O novo presidente, o novo Governo e o descontentamento brasileiro

12 de maio voltou a ser mais um dia marcante na vida do povo brasileiro. O processo de impeachment da agora ex-presidente, Dilma Rousseff, foi aprovado no Senado e Michel Temer tomou posse como presidente interino.

Michel Temer BrasilCom 75 anos de idade, Temer é o mais velho presidente brasileiro a chegar ao cargo e o seu mandato pode vir a durar até seis meses, período em que decorre o julgamento de Dilma no Senado.

No seu discurso de tomada de posse, o novo presidente estabeleceu como principal prioridade a economia e adotou como lema de governação “Governo Federal: Ordem e Progresso”. Defendeu também o apoio às privatizações e o reforço ao investimento estrangeiro. Falou ainda dos desafios que o país tem de ultrapassar, referindo-se à diminuição do desemprego, à manutenção dos programas sociais e ao incentivo a parcerias público-privadas.

Apesar de todas as promessas e propostas, o novo cenário da política brasileira parece não agradar os brasileiros. Estando há apenas poucos dias na presidência do Brasil, Michel Temer já é falado por todo o país… Mas não pelas melhores razões.

Um executivo despido de mulheres e negros:

 O Governo apresentado por Temer é composto, na sua maioria, por políticos, membros dos partidos que compõem o suporte Dilma Roussefdo presidente e que votaram a favor do processo de destituição de Dilma Rousseff.

Mas votos e ideologia política não são os únicos problemas que o Brasil vê no novo executivo de Michel Temer.

Na sua composição, a população brasileira é formada por duas maiorias: mulheres (51,5%) e os negros (54%). E quem integra o governo do novo presidente interino? Nem mulheres nem negros. Os vinte e três nomes que compõem os ministérios do Governo são homens e brancos.

Apesar de ainda ter tentado incluir mulheres no seu executivo, todas recusaram o pedido. Michel Temer fica, então, já marcado na história do Brasil por ser o primeiro presidente a não incluir nenhuma ministra desde 1979, revertendo uma tendência cada vez mais presente no Brasil.

Esta ausência já despoletou apreciações reprovadoras por parte de alguns políticos, meios de comunicação e cidadãos. Também organizações sociais e de luta pelos direitos das mulheres manifestaram a sua condenação, referindo-se a Michel Temer como “machista” e “misógino”.

De 32 para 23, os cortes nos ministérios:

A primeira medida tomada por Michel Temer foi a eliminação de vários ministérios. Desde a pasta da Ciência e Tecnologia, até à pasta das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, passando pela Aviação Civil ou o Desenvolvimento Agrário, o ministério que mais pareceu fazer falta aos brasileiros foi o da Cultura.

Após vários protestos e críticas de cidadãos e artistas famosos, como o cantor Caetano Veloso ou o ator Wagner Moura, a cultura, que supostamente seria transformada numa secretaria, vai continuar a ser um ministério.

Temer tentou combater os protestos com várias abordagens: prometeu nomear uma mulher para comandar a secretaria da Cultura, prometeu aumentar o orçamento para a área em 2017, mas tudo isso acabou por não ser concretizado. Em vez de mulheres e de aumentos orçamentais, Michel Temer voltou a transformar a Cultura num ministério e nomeou Marcelo Calero, um jovem diplomata, para assumir o cargo.

Corrupção, a palavra que parece não abandonar a vida dos brasileiros:

O novo gabinete executivo do Brasil integra pelo menos uma lista de doze suspeitos na Justiça, com Michel Temer à cabeça dela.

Lula da SilvaJuntamente com o presidente interino estão nove ministros mencionados na Operação Lava Jato, que investiga desde 2014 uma vasta rede de corrupção em volta da empresa petrolífera estatal Petrobras.

Três ministros ganharam o chamado “foro privilegiado” com a ida para o Governo, passando só a poder ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal. São eles Eliseu Padilha, ministro da Casa Civil, Geddel Vieira Lima, na Secretaria do Governo, e Henrique Alves, na pasta do Turismo. A estes nomes juntam-se Romero Jucá, ministro do Planeamento e Moreira Franco, assessor especial do chefe de Estado interino, todos investigados na Operação Lava Jato e todos comuns ao mesmo partido – o PMDB, que também é o partido de Michel Temer.

De “foro privilegiado” também gozam os ministros Bruno Araújo, Raul Jungmann, José Serra, Mendonça Filho e Ricardo Barros.

O novo ministro da Saúde, Ricardo Barros, viu negado um pedido de arquivamento de um inquérito em que está acusado por corrupção em contratos de publicidade da administração municipal de Maringá, no Paraná.

Já o ministro encarregue pela Defesa, Raul Jungamnn, contestou a inutilidade da realização de julgamento pelos crimes de fraude e corrupção em que estava mencionado e viu o seu inquérito ser arquivado pela Justiça federal.

Investigados por financiamentos ilícitos e irregularidades nas contas das suas campanhas eleitorais estão a ser o novo ministro da Educação, Mendonça Filho, e o ministro do Desporto, Leonardo Picciani.

Gilberto Kassab, que ficou com a pasta das Comunicações, Ciência e Tecnologia, e José Serra, ministro dos Negócios Estrangeiros, novos ministros e antigos prefeitos de São Paulo, também estão sob investigação por suspeita de crimes de “improbidade administrativa”, ou seja, de atos ilícitos praticados por funcionários públicos.

À frente da Agricultura, pecuária e Abastecimento está Blairo Maggi, que viu ser arquivado o inquérito em que estava citado por lavagem de dinheiro e corrupção, no âmbito da Operação Ararath.

Sérgio Etchegoyen, o ministro do novo Gabinete de Segurança Institucional e chefe do Estado-Maior do Exército, foi nomeado pela Comissão da Verdade, uma comissão que investigou graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, como um dos 377 agentes do Estado responsáveis por crimes durante a ditadura.

Ainda está há pouco tempo no poder, mas já todos os brasileiros não lhe poupam críticas. Por ser empossado devido a circunstâncias especiais, por ter um Governo só de homens brancos, por ter encurtado os ministérios e por toda a corrupção que parece estar envolvida em todo o executivo, Michel Temer é provavelmente o centro do furacão no Brasil, neste momento.

Descomplicador:

A população brasileira está descontente com Michel Temer e com o seu novo governo. Desde a formação, exclusivamente masculina e branca, no executivo até o desaparecimento de vários ministérios e de diversos nomes de ministros indicados em processos de corrupção, o Brasil não tem poupado críticas ao novo chefe de Estado.

zybjvmxe@pwrby.com'
Publicado por: Joana Silva

20 anos, natural da Madeira. Estuda jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social e é em Lisboa que está a dar os seus primeiros passos no jornalismo. Colabora também com o Bola na Rede.

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