A inconstitucionalidade dos afetos

O que é que Marcelo Rebelo de Sousa de 67 anos de idade e o jovem primeiro ministro canadiano Justin Trudeau de 43 anos têm em comum?

Marcelo Rebelo de SousaNa idade já percebemos que existem 24 anos a separar duas gerações de políticos diferentes, no presente existe a semelhança da recente eleição de ambos para os mais altos cargos das respectivas nações. Nas áreas políticas, Marcelo seria conservador no Canadá, enquanto Trudeau um socialista em Portugal. Falando das semelhanças entre os dois, ambos têm sido notícia pela forma de estar e fazer política, sendo difícil como é óbvio, não comparar a forma das suas atuações à dos seus homólogos.

Ambos parecem ter inaugurado os ‘afetos’! Os afetos no trato político com o povo e os afetos também no trato institucional. Esta coisa dos ‘afetos’ tem andado na boca de jornalistas e comentadores, quase como se de um advento se tratasse – parece mesmo que os portugueses esperavam pelos afetos como quem espera por uma espécie de redenção, chega mesmo a parecer que era isto que faltava no quotidiano de uma nação marcada pelas dificuldades económicas e sociais da última década! Faltavam os afetos, tão e somente isso.

Justin TrudeauLíderes como Marcelo e Trudeau, têm de facto a inteligência de perceber que o povo está cansado de líderes austeros e antipáticos, Marcelo tem mesmo a vantagem de ser natural, o povo notaria à distância uma tal simpatia e afetos forçados ou hipócritas, do atual presidente o povo sente que pode esperar a sinceridade que aliás tem demonstrado. Marcelo tem mesmo aquela aura que lhe permitirá ter o perdão ou benevolência do povo quando cometer algum erro, sim porque Marcelo vai cometer erros, vai precipitar-se ou exagerar mas no final isso terá pouco interesse, porque o povo gosta dele.

O facto dos ‘afetos’ não estarem prescritos na Constituição poderia levar-nos a pensar que sim, que os afetos são inconstitucionais e que a demonstração de qualquer afeto foge das competências da figura séria e institucional do presidente da república, tal pensamento demonstra não só a forma antiquada e prosaica como muitos intérpretes da política nacional abordam os cargos que exercem como também a desconfiança e o ceticismo com que olham para os líderes ‘desempoeirados’ como Marcelo – caquéticos, olham para os afetos e simpatia como sinais de fraqueza ou leviandade – ignorando que o povo precisa de líderes que saibam alavancar a confiança e orgulho de uma nação já por si pobre nestas matérias e às vezes demasiado dependente das injeções de orgulho que o futebol proporciona.

Vereador na Câmara Municipal de Santana - Madeira. Vice-Presidente da Juventude Popular da Madeira.

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