Guterres passou no “talent show” da ONU

António Guterres submeteu-se na Terça-Feira a uma longa audição enquanto candidato a Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A inédita iniciativa permitiu aos 195 países que integram a estrutura que pudessem colocar questões ao ex-Alto Comissário para os Refugiados, que durante mais de 2h respondeu às questões e revelou as suas prioridades.

António GuterresO candidato ao mais alto cargo da ONU falou em três línguas, tendo falado sobre a sua experiência enquanto Primeiro-Ministro português na obtenção de consensos, a gestão do caso de Timor e o seu papel no Alto Comissariado para os Refugiados, onde reduziu o pessoal em 20%, tendo triplicado a acção da estrutura. A par do seu passado, António Guterres disse ainda ter “o sonho que o mundo seja livre de armas nucleares”, acrescentando “no entanto, há uma tendência de acordar e descobrir que estamos apenas perante um sonho”.

Ao Panorama, Adelino Cunha, professor de jornalismo na Universidade Europeia e autor do livro “António Guterres – Os Segredos do Poder“, considera que a audiência “poderia ser até “mais do que suficiente” se fosse encarada pelos decisores como uma espécie de Got Talent“. No entanto, a boa impressão deixada por António Guterres é “acima de tudo, mediática; mas terá um impacto reduzido no complexo processo de decisão política inerente ao elevadíssimo cargo em questão“, tendo em conta que “o próprio carácter transnacional da função deixa pouca margem de manobra para este tipo de factores emotivos“.

António GuterresNa audição, António Guterres utilizou o seu papel enquanto líder do Partido Socialista para explicar que “não há nada pior do que liderar um partido durante 10 anos para resolver crises”, relembrando o seu papel na criação de consensos, onde sem maioria absoluta conseguiu aprovar quatro Orçamentos de Estado. Adelino Cunha refere neste período que não se “trata de uma “credencial” imaculada“, tendo em conta que “uma análise mais detalhada a esses períodos revelar-nos-á, até, um perfil “anti-executivo”, isto é, uma postura que procurou gerar consensos em todas os processos políticos, comprometendo, várias vezes, a qualidade da decisão executiva“, o que para o papel de Secretário-Geral da ONU pode ser considerado uma mais valia.

Quanto ao handicap da ONU procurar uma mulher da Europa de leste, António Guterres comentou apenas que deixa “isso para a decisão dos países, são eles que têm de hierarquizar o que querem no próximo secretário-geral”, considerando no entanto o autor da biografia de António Guterres, que o ex-Primeiro-Ministro confirmou o seu nome como um dos mais válidos, mas onde a questão principal “não é tanto saber quem parte melhor, mas quem chegará em primeiro“.

Descomplicador:

António Guterres protagonizou uma audiência “apaixonada”, mas que do ponto de vista politico poderá ter poucos efeitos práticos. Apesar da boa impressão, a corrida a Secretário-Geral da ONU terá ainda vários obstáculos.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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