O novo ciclo à direita

O congresso do PSD marcou o fim do longo processo eleitoral e político que começou na pré-campanha eleitoral das eleições legislativas. Entre esse período e o momento actual, tivemos eleições legislativas, uma complexa negociação para formação de Governo, eleições presidenciais, aprovação do Orçamento de Estado para 2016 e congressos nos partidos da oposição, começando a discussão do Plano Nacional de Reformas. Estamos, por isso, em condições de falar com mais segurança sobre o futuro próximo do panorama político nacional.

Paulo Portas Pedro Passos CoelhoApós as eleições legislativas e a formação do novo Governo, CDS e PSD reagiram de formas diferentes. Ainda que partilhando a estratégia inicial – inútil, diga-se – de contestar a legitimidade da solução política alcançada, o CDS foi suficientemente perspicaz para entender que o acordo à esquerda era sólido e vinha para ficar.  Sinais disso foram a renovação da liderança e a postura construtiva com que o CDS abordou o seu trabalho de oposição, não deixando de criticar o novo governo. Pelo contrário, o PSD manteve a mesma postura, apostando tudo no falhanço do Governo. Assim, o Partido Social Democrata tem-se afastado de participar em qualquer medida política, remetendo toda a responsabilidade da governação para o novo executivo e para a nova maioria. Esta estratégia foi especialmente notória na negociação do novo Orçamento de Estado, em que o voto contra todas as propostas e a incapacidade em apresentar qualquer alternativa, mesmo que sectorial, marcaram a acção política deste partido.

Isto traz-nos até ao momento do congresso. Nos dias que o antecederam, a crítica interna cresceu de tom, em particular pelas vozes de José Eduardo Martins e Pedro Duarte, mas também por Rui Rio, que deixou implícita a sua discordância com a liderança. Passos Coelho necessitava urgentemente de introduzir alguma novidade no congresso, que permitisse silenciar a oposição interna, galvanizar o partido e abrir um novo ciclo de intervenção política. No fundo, renovar a liderança sem renovar o líder. E inicialmente surpreendeu: assumiu erros na liderança do anterior Governo e apontou ao futuro. Mas foi tremendamente inconsequente – nem foi capaz de fazer o acto de contrição de que necessitava, nem deixou nenhuma mensagem forte ou concreta para o que se seguirá. E, com isto, transformou a sua hipótese de abrir um novo ciclo em mais do mesmo – como se tem visto na discussão inicial do Plano Nacional de Reformas.

Pedro Passos CoelhoTanto CDS como PSD entendiam, ainda durante as negociações e logo após a formação do novo Governo, que este teria pouco tempo de mandato. Nessa altura, o PSD tinha engolido quase todo o eleitorado do CDS, afirmando-se como o partido da direita neoliberal, radicalizando o discurso neste quadrante político. Contudo, a inflexão ao centro meramente retórica e a incapacidade de fazer oposição têm dado espaço para que o CDS reconquiste a importância política e o eleitorado que tiveram no passado. E, com isto tudo, prevêm-se tempo agitados, não na bancada parlamentar à esquerda mas na bancada à direita. Como lidará Passos Coelho com uma solução de governo estável e um CDS pressionante? Continuará o líder do PSD a apostar tudo numa estratégia arriscada que passa pela queda rápida do governo? A estas perguntas, só o próprio poderá responder. Aquilo que podemos dizer é que, a continuar este caminho, a direita portuguesa definhará antes que a “geringonça” caia.

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Mestre e Licenciado em Bioquimica. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Coordenador Nacional dos Estudantes Socialistas

Há 1 comentário neste artigo
  1. miguel.martel@gmail.com'
    Indignado at 22:13

    A Direita definhará? A que vota PSD e CDS, há muito que definhou, pois estes deixaram de ser de direita, especialmente o PSD! Estão-se borrifando para a defesa de valores, só defendem interesses, caso dos contranatura e outras “disrupções sociais”.

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