para a saída de João Soares do cargo de ministro deste XXI Governo Constitucional.

A demissão

João SoaresAo inicio da tarde de Sexta-Feira, João Soares comunicou então a António Costa a sua demissão do cargo de Ministro da Cultura, num curto comunicado que depois publicou…na sua página do Facebook:

“Torno público que apresentei esta manhã ao Senhor Primeiro Ministro, António Costa, a minha demissão do XXI Governo Constitucional. Faço-o por razões que têm a ver com a minha profunda solidariedade com o Governo e o Primeiro-Ministro, e o seu projeto político de esquerda. Sublinho o privilégio que representou para mim ter integrado este Governo. E ter trabalhado com o PM, a quem agradeço a confiança.
Demito-me também por razões que têm a ver com o meu respeito pelos valores da liberdade. Não aceito prescindir do direito à expressão da opinião e palavra.
João Barroso Soares
8 de Abril de 2016”

As reacções dos visados II

Vasco Pulido ValenteApós a noticia da demissão de João Soares ter começado a circular, Vasco Pulido Valente disse ao Observador que a demissão “não foi uma surpresa”, acrescentando ainda que “o doutor Soares perdeu qualquer autoridade e respeito dos seus colegas e dos seus subordinados e não tinha outra alternativa”.

Para Augusto M. Seabra, o principal visado nas criticas, esta foi “uma demissão saudável” e que “permite-nos a todos, do ponto de vista cívico ter maiores critérios de exigência ética em relação à actuação dos membros do Governo”, dizendo ainda que “não tinha qualificações para o cargo que vinha ocupando” e que “mostrou total incompreensão dos deveres de um ministro, designadamente na forma como continuadamente utilizou o seu Facebook”.

Descomplicador:

João Soares colocou um post na sua página do Facebook pelas 6h12 de Quinta-Feira. Pouco mais de 24 horas depois, a polémica que a publicação gerou levou à sua demissão enquanto Ministro da Cultura, quatro meses depois de ter assumido o cargo.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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