Gibraltar: um pequeno grande caso diplomático

Pelos lados de Gibraltar, o Brexit não parece ser algo tão popular como no Reino Unido. Uma sondagem publicada em abril mostra que 85% das pessoas tencionam ir votar, e que 88% querem permanecer na EU. Com as últimas sondagens a darem maior margem ao “sim”, volta a abrir-se um novo conflito diplomático e a opção de soberania partilhada volta a estar em cima da mesa. É a visão diferente do Brexit, por um pequeno território ultramarino com, apenas, 32 mil habitantes.

GibraltarO Rochedo, assim é conhecido o ponto mais a sul da Península Ibérica, tem pouco mais de 30 mil habitantes e do seu porto já se avista África. Mas por estes dias a fronteira para que se olha é outra. De costas para o continente africano e de frente para Espanha, o povo de Gibraltar está mais unido do que nunca. O objectivo é simples: manterem-se na União Europeia.

Com base nas últimas sondagens, 88% dos Gibraltarinos querem permanecer na UE. Um número apelativo, sobretudo para David Cameron que tem visto os números do “não” ao Brexit caírem. Os últimos números são do The Evening Standard, e revelam que 53% dos britânicos são a favor da saída da União Europeia, isto antes do caso que suspendeu a campanha. Talvez tenha sido por isso que Cameron decidiu ir visitar Gibraltar, uma das paragens do movimento “Stronger in Europe”. Esta seria a primeira-visita de um primeiro-ministro britânico ao território ultramarino em 48 anos. Uma visita que foi desmarcada devido ao homicídio de Jo Cox. Mas que nem assim deixou de valer a reprimenda de Mariano Rajoy: “O que se debate é se o Reino Unido fica ou sai da União Europeia e a campanha para esse efeito deveria ser feita no Reino Unido, não em Gibraltar”. O primeiro-ministro espanhol voltou a relembrar que “Espanha continua a pensar que Gibraltar é parte do seu território nacional e não do Reino Unido. Isso não deve nem pode mudar, qualquer que seja o resultado do referendo no próximo dia 23”.

Gibraltar 2Em Gibraltar, vivem-se “tempos sem precedentes”, palavras do primeiro-ministro. Fabian Picardo, primeiro-ministro de Gibraltar, diz que o consenso é geral, “Tanto eu, como os meus antecessores, assim como todos os partidos políticos, todos os sindicatos, organizações, trabalhadores, clubes, associações, etc.”, estão contra o Brexit. Uma eventual saída é avaliada pelo próprio como uma a “slam dunk decision”, – ou, em bom português, um grande afundanço para Gibraltar.

Com cerca de 32 mil habitantes e uma área de 6,8 km quadrados, Gibraltar construiu uma economia à volta do seu porto marítimo e na transacção de serviços para o resto da Europa. Foi, aliás, o acesso ao mercado único europeu que permitiu a Gibraltar um grande crescimento económico, mesmo em tempos de crise – em 2014, o PIB per capita foi de 62 mil euros, em comparação com os 26 mil de Espanha e os 37 mil no Reino Unido.

“Sabemos que deixar a União Europeia é também abandonar o mercado único. Para Gibraltar, isso é a diferença entre um mercado de 32 mil pessoas e um mercado de 520 milhões”, realça Fabian Picardo ao The Guardian. Nestes termos, o Brexit representa uma ameaça à economia do território britânico ultramarino. “A eventual saída iria forçar a um novo modelo económico”, diz Picardo. “É por esta razão que grande parte das pessoas aqui vai votar “não” à saída”.

Uma questão diplomática, antiga

O Brexit não apresenta, apenas, constrangimentos económicos para o Rochedo. Uma eventual saída da União Europeia, pode por em causa a soberania britânica sobre o território ultramarino situado no sul da Península Ibérica. Gibraltar passou para mãos britânicas em 1713, e praticamente, desde então que Espanha o quer recuperar.

Referendo Reino Unido BrexitO ministro dos negócios estrangeiros de Espanha, José Manuel García-Margallo,  dá seguimento a esta vontade secular de voltar a integrar Gibraltar no território espanhol, e deixou no ar, na semana passada, a possibilidade de uma soberania partilhada. Isto de forma a garantir o acesso do Rochedo ao mercado único europeu, caso vença o “sim” no dia 26 de junho. Esta decisão surge no seguimento de algo que o ministro espanhol classifica como óbvio: “se Gibraltar sair da União Europeia, então não terá acesso ao mercado único”.

A saída do Reino Unido da UE, não é um objecto estranho e já foi equacionado. Segundo, García-Margallo, “É necessário encontrar uma ligação que permita ligar Gibraltar à União Europeia”. Realçando assim a ideia de soberania partilhada. Uma decisão que não parece ter muitos adeptos, e que já esteve em cima da mesa. No virar do século o tema foi debatido e em 2002 referendado. Venceu o não a esse modelo de governação partilhado, com uma vincada maioria: 98%.

Há 14 anos a resposta foi não, mas desta vez pode ser diferente. Uma solução que permita manter uma ligação entre Gibraltar e a União Europeia pode agradar à população. Por isso, o destino do Rochedo está agarrado às eleições de Espanha, que acontecem três dias depois do referendo. Já se sabe que a posição do PSOE está na base de um esforço para que a haja uma fronteira aberta entre Gibraltar e Espanha, e por consequente aos restantes países da UE.

Caso Gibraltar perca o acesso ao mercado único europeu, as consequências podem ser graves. Tanto para o pequeno território ultramarino, como para Espanha. Todos os dias mais de 10 mil espanhóis atravessam a fronteira para irem trabalhar, e cerca de 25% de todos os trabalhos, na zona envolvente a Gibraltar, dependem da economia do Rochedo.

Descomplicador:

Gibraltar une-se à volta da permanência na União Europeia. Para este pequeno território britânico a permanência na UE é essencial porque o Rochedo depende do movimento comercial do seu porto, que beneficia com o mercado único. O Brexit pode levar Gibraltar a virar-se para um regresso à soberania espanhola.

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Publicado por: Tomás Gomes

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