Iraq Inquiry: 7 anos depois, as tão desejadas respostas

6 de junho de 2016, o dia em que, finalmente, o relatório do Iraque chegou ao fim. Foram precisos sete longos anos para que todo este processo, que estava inicialmente previsto durar apenas três, visse a luz do dia. Mas porque demorou assim tanto tempo? E, afinal, porque é também conhecido por “Chilcot Report”? Haverá consequências criminais para os envolvidos? Qual o principal objetivo do Iraq inquiry? E quais as conclusões da investigação?
Comecemos pelo início.

Iraq InquiryO quê, quando e porquê?

Em junho de 2009, Gordon Brown, então primeiro-ministro inglês, ordenou que se realizasse um inquérito a todo o processo relativo à invasão do Iraque. Todo o período desde o verão de 2001 até julho de 2009, foi alvo de uma análise minuciosa.

O principal objetivo foi o de retirar conclusões relativamente à intervenção britânica no Iraque para que, no futuro, e em situações semelhantes, a resposta seja mais adequada. A investigação teve como meta tentar encontrar resposta para duas grandes perguntas:

Foi o mais correto e necessário invadir o Iraque em 2003?

Deveria o Reino Unido ter-se preparado melhor para o que se seguiu?

Segundo noticiam alguns jornais ingleses, o relatório, que tem cerca de 6 mil páginas e mais de 2 milhões de palavras, terá custado quase 13 milhões de euros. O Chilcot Report, como ficou conhecido, ouviu todos os intervenientes no processo, sejam eles políticos ou militares, e demorou bastante mais do que o previsto, devido a divergências entre a investigação e o governo sobre que documentos, considerados como confidenciais, poderiam ser publicados no relatório e/ou referidos no mesmo.

Chilcot Report ou Iraq Inquiry? Afinal, do que estamos a falar?

Chilcot Report ou Iraq Inquiry são exatamente a mesma coisa. O nome Chilcot Report surge devido a John Chilcot, principal responsável pela condução de todo este processo, ter ganho especial relevância pela sua extraordinária capacidade de conduzir toda esta investigação a bom porto.

Quem é John Chilcot?

John Chilcot tem 77 anos e é um ex-funcionário público inglês. Aposentado do serviço público desde 1997, chegou a ocupar cargos de alto prestígio na função pública, nomeadamente o de presidente do gabinete para assuntos relacionados com a Irlanda do Norte. Após se ter reformado, e de 1999 a 2004, foi consultor do MI5 e do MI6 para assuntos relacionados com queixas dos trabalhadores relativamente às suas condições de trabalho.

No que à invasão do Iraque diz respeito, Chilcot foi membro da Butler Review, investigação relativa aos motivos que justificaram a invasão do Iraque.

No presente, e para além de ser o responsável máximo pela condução do Iraq Inquiry, é presidente de uma think thank do Reino Unido para o policiamento.

Mas, esta é a primeira investigação sobre a invasão do Iraque?

Não, o Iraque Inquiry é a quarta investigação sobre a invasão do Iraque. Em 2003, a Comissão para os assuntos externos (Commons Foreign Affairs Committee) e o Comité parlamentar para inteligência e segurança (Parliamentary Intelligence and Security Committee) analisaram os pressupostos/informação que justificaram a invasão do Iraque.

De seguida, em janeiro de 2004, nova investigação: The Hutton inquiry. Desta vez, o objetivo foi o de examinar as circunstâncias da morte de David Kelly, cientista e conselheiro sobre armamento. No mesmo ano, mas em julho, nasceu a The Butler inquiry. Esta investigação voltou a olhar para a informação que foi utilizada para justificar a invasão do Iraque.

Contudo, o Chilcot Report é a mais longa e profunda investigação sobre a invasão do Iraque.

Responsabilidades apuradas: Blair em maus lençóis

Tony BlairNa sua declaração ao público, na passada terça-feira, John Chilcot anunciou as grandes conclusões a que a investigação chegou. Essas mesmas conclusões assentam em quatro grandes pontos:

  • O Reino Unido decidiu juntar-se à invasão do Iraque sem que tivessem sido esgotadas todas as tentativas pacíficas para o desarmamento dos iraquianos;
  • No que diz respeito à posse de armas de destruição maciça por parte do Iraque, a investigação concluiu que, aquando da tomada de decisão da invasão do Iraque, tal não era uma certeza e foi apresentado à opinião pública como tal;
  • Concluiu-se também que, “apesar dos fortes avisos”, as consequências da participação militar do Reino Unido na invasão do Iraque não foram tidas em conta. Chilcot chegou mesmo a afirmar que “a preparação foi bastante inadequada”;
  • Por último, a investigação entendeu que os objetivos estabelecidos pelo governo não foram, de todo, alcançados.

Blair e Bush: “I will be with you, whatever”

Outros dos pontos abordados no Chilcot Report é a relação entre o Reino Unido e os Estados Unidos. Foram, inclusive, tornadas públicas algumas das conversas entre Blair e Bush.

Referindo-se a um encontro entre Tony Blair e George W. Bush, em abril de 2002, no Texas, a investigação indica que naquela altura o Reino Unido tinha alterado totalmente a sua visão sobre o Iraque:

  • Em primeiro lugar, as instituições britânicas tinham chegado à conclusão de que Saddam Hussein só sairia do poder através de uma invasão;
  • Em segundo lugar, o governo entendia que o Iraque era uma ameaça eminente. Em suma, tinha de se desarmar ou ser desarmado;
  • Nesse mesmo encontro, Chilcot afirma que começou a ser traçado um plano de larga escala tendo em vista a invasão do Iraque, caso o mesmo não se comprometesse a iniciar o processo de desarmamento.

Barroso Blair Aznar BushAinda sobre as relações entre britânicos e americanos, o relatório fala-nos de uma mensagem que Blair enviou a Bush no dia 28 de julho de 2002: “estou contigo, independentemente de tudo”. Todavia, Chilcot disse também que Blair impôs alterações em três áreas que considerava chave para o sucesso da invasão do Iraque:

  • Progressos na região do médio oriente;
  • Total autoridade por parte das Nações Unidas;
  • Uma mudança da opinião pública no Reino Unido, Estados Unidos e no mundo árabe;
  • A necessidade de um compromisso a longo prazo no que ao Iraque diz respeito.

No que a este tema diz respeito, e fazendo uma cronologia dos acontecimentos, a investigação chegou à conclusão de que o Reino Unido “minou a autoridade das Nações Unidas”.

Outra das conclusões retiradas sobre a relação entre os Estados Unidos e o Reino Unido foi a de que a aliança entre os dois países “não justifica um apoio incondicional quando os interesses britânicos estão em causa”.

Tony Blair, para já, livre de acusações criminais

O relatório também se manifesta relativamente à legalidade ou não da intervenção militar britânica no Iraque. No documento tornado público, podemos ler que, embora o objetivo da investigação não fosse determinar “se a intervenção militar foi ou não legal”, John Chilcot e a sua equipa concluíram que houve uma base legal “mais do que satisfatória” para justificar a intervenção do Reino Unido no Iraque.

Todavia, e a imprensa internacional tem vindo a especular bastante sobre esta possibilidade, é possível que Jeremy Corbin, que foi desde o início contra a intervenção do Reino Unido  na guerra do Iraque, venha a acusar Tony Blair de crimes de guerra.

Um antes e depois desastroso

Um dos pontos em que o relatório é mais duro para com a atuação do Reino Unido em todo este processo é na preparação para o conflito. Apesar de Blair ter afirmado ao comité que era “impossível prever as dificuldades após a invasão”, o relatório não tem quaisquer dúvidas em afirmar que as dificuldades eram bastante previsíveis e que essa mesma falta de planeamento trouxe bastantes dificuldades durante e após o desenrolar do conflito.

Ainda sobre este tema, o comité entendeu que, apesar de o Reino Unido ter estado “implicado nos centros de decisão”, falhou em influenciar a decisão dos mesmos. No relatório, pode mesmo ler-se que a “estratégia mais consistente do Reino Unido relativamente ao Iraque foi reduzir a presença das suas tropas”. Em suma, e foi desta forma que John Chilcot terminou a sua intervenção relativamente a este tema, “a intervenção militar do Reino Unido no Iraque esteve longe de ser bem sucedida”.

Tony Blair: “Foi uma das decisões mais difíceis que tive de tomar”

Tony BlairDuas longas horas, foi a duração da conferência de imprensa de Tony Blair para se defender de algumas das acusações presentes no Chilcot Reporter. Blair começou por assumir total responsabilidade pelas consequências do pós guerra. No entanto, recusou algumas das acusações que lhe foram feitas no relatório Iraq Inquiry, nomeadamente sobre o facto de não ter esgotado todas as possibilidades pacíficas antes da invasão do Iraque, alegando que havia a suspeita de que o Iraque possuía armas de destruição maciça e ainda o perigo do aumento de ataques terroristas.

Relativamente ao facto de ter dito a George W. Bush que “estou contigo, independentemente de tudo”, Blair afirmou que aquilo “não significava um cheque em branco, nem foi tido como tal”.

O primeiro-ministro inglês entre 1997 e 2007 afirmou ainda que optou pela invasão do Iraque porque achava que era o que estava correto e que “foi uma das decisões mais difíceis que tive de tomar”.

George W. Bush: “o mundo é um sítio melhor sem Saddam Hussein”

Também George W. Bush não tardou a reagir à publicação do relatório Iraq Inquiry. O ex-presidente dos Estados Unidos da América disse que continua a acreditar que o mundo é um sítio melhor sem Saddam Hussein. Bush afirmou ainda que não houve aliado mais forte do que o Reino Unido aquando da liderança de Tony Blair.

Jeremy Corbyn: um pedido de desculpas

Jeremy CorbynO líder do Partido Trabalhista não quis faltar à chamada e também ele reagiu à publicação do Chilcot Report. Corbyn, em nome do “Labour”, pediu desculpa pela invasão do Iraque em 2003, mas com uma particularidade: “o pedido de desculpas é, em primeiro lugar, para a população do Iraque (…) centenas de milhares de pessoas perderam a vida e também o país em que viviam (…) as minhas desculpas também para as famílias dos soldados que perderam a vida no Iraque ou que voltaram de lá feridos”.

Responsabilidades políticas: a ultima batalha de Cameron

As consequências políticas da publicação do Chilcot Report deverão cair, para já, sobre David Cameron. O seu sucessor terá, também ele, que lidar certamente com este problema. No entanto, o ainda primeiro-ministro inglês deverá ter neste assunto a sua última grande batalha politica.

No entretanto, Cameron já se pronunciou sobre o tema e afirmou que a conclusão que se deve tirar desta investigação é que levar o país para a guerra deve ser sempre o último recurso.

Descomplicador:

Foi publicado ontem o Iraque Inquiry, um relatório que demorou sete anos a ser produzido no Reino Unido e que traz a publico várias conclusões sobre a participação do Reino Unido na guerra do Iraque. Este é o mais completo trabalho produzido sobre o tema.

xksxja@pwrby.com'
Publicado por: Duarte Pereira da Silva

20 anos, natural de Lisboa mas “radicado” no Algarve desde cedo. Estudante de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Colabora com o site desportivo “Bola na Rede”.

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