Dia Mundial da Liberdade de Imprensa: “Em Angola, a verdade é muito subjetiva”

“Em Angola, a verdade é muito subjetiva”. A citação é do jornalista português António Rodrigues, editor executivo do portal informação Rede Angola (http://www.redeangola.info/), num debate para assinalar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. No caso angolano, dizer “comemorar” seria incongruente: “No Telejornal das 20h30 é transmitido um país que não existe”, descreve António Rodrigues, crítico de uma ‘verdade’ que apenas existe nos órgãos de comunicação social estatais. O jornalista tanto critica esta postura, como também o outro extremo, no caso da imprensa privada e (presumivelmente) independente que publica tudo, “qualquer disparate”. Faltam meios, educação e pessoas, justifica.

Sindicato dos JornalistasNem só Angola foi alvo de discussão no debate organizado pelo Sindicato de Jornalistas (SJ) esta terça-feira. Ao lado do jornalista português e da moderadora (Presidente do SJ, Sofia Branco) estiveram correspondentes internacionais: a britânica Alison Roberts, o alemão Jochen Faget e o brasileiro Jair Rattner. Portugal foi o centro da troca de argumento que depois se ramificou em Angola, Brasil, Alemanha e Reino Unido.

Aliás, é através destes jornalistas que Portugal é visto nos seus países de origem, mas nem por isso há maior atenção por parte dos governantes, em especial o último Governo, acusou Alison Roberts. A jornalista britânica referiu que sentiu um maior bloqueio ao acesso à informação por parte do anterior Governo PSD/CDS (por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o que contrastou com o que tinha sentido com anteriores executivos. “Envie um mail”, diz Alison Roberts, é o que mais ouve. Da mesma opinião, o alemão Jochen Faget vai mais longe: “há uma certa atitude fascista do Estado sobre a imprensa”.

Jair Rattner dá o exemplo do TINA (There Is No Alternative), a narrativa usada pelo anterior Governo. Poucos se opuseram a esta narrativa, considera, e os que o fizeram foram “marginalizados por não estarem nessa linha”. O mesmo se passou com a narrativa de diabolização da Alemanha, considera Jochen Faget: “O que mais me chocou foi que os colegas portugueses seguiram isso da culpa ser da Alemanha”, confessa, acrescentando que isso é fruto de um desconhecimento e de não existirem correspondentes portugueses sediados em Berlim.

Teoria corroborada por Alison Roberts que alerta que “o número de jornalistas no terreno na Europa diminuiu”, não hesitando em dizer que “têm existido mais pressões do que há 20 anos”. Um problema que se agrava quando a cobertura é uniformizada e monopolizada por duas ou três agências de notícias como a Reuters ou a Associated Press. “É mais fácil diabolizar o outro porque não o conhecemos”, argumenta António Rodrigues, referindo-se a casos de refugiados e atos terroristas.

Os oradores concordaram num ponto: a internet e o problema da rapidez agravam ainda mais este problema. “Ainda não aprendemos a interagir com estes meios [redes sociais]”, vinda Alison Roberts, relatando casos onde se dão informações só por um tweet, sem fact checking, o que pode levar a um ciclo vicioso de desmentidos, suposições e consequente falta de credibilidade que afasta os leitores, ouvintes ou telespetadores.

O debate fez parte do ciclo mensal Conversas Sem Gravata em parceria com a TSF. Um excerto do debate pode ser ouvido esta quinta-feira, após o noticiário das 22h.

Descomplicador:

O Sindicato dos Jornalistas promoveu ontem um debate sobre a liberdade de imprensa e Angola foi um tema incontornável com o jornalista António Rodrigues a dizer que “no Telejornal das 20h30 é transmitido um país que não existe”.

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Publicado por: Tiago Varzim

Nasceu na Póvoa de Varzim mas fez toda a sua vida em Barcelos. Agora é em Lisboa que dá os primeiros passos no jornalismo. Estudante de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Colabora com vários sites, entre eles o Panorama.

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