“Assunção Cristas será a adversária mais temível de António Costa”

João AlmeidaSão os primeiros tempos de uma nova vida para o CDS. O que antes era conhecido como “partido do táxi”, virado para dentro e irremediavelmente associado ao PSD, está decidido a trilhar um novo caminho sob a liderança de Assunção Cristas.

O Panorama falou com João Almeida, porta-voz do partido, que defende que este é um tempo de esperança em que a líder centrista se vai afirmar como a adversária “mais temível” do primeiro-ministro. Quanto à esquerda, deixa recados claros: o Bloco de Esquerda e o PCP “já não são o que eram”, e a governação socialista levará o país a uma “situação limite” que a direita terá de resolver depois…

Já passou algum tempo desde que Assunção Cristas passou para a liderança do CDS. Acha que as pessoas ainda estranham a ausência do nome de Paulo Portas na frente do partido?

Acho que não há esse efeito da saída de Paulo Portas. Deixar essa ideia é deixar as pessoas a achar que o CDS está no tempo passado e nós estamos no futuro. Fizemos uma transição bastante serena e muito transparente. O país percebeu perfeitamente a saída de Paulo Portas e vê com esperança a sucessão no partido e a actual liderança de Assunção Cristas. Mais depressa acontece o contrário, achar-se que Assunção Cristas é o líder do CDS há mais tempo do que efectivamente é.

Como foi este primeiro mês da nova liderança?

Foi bastante intensivo. Acho que o CDS está com capacidade para marcar a agenda política e isso é muito positivo numa liderança que agora se iniciou. Foi um mês muito bom que permite perspectivar um caminho de afirmação.

Já se notam diferenças a nível do funcionamento do partido?

Cada líder tem o seu estilo e a sua forma de trabalhar. Sendo duas pessoas diferentes são formas de trabalhar diferentes, mas não se traduziram numa alteração significativa do CDS fazer política e de marcar a agenda política.

Com Assunção Cristas prevê-se uma maior popularidade e até a capacidade de ombrear com os habituais partidos do arco da governação?

Isso é sempre o desejo do CDS, ninguém  se contenta em ser um partido médio. Temos essa ambição. O facto de estarmos cada vez mais numa geração que nasceu depois do período revolucionário, em que as pessoas já não têm aquela limitação do ponto de vista ideológico, cultual, social de estarem mais vinculadas à esquerda … isso dá uma liberdade que o CDS deve aproveitar.

Como acha que será a relação de Assunção de Cristas com o primeiro-ministro?

A relação de Paulo Portas com António Costa era positiva enquanto Paulo Portas foi vice primeiro-ministro e António Costa foi presidente da Câmara de Lisboa. Acho que quer Paulo Portas, quer Assunção Cristas são adversários de António Costa e serão os mais temíveis adversários para António Costa seja quais forem as funções que qualquer um dos dois exerça.

O feminismo é um dos temas mais discutidos dos dias de hoje. O CDS pode tirar partido de ter uma mulher à frente do partido?

Eu sou completamente contrário a essa visão de que há um mundo de mulheres e um mundo de homens e que faz diferença ser mulher ou homem. Seja no sentido da discriminação negativa ou discriminação positiva. Eu não faço essas distinções e não acho adequado fazê-las.

Depois da participação no último governo acha que o CDS se descaracterizou aos olhos dos portugueses? Que foi visto como um mero parceiro necessário?

Acho que não houve esse efeito. O CDS protagonizou algumas políticas conduzidas por ministros ou por secretários de estado que eram do partido e que, de alguma forma, permitem dizer que o governo teve a marca do CDS sempre visível. Por outro lado foi solidário em todo o percurso.

Essa solidariedade não pode ser vista como uma ‘submissão’ ao PSD?

Não. Apenas reforça quer a nossa posição institucional como partido responsável. Quer a agenda política do CDS que conseguiu no governo, numa altura difícil, concretizar políticas concretas em áreas tão importantes como a área social, da agricultura ou a área de investimento externo. São áreas relevantes daquilo que é a agenda política do partido e que tiveram claramente a nossa marca. A primeira grande batalha de Assunção Cristas vão ser as eleições autárquicas no próximo ano. Foi dito que se vai dar mais voz às concelhias.

Acha que nas autárquicas o nome das pessoas vale mais que o partido que representam?

Acho que as duas coisas são importantes, mas nunca se pode dissociar uma escolha local das pessoas. O grande trabalho do CDS até às eleições autárquicas é mobilizar-se e escolher de entre nós, e de entre aqueles que estejam disponíveis para concretizar projectos autárquicos, ainda que não sejam militantes do CDS, quem melhor represente os interesses de cada população. Esse será com certeza o melhor autarca e nós devemos tê-los nas listas do CDS.

Assunção CristasO apoio a Rui Moreira está garantido?

Está garantido. Foi anunciado no congresso e está por nós decidido, manteremos esse apoio à candidatura de Rui Moreira no Porto.

O facto de o PS também ter mostrado vontade de mostrar apoio a Rui Moreira, mostra que há pontos comuns entre o PS e o CDS?

Não, desde logo porque isso é pacífico no CDS e não é no PS. Portanto isso gera, como tem sido público, grandes divergências dentro do partido socialista. Dentro do CDS não. Há outra questão que é relevante. O CDS identificou-se com Rui Moreira antes de alguém imaginar que ele um dia seria presidente da Câmara do Porto. O PS esteve de acordo com Rui Moreira depois do povo do Porto ter dado uma enorme derrota ao partido socialista e uma enorme vitória a Rui Moreira. Isso diz muito sobre a diferença com que cada um de nós está no projecto.

Quão importante seria para o CDS conseguir uma câmara como Lisboa?

A câmara de Lisboa é uma câmara relevante, mas é uma câmara como são todas as outras. Para o CDS todas as câmaras são importantes. Nas últimas eleições autárquicas passámos de uma para cinco. Actualmente, governamos mais de vinte em coligação com o PSD. Mais de 10% dos municípios portugueses têm o CDS no executivo. É muito mais do que aquilo que às vezes se refere enquanto presença do CDS a nível autárquico.

Foi um dos grandes impulsionadores da moção “Fazer Melhor”. Lá é abordada uma necessária despartidirazção do partido para que se possa ouvir várias opiniões. Numa entrevista recente Barak Obama disse que na América o problema era que os democratas só ouviam os democratas e que os republicanos só ouviam os republicanos. Acha que em Portugal isso acontece?

Nos Estados Unidos eles têm um sistema bipartidário, uma realidade muito diferente. O que nós pretendemos com a moção é abrir as portas do CDS a todos aqueles que possam colaborar connosco. Atenção! Não passa a "valer tudo". Nós sabemos muito bem qual é o nosso caminho, mas sabemos que o nosso caminho pode ser trabalhado e que beneficia se nós estivermos mais abertos ao contributo daqueles que ainda não vieram ter connosco e podem vir.

Quer-se um CDS mais aberto?

Sim, um CDS numa lógica de partido aberto, de um partido muito mais contemporâneo, muito mais disponível para um tempo em que as pessoas não se filiam tanto nos partidos, mas estão disponíveis para lutar por causas. Ser capaz de ter essa abertura para dar a resposta é algo que, hoje em dia, as pessoas esperam de um partido político.

A questão do “partido aberto” é interessante. Sobretudo porque o CDS sempre foi conotado como um partido de quadros. Na própria moção é dito que “não queremos galerias de notáveis”. É uma conotação com os dias contados?

Acho que isso tem vindo a mudar. Mudou com a presença no governo, por exemplo. O CDS é o partido que mais cedo dá oportunidades aos seus quadros de exercerem funções políticas. Basta olhar para o caso de Assunção Cristas que veio do mundo académico e que há poucos anos não tinha filiação partidária e que hoje em dia é presidente de um partido; e tudo se passou com enorme serenidade. O CDS é um partido de portas abertas que permite, com facilidade,  a renovação e a abertura a quem na sociedade veja no CDS a oportunidade de concretizar aquilo que são as suas batalhas e as suas lutas. E isso é indiscutível. As pessoas podem não ter militância partidária, mas toda a gente luta por alguma coisa em algum momento da sua vida.

A moção trata temas que são designados quase como propriedade da esquerda, como é o caso da cultura. Porque é que ate aqui a Cultura não tem sido tratada como tema prioritário?

No passado foi tratada como tema prioritário, o CDS teve um Ministro da Cultura que foi relevantíssimo (Francisco Luís Pires). Nos últimos anos não tem estado tão presente. Isso tem muito a ver também com o facto de Portugal do ponto de vista social, como país que vem de uma revolução que foi feita à esquerda, ter um pensamento dominante de esquerda. Isso na cultura acaba por ter alguma tradução e que acontece ao contrário em países que tiveram ditaduras comunistas e que fizeram as suas revoluções à direita; e que, portanto, o pensamento dominante situa-se mais à direita.

Sendo assim a cultura vai passar a ser prioritária nos programas do CDS?

A cultura, a questão da precariedade do trabalho… Questões que, normalmente, só a esquerda fala. Ou quando a direita fala não é ouvida, e nós queremos que seja.

Passos Coelho Paulo PortasAinda na moção é afirmado que de “um conjunto de novas circunstâncias internas e externas ao CDS, existe uma oportunidade real de o partido se afirmar como a única opção forte de direita”. Vai haver uma maior demarcação do PSD?

É normal que o PSD e o CDS convirjam quando exercem funções em conjunto e que tenham maiores diferenças quando estão na oposição, quando se afirmam por aquilo que é um património ideológico e identitário de cada um deles. Tivemos apenas aquele momento em que partilhamos um projecto, como já partilhamos várias vezes, e como é possível que partilhemos no futuro.

Não acha que ‘ombrear’ com um ex-parceiro de coligação pode levar a que haja uma maior distribuição de votos entre a direita e uma consequente perda para ambas as partes?

Não, pelo contrário. Acho que atrairá votos e que havendo mais diferença entre os dois partidos é mais natural que haja mais gente que se identifique com um ou com outro. Nós faremos a nossa parte para crescer o suficiente para que no futuro volte a ser possível um governo à direita do PS.

O Governo de Costa já vai com alguns meses, acha que a Gerigonça está em bom estado ou que precisa de ir à revisão?

O país está pior e começa a ser confrontado com dilemas que nos últimos anos tinham ficado afastados. Designadamente, aqueles que têm a ver com o rigor orçamental versus algumas políticas que conduziram a desequilíbrios que nós tivemos de corrigir durante a governação do PSD e do CDS e que se voltarem a acontecer será ainda mais difícil para o país ter que os corrigir no futuro.

Acha que se justifica pedir novas eleições?

Devemos pensar na estabilidade que o país merece, nós não concordamo com esta governação, mas não nos revemos também numa situação em que o país ande constantemente a fazer eleições. Isso significaria do ponto de vista da credibilidade externa, do ponto de vista da estabilidade, do ponto de vista da economia consequências muito negativas. Portanto, só num caso extremo é que isso deveria acontecer.

Prefere estar na oposição a que haja instabilidade governativa?

Não, isso é uma ponderação que é feita a cada momento. É uma ponderação que tem de ser feita a cada momento. Agora não é bom para um país interromper legislaturas, também não é bom para um país que quem ganha eleições não governe porque isso também gera um sentimento de inconformidade na maioria da população, mas vivemos tempos de excepção e em tempos de excepção é melhor não fazer grandes prognósticos.

Já se notam reflexos do governo socialista?

Em muitas matérias é muito mais panfletário do que concreto, mas já começa a gerar instabilidade suficiente para nós termos muito receio sobre aquilo que possa vir a acontecer ao país.

Teme uma nova intervenção da Troika? 

Acho que temos de temer quando vemos os mesmos protagonistas a exercerem os seus cargos e a orientarem políticas públicas de forma muito semelhante ao que fizeram no passado. E se no passado teve esse efeito não podemos excluir a hipótese de no futuro voltar a ter quando a prática é a mesma.

Num post do Facebook referiu-se ao Bloco que Esquerda e ao Partido Comunista como ex-BE e ex-PC. Estes partidos já não são o que eram?

É evidente que já não são o que eram. Quando nós vemos nomeações sucessivas por critérios exclusivamente partidários e esses dois partidos se calam. Quando vemos o desemprego a aumentar e esses partidos se calam. Quando vemos desequilíbrios importantíssimos do ponto de vista social, fruto de políticas que podem levar à necessidade de novas medidas como todas as instituições internacionais alertam, e esses partidos se calam. E depois aparecem a falar de alterar o nome do cartão do cidadão ou de coisas do género… é evidente que não são os mesmos partidos que no passado falavam das questões que hoje em dia são motivo do seu silêncio.

Como ex-presidente do Belenenses e homem do desporto, como olha para a demissão do secretário de estado do desporto?

Com preocupação. Gostava de poder ouvir no parlamento as suas explicações, mas infelizmente os partidos de esquerda votaram contra. Esta é uma grande diferença e uma razão para ser o ex-BE e o ex-PC, porque o Bloco e o PCP votavam sempre a favor de ouvir membros e ex-membros do governo e agora votam contra. Mudaram muito e agora impedem o escrutínio parlamentar daquilo que é uma questão relevante que é a demissão de quem tutela o desporto, em ano olímpico, num ano em que é precisa toda a estabilidade no desporto.

Como classifica esse impedimento de o ex-secretário de Estado e do Ministro da Educação irem ao parlamento?

É pouco democrático chumbar uma intenção de outros partidos ouvirem o ministro e o ex-secretário de estado. Não foi essa a postura do CDS no passado e portanto não a compreendemos.

O que acha das metas do Governo referentes a 2017?

Acho que o Partido Socialista faz o que sempre fez: empurra com a barriga. E espera que o problema estoire numa altura em que já não esteja a exercer funções governativas. Foi sempre assim nos últimos mais de vinte anos em que, sucessivamente. o PS conduziu o país a situações limite e governos do PSD e do CDS corrigiram esses efeitos.

Acha que é cíclico? O PS faz asneira e a depois vem a direita limpar?

Desde o ano de 2000 que assim é. Aconteceu primeiro com o governo de Guterres e depois com os governos de Durão Barroso e Santana Lopes, depois com o governo de Sócrates e, finalmente, a sucessão ao governo de Passos Coelho e de Paulo Portas. Tem sido assim e é um ciclo que é fundamental interromper.

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Publicado por: Tomás Gomes

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