O homossexual do elevador, o obituário de Rangel e outras crónicas polémicas de José António Saraiva

O nome de José António Saraiva, o arquiteto que dirigiu o semanário Expresso durante 22 anos e fundou em 2005 o concorrente Sol, voltou esta semana à imprensa e às redes sociais pelos piores motivos. Tudo tem a ver com o novo livro que Saraiva vai lançar – e que será apresentado pelo líder do PSD, Pedro Passos Coelho – com intenção de revelar alguns segredos sobre políticos portugueses, incluindo segredos da vida íntima que passou a conhecer graças a conversas privadas.

José António SaraivaSe algum do conteúdo do livro já foi citado ou referido nas redes sociais – personalidades como Fernanda Câncio ou Daniel Oliveira já vieram pronunciar-se para criticar a atitude de revelar conversas privadas sobre terceiros, nomeadamente as que Saraiva manteve com políticos entretanto falecidos, como Miguel Portas -, a verdade é que esta não é a primeira vez que o arquiteto gera polémica (recorde-se que Saraiva é também autor de “Confissões”, livro dedicado, precisamente, a explorar conversas e revelações de políticos portugueses).

Se Saraiva já se viu no olho do furacão das redes sociais anteriormente, boa parte dessas ocasiões deveu-se a crónicas publicadas no jornal que fundou e dirigiu, o Sol. Selecionámos alguns excertos das crónicas mais controversas do arquiteto:

  1. “Homossexuais contestatários

A crónica em que Saraiva relata o seu encontro com um rapaz supostamente homossexual no elevador que liga as ruas da Baixa ao Chiado, uma zona “preferida pela comunidade gay”, chamou as atenções dos leitores e tornou-se viral. Nela, Saraiva comenta os gestos com que o rapaz “ostensivamente” mostra ser homossexual e questiona o efeito “propaganda” da homossexualidade.

“Ao olhar esse jovem que ia à minha frente no elevador, pensei: será que há 20 anos ou 30 anos ele teria a mesma atitude, assumiria tão ostensivamente a sua inclinação? E, indo mais longe, se ele tivesse sido jovem nessa altura seria gay? Tive dúvidas. Ao observar aquele rapaz tive a percepção clara de que a sua forma de estar, assumindo tão evidentemente a homossexualidade, correspondia a uma atitude de revolta”.

      2. “As mulheres são mais felizes?”

Uma entrevista de Lídia Jorge ao “Sol” funcionou como pretexto para esta crónica, que se concentra no novo papel que as mulheres trabalhadoras desempenham no seio das famílias – e em como isso pode significar uma crise para todos os membros do núcleo, incluindo para as crianças, que ficam “a um passo” do “consumo de drogas ou tentativas de suicídio”.

“Na sociedade matriarcal as mulheres eram o pilar da família: efectuavam os trabalhos domésticos, transmitiam segurança aos filhos através da presença em casa, garantiam o equilíbrio familiar. Quando as mulheres começam a sair de casa para irem trabalhar, todo este equilíbrio naturalmente desaba. A casa fica vazia durante o dia inteiro e há tarefas que não se executam. As crianças não têm com quem ficar e vão para creches. As mulheres chegam a casa estafadas ao fim do dia de trabalho, não tendo paciência para os filhos nem para fazer nada (…) As mulheres conversam mais tempo com alguns colegas do que com os maridos, criando relações de cumplicidade. A família relativiza-se, passa a segundo plano. Os adultérios, concretizados ou apenas idealizados, tornam-se mais frequentes.”.

 3. As referências estão a desaparecer?

A propósito da “figura grotesca da mulher com barba”, que muitos leitores acreditaram ser uma referência à cantora Conchita Wurst, José António Saraiva decidiu escrever sobre a perda de referências na sociedade atual, que pode ir da pergunta “por que é que não hei de andar roto” à mais polémica “por que é que dois homens ou duas mulheres não podem casar-se?”.

“Quando as regras que contribuíam para unir as pessoas, para lhes transmitir o sentimento de pertença a um grupo humano, estalam, inicia-se o processo contrário: a desidentificação com o próximo e a desagregação do grupo. É também por esta razão que me tenho manifestado contra o casamento gay. Até há poucos anos, quando se falava em casamento, pensava-se em união de um homem e de uma mulher – usando-se também, para designar o acto, a expressão ‘constituir família’. Fulano «vai constituir família», dizia-se. Porque a seguir ao casamento vinham naturalmente os filhos, depois os netos, etc. Ora o casamento gay é por natureza estéril. Claro que pode haver adopções, ou então cada um dos membros do ‘casal’ ter os seus filhos. Mas não podem ter filhos em comum. E isto faz toda a diferença”.

        4. Repouse em paz

À imagem do seu novo livro, esta crónica causou polémica por se focar numa pessoa que entretanto falecera, em jeito de obituário com revelações pessoais e algumas críticas sobre a personalidade do falecido. Saraiva escrevia sobre Emídio Rangel, fundador da SIC e da TSF, desejando que encontrasse “a paz que lhe faltou em vida”. O novo livro também incluirá um capítulo sobre Rangel.

“E após a ruptura do casamento com Margarida Marante, vim a saber por ela de agressões físicas. Depois foi o cancro de Rangel e os tristíssimos episódios do consumo de drogas que Margarida Marante trouxe a público – percebendo-se que a relação entre os dois fora brutalmente destrutiva para ambos. Após a morte de Margarida, Rangel chegou a dizer que não lamentava o seu desaparecimento, pelo mal que ela lhe fizera”.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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