O Velho do Restelo morreu!

O futebol enterrou finalmente o maior fantasma da nação portuguesa. Dito desta forma parece demasiado redutor que tenha sido o futebol a sepultar o velho mais velho de Portugal, ao fim de quase cinco séculos desde a publicação d’Os Lusíadas, o Velho do Restelo morreu – o “velho, de aspeito venerando, que ficava nas praias, entre a gente, (…) meneando três vezes a cabeça, descontente” e que, de um “experto peito” dizia coisas como – “Mísera sorte!”

Portugal Euro2016Apesar de gostar de futebol, escrevo este artigo com a noção clara de que não devia ser necessário um campeonato da Europa em futebol para enterrar fantasmas. Portugal sempre teve motivos, pessoas e feitos para ser uma nação mais confiante nas suas capacidades. Talvez a falta de auto-estima coletiva somada a um certo vazio de massa crítica, expliquem, que Portugal desse demasiada importância aos eloquentes velhos do restelo que por aí andam, espraiados nas ‘praias’ do mediatismo, armados em prognosticadores, gurus e oráculos da nação a quem nós portugueses com a humildade que nos caracteriza tiramos o chapéu.

Velhos do Restelo, Sebastianismos, Salazarismos fazem parte de uma cultura epiteto-maníaca agarrada a nostalgias que não acrescentam absolutamente nada. Cultivar fantasmas saudosistas dando-lhes uma importância quase constitucional não é de um povo que se quer alavancar para o futuro!

Pragmatismo – se há lição a retirar da vitória de Portugal no campeonato da Europa e que nos mostra que o caminho não se faz sempre da mesma maneira, essa lição foi dada em França com Fernando Santos à cabeça. Muitos velhos do restelo diziam que tivemos melhores seleções do que esta – Oh! Sim! – A seleção de Figo, Rui Costa e João Pinto! Jogavam um futebol bonito e mesmo assim não ganharam nada! – Há de ser agora estes! – Só com uma estrela, um brasileiro na defesa e um tal Éder como único ponta de lança que vão ganhar alguma coisa! – risos.

Fernando SantosHoje temos a fácil certeza de que as decisões tomadas por Fernando Santos foram corretas, hoje assumimos com naturalidade que é preferível jogar menos bonito e vencer, do que, por exemplo, acabar um jogo com posse de bola acima dos 55% e perder ou então, ter jogadores de técnica apuradíssima e os outros – toscos, à primeira oportunidade na nossa área fazerem golo – hoje sabemos tudo isto mas no principio desconfiamos.

Desconfiamos porque verdadeiramente nunca acreditamos – como o Velho do Restelo no canto IV dizia – “Desta vaidade, a quem chamamos Fama! Ó fraudulento gosto, que se atiça (…) Já que nessa gostosa vaidade tanto enlevas a leve fantasia.”

No futebol como no resto das nossas vidas enquanto portugueses, temos a obrigação de confiar mais nas nossas capacidades, sonhar e jogar bonito quando for possível mas sermos práticos quanto aos nossos objetivos. Ao povo maravilhoso que somos, pede-se-nos que escutemos quem nos empurra para a frente e façamos surdina àquelas vozes proféticas da desgraça que na ânsia do protagonismo e do brilho dos seus comentários apenas veem a “Mísera sorte” do Velho do Restelo.

Vereador na Câmara Municipal de Santana - Madeira. Vice-Presidente da Juventude Popular da Madeira.

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