Bloco defende criação de “movimento alternativo” à praxe académica

A praxe académica tem sido um dos assuntos mais discutidos em Portugal, sobretudo desde a tragédia que ocorreu na praia do Meco, em 2013. Trata-se de um tema controverso mas também, e embora seja do conhecimento público, sobre o qual existem muitas dúvidas e incertezas. Com essa ideia em mente, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda promoveu na passada sexta-feira, na Assembleia da República, um debate aberto que contou com a presença de vários nomes importantes do meio académico luso e de algumas associações estudantis, afetas ou não à praxe, assim como de organizações que lutam contra vários tipos de discriminação, como a ANIMAL ou os movimentos Não te Prives e Queima das Farpas.

Pedro Filipe Soares

O objetivo, trataram imediatamente de explicar os deputados Pedro Filipe Soares e Luís Monteiro, que abriram a sessão, não passava por tentar moldar a opinião dos presentes, mas sim por arranjar soluções para os casos em que a praxe não respeita os valores humanos nem de integração social quando, na verdade, a sua função deveria passar precisamente por facilitar a chegada dos novos alunos – os chamados “caloiros” –  a uma realidade totalmente diferente.

“A praxe atrai a grande maioria dos jovens universitários. É um fenómeno que é preciso compreender, que suscita entusiasmo, mas também repulso e controvérsia, especialmente quando surgem tragédias e casos de abuso”, começou por explicar Elísio Estanque, professor da Universidade de Coimbra e responsável por vários estudos sobre movimentos e atividades académicas. “Mais do que estas opiniões contrárias, observando o comportamento dos alunos, especialmente em Coimbra que é a realidade que eu conheço melhor, a maioria adere de forma espontânea a estes rituais académicos, não apenas pelo seu lado lúdico mas também pela diversão e integração, ao ponto de muitos obedecerem e fazerem mesmo atividades que sabem ser abusivas e autoritárias”.

Uma sociedade mais desperta para os abusos

A praxe académica não é nova em Portugal, apesar de só mais recentemente ter merecido a atenção da maioria. Então, o que terá mudado? Para o professor, a grande diferença está na forma como se comporta a sociedade dos dias de hoje, “que se rege por outro tipo de valores, que está mais desperta e atenta para este tipo de abusos. Estamos numa democracia, onde a informação circula de outra forma e os casos são difundidos e chegam a todos”. Além disso, “a Universidade passou a estar aberta não só às elites, mas também a outras pessoas, até para os filhos de pessoas da classe trabalhadora, pelo que ficou mais exposta à sociedade. A sociedade portuguesa alterou-se nas últimas quatro décadas e, por isso, a função da universidade já não é vista da mesma forma”.

Outro problema, explicou o Professor Elísio Estanque, passa pelo pouco conhecimento que os alunos têm da história e da tradição da praxe académica em Portugal. “Não sabem o significado cultural do que está para trás. Nessa matéria, as próprias instituições podiam fazer mais, nomeadamente criando iniciativas de receção e envolvimento para os novos alunos”.

A solução, porém, não passa por proibir a praxe, pois esta passaria a ser realizada “com menos controlo” e de uma forma “mais perigosa”. “Ninguém quer retirar a parte divertida da juventude, mas há que conciliá-la com a formação cultural. Se no passado era possível, por que não agora com democracia? Não se pode encolher os ombros e fingir que este fenómeno é uma brincadeira de crianças. É urgente que se faça algo mais consistente para fortalecer o sentido de cidadania na nossa sociedade. É importante canalizar este tipo de rituais para coisas que façam sentido”, arrematou o Professor.

“Só leva a que se ande para trás”

Assembleia da Republica ParlamentoAs outras contribuições foram feitas a partir da plateia que assistia à audiência e que, apesar da presença de vários alunos vestidos com o traje académico, se revelou, no geral, bastante crítica em relação à praxe. Uma das mais sustentadas foi a do Professor José Caldas de Almeida, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, que se mostrou inquieto com esta forma de integração nas universidades. “O que me preocupa nas praxes hoje em dia, e não só em relação às atividades de integração, é a regressão a que as pessoas são levadas. As universidades devem criar condições para que as pessoas possam amadurecer. Eu acho que a praxe não ajuda a universidade portuguesa a evoluir. Isto é, no meu entender, só leva a que se ande para trás”, começou por referir.

“A universidade é um momento de formação único para se interiorizar vários tipos de atitude, de compreensão do mundo e de formas de relacionamento com os outros, só que, em vez disso, alguns rituais incentivam a coisas que não vão nesse sentido. Mas o pior é que isto é um indicador de coisas mais complexas, o reflexo de algo que não está bem na sociedade em Portugal. A juventude portuguesa que está na universidade está desesperadamente à procura do mundo elitista que já não existe”, afirmou ainda o Professor, que alertou também para a “denegação que existe em Portugal em relação a casos de discriminação como a praxe”. O ideal seria, por isso, “haver uma estratégia nacional que conseguisse levar à existência de um pacto entre autoridades académicas e as associações de estudantes, que deveriam ter mais compromissos nesta matéria”.

BE quer que universidades se responsabilizem

Do lado do Bloco de Esquerda, que promoveu esta sessão, estão a ser reunidos esforços para dar sequência ao trabalho desenvolvido no Bloco de Esquerdaprojeto de resolução do partido que recomenda ao Governo várias medidas para combater a violência nas praxes académicas, e que foi aprovado por maioria em Assembleia, em fevereiro deste ano. Ao Panorama, já no final da sessão, o deputado Luís Monteiro revelou que também terá de ser realizado “um estudo sobre a realidade da praxe em Portugal” por um “grupo de académicos que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior já criou e do qual constam nomes como o de João Teixeira Lopes, sociólogo da Universidade do Porto, e o do próprio Elísio Estanque, que esteve connosco aqui no debate, entre outros da Universidade de Coimbra e até da Universidade de Lisboa”.

Para além desse estudo, o deputado do BE considera que será importante que as direções das faculdades e dos politécnicos não se responsabilizem apenas quando os atos de violência ocorrem dentro das instituições. “Isso parece-nos importantíssimo, até porque os estudantes acabam sempre por se identificar como sendo desta ou daquela faculdade”.

Por um movimento alternativo

Por fim, Luís Monteiro deixou o apelo às direções dos estabelecimentos do ensino para criarem um “movimento alternativo à praxe académica”. “Não podemos continuar a admitir que a realidade da praxe seja incentivada pelas direções das faculdades”, que deviam ser os responsáveis pela criação de “mecanismos de integração”. “Só aí poderemos dizer que há realmente uma liberdade de escolha para quem quer e para quem não quer ir para a praxe”.

“A partir do momento em que há uma responsabilidade direta das instituições sobre esse mecanismo de integração, obviamente que estamos a falar de mecanismos realmente democráticos, horizontais e plurais”, concluiu o deputado, em declarações ao Panorama.

Descomplicador:

O Panorama marcou presença na sessão que o Bloco de Esquerda promoveu para discutir a praxe académica na Assembleia da República. Deve existir “um movimento alternativo à praxe” dentro das universidades, defendeu o deputado bloquista Luís Monteiro ao Panorama.

ziglcina@pwrby.com'
Publicado por: Gonçalo Santos

Natural dos Açores, tem 22 anos de idade e é aluno do curso de Ciências da Cultura - Especialização em Comunicação e Cultura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Escreve regularmente para outros projetos nas mais diversas áreas abrangidas pelo jornalismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *