Pedro Filipe Soares: “O acordo não está à espera de nenhuma prova de fogo para chumbar”

 peter filipe soaresPedro Filipe Soares é o atual líder parlamentar do Bloco de Esquerda e esteve à conversa com o Panorama na X convenção do partido. Hoje, assume um papel diferente daquela que tinha em 2014, quando fazia parte da liderança bicéfala de um Bloco bastante dividido.

Panorama: Que Bloco de Esquerda chega a esta convenção?

R: Eu creio que é um Bloco mais forte, mais capaz, com desafios diferentes dos que teve no passado. Está neste momento numa solução de maioria parlamentar em que nunca tinha estado. É terreno a desbravar por nós, que é um desafio interessante, mas com um enraizamento, com um alargamento de aderentes muitos jovens, que é o tradicional do Bloco. Conta agora com faixas etárias mais elevadas, o que traz debates diferentes e maior força para nós irmos à disputa daquilo que é o essencial, que no fundo são as pessoas.

P: Catarina Martins diz que isto é só o inicio do crescimento do bloco. Onde é que querem chegar?

R: A pergunta óbvia é se o céu é o limite [ri-se], mas nós não estabelecemos limites às nossas ideias. Nós queremos conquistar mais opinião, mais maioria social e confiança para que isso se transforme em resultados eleitorais e em transformação concreta da vida política. É nesse campeonato que nós estamos a jogar, no ativismo, na capacidade de ganhar pessoas para as nossas ideias, de mobilizar a sociedade para que haja cidadania para que essas ideias sejam valorizadas e debatidas, etc; E também ter a capacidade para mudar as instituições, e é esse o caminho que queremos fazer para ter mais força, mais resultados eleitorais. Para mudar leis é necessária uma maioria parlamentar.

P: Catarina Martins disse que o Bloco ainda não está preparado para ir para o governo, mas já deu um passo ao dar apoio parlamentar ao PS. É possível um outro Bloco, menos reinvindicativo e mais próximo do centro?

R: O que queremos é ganhar expressão nas nossas ideias para que a aplicação delas se traduza em mais direitos para as pessoas. Acreditamos que muitas das nossas ideias têm espaço para fazer um caminho maioritário na sociedade. Hoje, os jovens, na sua larga maioria, percebem que precisam de mais direitos do que a precariedade, que lhes leva vida, salários, futuro e que lhes impede que mais rapidamente se emancipem. Também cada vez mais pessoas avançadas em idade percebem que descontam muito para a segurança social, mas cada vez mais lhe dizem que lhe está a ser cortada. É necessário ter políticas públicas para garantir solidariedade a quem está numa idade mais avançada. E hápedro-filipe-soares-be3 uma maioria social sensível a esse debate e a essa capacidade de se mobilizar para chegar a esses resultados. O estado social, uma saúde e uma escola pública de qualidade são também elementos que trazem dezenas de milhares de pessoas para a rua. Ora, são todas ideias que não nos colocam num patamar na centralidade da política, que não nos colocam mais comedidos ou reformistas, mas sim nos demonstram que nós com a nossas ideias conseguimos chegar a mais pessoas. Temos de ter a arte para o conseguir fazer.

“Este é um acordo teimoso”

P: Qual é o balanço que faz do acordo à esquerda?

R: Este é um acordo teimoso: teimou em aguentar em cada um dos momentos em que diziam que ia cair, na questão do orçamento principalmente. Foi-se aguentando e mostrando que foi debatido com um aprofundamento muito maior do considerado, por um lado. Por outro, tem uma capacidade de ter consequências diretas na vida das pessoas e enquanto isso for possível, o acordo fará sentido. Quando deixar de o fazer, alguma das partes terá de rever a sua opinião sobre ela. É o normal em qualquer acordo que se faça. Neste contexto, o BE conseguiu já um conjunto de medidas importantes. Sabíamos que isto era feito por fases, e por isso muitas medidas concretas foram aplicadas no orçamento de estado: o aumento do salário mínimo, a tarifa social da eletricidade, o aumento dos apoios sociais […]. Criámos um conjunto de grupos de trabalho, onde iríamos aprofundar ideias, apresentar soluções, debater matérias em que o PS tem opiniões absolutamente contrárias às nossas, mas com abertura e a franqueza de dizer se concordam ou não, se há algo a aproveitar das duas opiniões. Fizemos isso para chegar ao orçamento de estado, e no próximo teremos mais conquistas.

P: O próximo Orçamento de Estado pode ser uma prova de fogo para este governo?

R: Este acordo não está à espera de nenhuma prova de fogo para chumbar. Pelo contrário: a prova de fogo é a aplicação quotidiana. Ele pode ser rescindido por qualquer uma das partes livremente, não há uma prisão para ninguém. E nós achamos que é possível estar nele, mas batemo-nos com consciência e com capacidade para que neste processo antecipemos problemas. E é por isso que estamos a quatro meses do orçamento e já temos grupos de trabalho que estão a trabalhar desde fevereiro para chegar a essas medidas.

pedro-filipe-soares-beP: Nas ultimas autárquicas o BE teve um mau resultado. Como vai ser a estratégica do Bloco para as autárquicas? É possível haver coligações, como estratégia para lá chegar?

R: Eu tenho uma visão otimista sobre os resultados de 2013: bem, aquilo foi mau, agora só pode melhorar. Sobre as nossas capacidades, tenho muita confiança. O Bloco é um partido jovem, mas tem aprendido a enraizar-se e tem tido hoje mais trabalho autárquico do que no passado e permite ter mais esperança. Ainda assim, será sempre um teste difícil para o  BE, porque temos consciência das nossas limitações e sabemos que há passos que não se saltam e há um caminho que tem sido sempre feito. O que estamos dispostos a fazer é ir a eleições, disputa-las com as listas do Bloco, com independentes, com movimentos dos cidadãos, com essa abertura toda, e depois dessas eleições, estaremos disponíveis para as responsabilidades possíveis. Como é óbvio, para participar em executivos que cumpram politicas que defendam as pessoas contra os interesses imobiliários, contra a corrupção que ainda exista nas autarquias, numa lógica de funcionamento de autarquias mais próximas das pessoas. São formas de estar que dão abertura para que nós possamos estar em executivos. Nunca em executivos contra estes valores.

P: Amanhã há eleições em Espanha. As sondagens preveem um resultado idêntico às eleições de dezembro. A coligação do podemos e da izquierda unida também estão a concorrer. O que é que pode mudar, se os resultados efetivamente forem iguais?

R: A esperança dita que haja a possibilidade de termos uma lufada de ar fresco, que ajude a levar a ventos novos para esta Europa que deles precisa. A Europa está em desagregação fruta de culpa própria, com líderes na EU que não estão à altura dos tempos que correm. O que se perspetiva nesta nova dinâmica? Há já uma variável nova e interessante, que é a de termos a Izquierda Unida e o Podemos juntos, na mesma disputa e nas mesmas listas. É um aditivo ao que tinha sido apresentado anteriormente, e por isso deu-lhes uma força também maior do que aquela que tiveram no passado. Esperemos que as sondagens se enganem e eles tenham ainda mais força. Já aconteceu no passado e esperemos que esse erro se repita pela positiva.

Com Luís Fernandes

Descomplicador:

O atual líder parlamentar do Bloco de Esquerda assume hoje um papel diferente da que tinha na última convenção. Assume que o Bloco tem acompanha mais faixas etárias e sublinhou que o acordo conseguido com o PS foi teimoso: não caiu, mesmo em questões mais difíceis como o orçamento de Estado.

zmjgloth@clrmail.com'
Publicado por: Gonçalo Nuno Cabral

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