Trump vence mais cinco estados e pode marcar “o fim do Partido Republicano como o conhecemos”

Já vale de tudo para parar Donald Trump. Ted Cruz e John Kasich anunciaram um acordo de desistência mútua em três eleições primárias que vão decorrer nas próximas semanas. O Panorama conversou com Germano Almeida, autor dos livros “Histórias da Casa Branca” e “Por Dentro da Reeleição”, que classificou a aliança como “estranha” e “politicamente artificial”, relembrando o posicionamento completamente discrepante dos dois candidatos. Como se pode justificar então este acordo? “Pela aversão comum a Donald Trump”.

Donald TrumpAinda assim, poucas horas depois da anunciada “coligação”, Donald Trump voltou a dar uma lição de força ao vencer os cinco estados em disputa em mais uma “Super Terça-Feira” conquistando assim Connecticut, Delaware, Maryland, Pennsylvania e Rhode Island.

Estas vitórias de Trump ocorreram pouco tempo depois de um acordo entre Kasich e Cruz que funciona assim: o governador do Ohio, John Kasich, abdica de concorrer no estado de Indiana, que vai a votos no próximo dia 3, e em contrapartida o senador do Texas, Ted Cruz, não concorrerá no Oregon e no Novo México, nos dias 17 de Maio e 7 de Junho.

O acordo revela-se surpreendente pelo posicionamento dos dois candidatos dentro do Partido Republicano. Segundo Germano Almeida, especialista em politica norte-americana, “Ted Cruz é um senador texano ultraconservador, que se situa na extrema-direita e John Kasich é um governador moderado de um estado «bipartidário» (…) que defende a progressividade fiscal e tem uma visão benigna sobre a Reforma da Saúde de Obama, olhada pela ala radical dos republicanos como o inferno na Terra.” Para o Germano Almeida só mesmo o ódio comum a Trump pode justificar um acordo de natureza tão paradoxal.

Ted CruzDevido a esta falta de pontos de encontro entre os dois republicanos, Donald Trump apelou esta madrugada à desistência de ambos, afirmando que “o senador Cruz e John Kasich simplesmente devem abandonar a corrida” e apelidando o acordo entre ambos de “defeituoso”, acrescentando ainda que ambos “não têm caminho nenhum para chegar à vitória”.

Há um número mágico que guia todo este rebuliço eleitoral: 1237. Se Trump conseguir 1237 delegados até à convenção de Cleveland será o candidato. Partindo deste principio a aliança entre Cruz e Kasich pode surtir efeito. Segundo Germano AlmeidaCruz tem hipóteses de travar o triunfo de Trump no Indiana e Kasich pode disputar com Donald a vitória no Novo México e no Oregon”.  Assim parece verificar-se que o Partido Republicano tem um plano de bastidores para conseguir, a todo o custo, impedir a nomeação de Trump, como candidato oficial; mesmo que isso implique as mais improváveis alianças.

Matematicamente, a ideia tem margem para se concretizar, sobretudo porque muitos dos estados que restam disputar na corrida republicana são «winner takes all» (o vencedor arrecada todos os delegados, ou grande parte deles). Trump tem neste momento 410 delegados de avanço sobre Cruz e terminará as primárias republicanas em primeiro lugar, com mais votos e mais delegados. Mas talvez já não consiga atingir o número mágico, 1237, sobretudo neste cenário que o jornalista e escritor classifica como “coligação negativa”. E se tal acontecer, no Congresso tudo pode mudar.

John KasichPara Germano de Almeida há uma só questão-chave: “haverá condições políticas para o Partido Republicano impedir que Trump seja coroado, tendo ele um número próximo dos  1237?”. Apesar de a aliança poder roubar delegados em estados “winner takes all”, prevê-se que Donald Trump vença nos estados da Pensilvânia e Califórnia; só neste último estão 172 delegados em jogo. Para o analista político, Ted Cruz tem um mérito uma vez que “sendo visto com desconfiança por grande parte do «establishment» republicano, está a conseguir apoios de quem politicamente nada tem a ver com ele, graças ao «sentimento anti Trump”.

Esta união já tinha acontecido com Jeb Bush e está agora a ser com John Kasich, numa junção mútua de esforços. Algo que, apesar da grande diferença entre os dois candidatos, acaba por ser comum na, na dinâmica das primárias norte-americanas, explica Germano Almeida, que relembra que “quem desiste acaba por se juntar a um dos candidatos, em nome de interesses comuns”. No entanto, olhar para dois políticos tão diferentes não deixa de lhe causar estranheza, mas torna-se em mais um situação ‘diferente’ que contribui para tornar a corrida presidencial de 2016 como um acto político “incomparável”, sobretudo no lado republicano.

Germano Almeida afirma mesmo que a nomeação de Trump seria o fim do Partido Republicano como o conhecemos, mas deixa a questão “será que Ted Cruz ainda estará a tempo de assumir a nomeação? (caso se consiga evitar o apoio oficial a Trump no Congresso)“. Outra hipótese poderá ser Mitt Romney ou Paul Ryan se tornarem candidatos consagrados na convenção sem terem passado pelo escrutínio eleitoral em todos os estados, o que, na óptica de Almeida, “traria problemas complicados para a própria legitimidade do escolhido  e abriria espaço a uma candidatura independente de Trump”.

Descomplicador:

John Kasich e Ted Cruz formaram uma aliança para tentar travar a nomeação de Donald Trump e impedir que o milionário norte-americano chegue aos 1237 delegados. A natureza do acordo parece estranha, pelos diferentes posicionamentos ideológicos dos candidatos. O Panorama foi por isso falar com Germano Almeida, especialista em política norte-americana e autor dos livros “Histórias da Casa Branca” e “Por dentro da reeleição”, para tentar perceber todos os contornos deste acordo. No fundo, há uma questão-chave: “haverá condições políticas para o Partido Republicano impedir que Trump seja coroado, tendo ele um número próximo dos  1237?

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Publicado por: Tomás Gomes

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