Afinal, como e em quem votam os norte-americanos?

Em Portugal, é fácil perceber os resultados das eleições presidenciais: ganha o candidato que conseguir a maioria absoluta (havendo depois a hipótese de uma segunda volta), e – mais importante – os resultados refletem diretamente, em percentagem, a quantidade de votos colocados nas urnas a favor de cada candidato. Talvez por isso seja difícil perceber o complexo e indireto sistema que rege as eleições norte-americanas: mas afinal, como é que se vota – e em que é que se vota – nos Estados Unidos?

Hillary TrumpO primeiro conceito a perceber é o do Colégio Eleitoral, que determina o carácter indireto das eleições. Quando há eleições, a cada estado norte-americano é designado um determinado número de delegados, que votam no Colégio Eleitoral, proporcional ao seu tamanho e ao seu número de representantes no Senado e na Casa dos Representantes. Por exemplo, a Califórnia, o maior estado norte-americano, tem direito a 55 votos no Colégio Eleitoral; estados mais pequenos, como o Wyoming ou Washington DC, têm apenas 3 votos no órgão.

O sistema traduz os votos populares em votos para este Colégio Eleitoral através da filosofia do “Winner takes it all”; ou seja, os votos dos eleitores a favor de cada candidato num estado não são refletidos proporcionalmente nos votos do colégio eleitoral a favor de cada candidato. Pegando no exemplo da Califórnia, se por exemplo Clinton ganhar no estado – tendo 47% ou 99% nos votos, é indiferente – tem direito aos 55 votos para o Colégio Eleitoral desse estado (e assim os somará a todos os outros estados que ganhar).

É aqui que entra a parte mais complicada: é que estes votos correspondem a delegados previamente eleitos pelos partidos e que correspondem a figuras sénior e representantes locais dos partidos. Dependendo dos estados, eles poderão ser obrigados a votar de acordo com o voto popular (ou seja, se Clinton ganhou na Califórnia, os delegados do estado votam nela) ou não, tornando-se “faithless electors”. Há pouquíssimos casos de faithless electors – a BBC dá conta de um total de nove e uma abstenção – e nenhum mudou o resultado de uma eleição.

Bush vs Al Gore, um caso polémico

Assim, com este sistema, idealizado em 1787 pelos fundadores do país e da Constituição com o objetivo de guardar o clinton trump 2voto para os representantes mais informados e mais conhecedores de cada Estado, o voto não é direto e nem sempre o resultado reflete a vontade popular, o que pode gerar controvérsia. Isto aconteceu em apenas quatro casos desde 1804 – um deles foi a primeira eleição de George W. Bush em 2000, com 271 votos no Colégio Eleitoral (são precisos 270, ou a metade mais um voto do total de 538, para se tornar vencedor) apesar de o rival Al Gore contar com mais 0,5 pontos do voto popular. Os únicos estados que são a excepção a este sistema indireto são o Nebraska e o Maine, e no caso de empate a Casa dos Representantes vota para decidir o Presidente (a decisão sobre o vice-presidente fica a cargo do Senado).

Em resumo, a chave para vencer está nos swing states – os estados que apresentam resultados imprevisíveis e que dificilmente são atribuídos a um candidato com antecedência. Estados como a Flórida (com 19 votos no Colégio Eleitoral) ou o Ohio (com 18), mas também Pensilvânia, Wisconsin, New Hampshire, Minnesota, Iowa, Michigan, Nevada, Colorado ou Carolina do Norte, podem ser a chave para a eleição – de 1960 até hoje, o resultado no Ohio refletiu sempre o da eleição geral e o da Flórida divergiu apenas uma vez.

Votar em tudo de uma vez

No entanto, apesar de todas estas explicações sobre as eleições para o próximo ocupante da Casa Branca, é preciso relembrar que este dia servirá também para os americanos escolherem os membros da Casa dos Representantes (a câmara baixa do Congresso), um terço dos representantes do Senado e votarem num sem número de referendos em vários estados e sobre vários assuntos.

Chegámos então ao tão esperado dia – a segunda terça-feira de novembro, o dia decidido no século XIX por novembro ser então um mês tranquilo para os agricultores, por não obrigar os habitantes das aldeias a viajar até às cidades a um domingo com o propósito de votar e por não calhar (como poderia ser o caso da primeira segunda-feira) no dia de Todos os Santos nem nos dias em que se fazia a contabilidade das empresas.

Descomplicador:

O Panorama explica-te o que é isto do Colégio Eleitoral, a forma como se decide nesta eleição indireta quem será o próximo Presidente ou até porque é que se vota nesta segunda terça-feira de novembro.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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