Em defesa do Colégio Militar

O relativismo moral deste tempo abriu uma fenda que destacou, em dois campos opostos, os que sentem apego e confessam os valores absolutos, adquiridos consuetudinariamente pela axiologia civilizacional e que foram transpostos para a organização da sociedade; contra os vendilhões das novas ordens, que proclamam o progressismo serôdio e a modificação das normas, ao passo que apresentam a modernidade como arte de destruição das molduras éticas conhecidas.

Colégio MilitarÀ velocidade sôfrega a que se procura impor a força da mudança, sem que dela possamos duvidar ou desconfiar, sob pena de nos tomarem por imobilistas datados ou retrógrados inveterados, vão sucumbindo gélidas as tradições e institutos comunitários, corrompem-se as convenções clássicas e embarga-se a essência das coisas.

O vanguardismo liberal, moldado em peça quadrada, insiste em encaixar-se violentamente num buraco redondo. A peça não joga com o molde, mas algum há-de ceder aos estragos provocados pelo confronto. Assim prossegue a ideia do novo tempo, enxaugada numa lógica de utopia revolucionária, erigida sobre esgotamento das causas comuns, na ultrapassagem (pela esquerda) da fidelidade às convicções, na abolição da constância no modo de vida, e na caducidade da moderação, que tempera o gradualismo no sentido da evolução para que se evitem rupturas.

Percebemos que o espírito que preside a esta era é o da transformação abrupta e radical – e não o da valorização do consolidado e a sua merecida protecção – o que se torna evidente através da barbárie perpetrada contra quem não esteja em harmonia com esse desiderato. É urgente decretar um igualitarismo estéril entre tudo e todos, num golpe uniformizador que planifica as escolhas. O exercício de governo é a ditadura das minorias, num refluxo do politicamente correcto, não sendo admitidas excepções ao guião.

Colégio MilitarO princípio é o de que a realidade natural é dinâmica e maleável, por isso impõe-se que seja trabalhada indiscriminadamente pelas mãos de um único artesão; ao contrário, o seu produto é majestático e irredutível. Resulta claro o paradoxo do pós-conservadorismo ultra conservador. De facto, os liberais de hoje serão os conservadores de amanhã.

O ódio de estimação ao Colégio Militar (CM) voltou a destilar-se às golfadas. Mais do mesmo, porque ainda falta matá-lo.

A má convivência de alguns quadrantes políticos com o CM é um problema crónico, não é circunstancial. É uma contenda ideológica profunda, porque ele representa uma expressão da liberdade (de aprender e de ensinar), cuja pedagogia é invulgar e distinta na oferta estatal. É uma querela doutrinária, que encontra guarida numa corrente anti-militarista disfarçada, que tem como eixo estratégico a abolição por inutilidade das forças armadas e dos seus estabelecimentos militares de ensino. É um caso de intolerância, uma vez que o contraditório não admite a pertinência da sua existência. É um vaticínio do preconceito, já que condena à excomunhão os seus alunos.

A matriz fundadora desta Casa bicentenária é vista como démodé, de um obsoletismo que enjoa e entedia os visionários do futuro. O CM é um anátema para os que queimaram o velho código de conduta e o substituíram por uma tábua rasa, qual prancha com que surfam as ondas da demagogia e do populismo.

Colégio MilitarO CM repela e indigna, porque não é como as outras escolas – e a sua riqueza reside precisamente neste facto; porque estende a sua missão e metodologias educativas para além dos muros dos conhecimentos técnico-científicos; porque é um acervo de valores perenes a que todos os dias se limpa o pó; porque cultiva o amor a Portugal; porque tem como lema Servir e como divisa Um por Todos, Todos por Um; porque a disciplina é autêntica e dignifica as hierarquias; porque ensina o institucionalismo aos estudantes, para que compreendam que não pertencem única e exclusivamente a si próprios, isto é, os seus actos têm reflexos na Casa que representam; porque a camaradagem é regra sagrada no relacionamento; porque compensa o mérito e o esforço, condenando o laxismo e o comodismo; porque premeia a assunção das responsabilidades e a firmeza com que se aceitam as suas consequências; porque repudia a violência, a delapidação e o despotismo, admoestando-as com sanções adequadas; porque personifica a liderança pelo exemplo; porque faz da modéstia e da confiança instrumentos de gestão dos êxitos e das dificuldades; porque prova que não há outro caminho que não seja o da generosidade e o da prática do bem.

É ao arrepio destes cânones que muitos se levantam e fazem ouvir a sua voz discordante, considerando-os ultrapassados, de terem caído em desuso e prescrito no antigamente, acusando a sua transmissão aos mais novos de constituir uma enormidade grosseira de tão afirmativa que é.

É esta declaração de princípios que vale a reputação do Colégio Militar e mais nenhuma outra que lhe queiram maliciosamente enxertar. É sobre ela que deve recair o julgamento da Instituição. O chumbo destes valores revela mais sobre quem os avalia negativamente do que quem os pratica.

Colégio MilitarO Colégio Militar é uma Casa de inclusão, interclassista, albergue de várias nacionalidades, raças e religiões, um espaço de partilha, em que a farda é condição de igualdade entre pares, lugar onde se pratica a solidariedade entre camaradas. Não há espaço para a discriminação de qualquer espécie ou natureza.

A homossexualidade, especialmente numa Escola em regime de internato, que forma alunos dos 10 aos 18 anos, é um fenómeno susceptível de provocar alguma confusão, embaraço e/ou constrangimento, em mentes de crianças e jovens de ambas as orientações sexuais. O CM, pela sua organização, está habilitado a responder de forma competente e eficaz, prevenindo que as relações humanas se degradem, em benefício do colectivo e salvaguardando o seu normal funcionamento.

Não queiramos situar o CM à margem da Constituição, cujos militares que o dirigem juraram defender. Olhemos sim para a galeria de honra dos homens distintos e patriotas que lá receberam a sua formação e que se distinguem nos diversos sectores da sociedade. Eles são o produto da oficina da humanidade que Portugal deverá ter a honra de manter. Da minha parte, continuarei a ostentar na lapela do casaco a barretina do Colégio Militar com incomensurável orgulho.

Francisco Rodrigues dos SantosFrancisco Rodrigues dos Santos é actualmente presidente da Juventude Popular. É também vice-chairman do International Young Democrat Union (IYDU). Advogado e ex-aluno do Colégio Militar (128/1998).

Publicado por: Panorama

Existem 13 comentários a este artigo
  1. pilar.tapioca@gmail.com'
    Pilar Pinto de Oliveira at 09:23

    100% de acordo.
    Como filha e mulher de “meninos da Luz” reconheço todas as qualidades referidas pelo autor do texto.

  2. ruicabral.telo@gmail.com'
    Rui Cabral Telo at 13:09

    Sou ex-aluno dos Pupilos do Exército e, como oficial, fiz serviço no Colégio Militar durante vários anos. Parabéns ao autor pelo excelente artigo. Os que querem “matar” o CM, tal como mataram o IO, não merecem ser portugueses.

  3. miragod@gmail.com'
    António Mira Godinho at 14:57

    Como tu Francisco, sou ex-aluno do C.M. Um pouco mais velho, ex-48/1954, mas com o mesmo orgulho e gratidão ao nosso Colégio. Estou perfeitamente de acordo com as tuas palavras. Por mais que alguns O tentem destruir, só conseguem engrandecê-lo,.

    • cervaens@netcabo.pt'
      José António Cervaens Rodrigues at 12:50

      Como militar reformado, não tendo sido aluno do CM que muito respeito e admiro quero felicitá-los pelo teor do artigo e pelos comentários de ex-alunos muitos deles filhos, ou netos, de Camaradas infelizmente já desaparecidos.

  4. aradapinheiro@gmail.com'
    Mário Arada Almeida Pinheiro at 15:56

    Sou ex-aluno e concordo 100/o,prestei serviço no CM durante alguns anos.Parabéns ao auror do artigo e que o nosso colégio mantenha as tradições que sempre teve para um Portugal melhor

  5. Oribeiro1967@gmail.com'
    Oscar Ribeiro at 22:07

    Tudo verdade. Temos contudo de perceber o PORTUGAL que é o nosso. Somos um país de invejosos, onde a norma é a mediocridade. Neste país, como dizia o poeta, ser diferente é perigoso e ser melhor é muito perigoso. Abraço

  6. miguel.martel@gmail.com'
    Indignado at 11:10

    Parabéns, bom artigo. De facto, o que os totalitários pretendem através de uma hábil manipulação da liberdade, é atacar os Sãos Valores que devem nortear uma sociedade e respeitar a liberdade e dignidade das pessoas, impondo comportamentos contranatura e regras de destruição social, porque o objectivo, é criar uma sociedade de zombies!

  7. helio.queluz@hotmail.com'
    Hélio Pinto Ferreira at 15:51

    Sou ex. Aluno dos Pupilos e irmão de luta por direitos que tentam aniquilar. Esquecem-se muitos, quando apregoam a igualdade de direitos, que o direito à diferença é a essência que se deve sublimar como ponto de partida. Não gostam, aceito…mas deixem quem gosta…quem gosta de ser diferente e procurar ter uma educação com valores que, eventualmente, caminham de facto para a extinção. Valores que fazem parte da nossa gênese humana construída ao longo de milénios e que alguns se julgam no direito de querer colocar em questão porque, segundo essas mentes, se encontram justificados pelos arrufos de uma dita “nova civilização” que confunde a liberdade de expressão com o respeito pelo próximo. Grande força para alunos(as) e Pais do CM.

    • zelia_temposert@hotmail.co.uk'
      ZÉLIA SIMÕES at 02:36

      Fui ex- aluna no Colégio – Odivelas, este conseguiram acabar com ele. Obrigada pelo artigo que escreveu sobre o C M, todos devíamos de ter esta coragem, obrigada pela sua defesa , desculpe de não escrever mais, mas tenho dificuldade em estar no computador, obrigada

  8. francisco.rodrigues.dos.santos@gmail.con'
    Francisco Rodrigues dos Santos at 20:04

    Agradeço todos os simpáticos comentários sobre o artigo em defesa do Colégio Militar. Afinal, há muita gente a pensar que vale a pena preservar Instituições desta natureza ímpar. Zacatraz!

  9. mabcorreia@gmail.com'
    Manuel A.Borges Correia at 17:32

    Como ex-Aluno dos Pupilos do Exército, quero assumir o espírito da Escola que se manifesta com o grito do ZACATRAZ ,quando em luta pelos seus princípios e valores, contra as ignomínias dirigidas aos EME´s , hoje em moda, quer na sociedade civil ou por grupos minoritários, integrados,sobretudo, em alguns OCS e facções ortodoxas, de algumas áreas , do nosso espectro politico – social, dado o grande desconhecimento e incultura, quanto aos contributos sociais e humanos, daquelas Escolas, no contexto do País.
    Parabéns.Não poderei deixar de expressar o meu grito de Apoio e de Solidariedade.”Querer é Poder”.
    “Sint ut sunt,aut non sint” – “Sejam como são, ou não sejam.”.

  10. isabel.nolasco@gmail.com'
    Isabel Nolasco at 23:29

    Sou mãe de um ex-aluno do Colégio do Colégio Militar e só posso estar agradecida por todos os princípios, valores, educação, cidadania que transmitiram ao meu filho. São estes os pilares fundamentais na formação de qualquer jovem. São esses pilares, talvez porque lhes fazem concorrência, que querem demolir. Não vamos deixar!

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