O muro avança e o resto recua? Contradições e confirmações de Donald Trump

Afinal, que tipo de presidente vai ser Donald Trump? Será que vai assumir a personagem que diz ter criado durante a campanha e cumprir todo o tipo de promessas inacreditáveis, da construção de um muro pago pelo México à nomeação de um procurador especial com o objetivo de prender Hillary Clinton? Ou irá ele, como agora defende boa parte da imprensa e dos comentadores políticos, cingir-se a um papel mais sóbrio e discreto, desiludindo os eleitores que o colocaram na Casa Branca e tornando-se uma espécie de estadista?

A verdade é capaz de estar no meio destas duas hipóteses, revelou esta sexta-feira a entrevista ao presidente eleito emitida pela CBS e transmitida esta terça-feira em Portugal pela SIC. Na primeira entrevista desde que há uma semana Trump ganhou esta imprevisível corrida e se tornou o 45º líder dos Estados Unidos, o novo presidente mostrou que há promessas para manter e promessas que fizeram apenas parte da sua retórica enquanto candidato (e também há algumas que ainda não consegue colocar em nenhuma destas categorias).

DONALD-TRUMP

  1. O muro é para avançar

Foi uma das promessas mais polémicas da campanha e por isso mesmo uma das revelações mais aguardadas nesta entrevista: o muro vai mesmo ser construído na fronteira com o México, sendo “numas partes um muro, noutras uma vedação” e fazendo parte da “excelente” política de imigração em que Trump diz estar a trabalhar – espera-se que com ela se coloquem 2 a 3 milhões de imigrantes ilegais, que Trump diz serem “criminosos”, fora dos Estados Unidos para que a fronteira volte ficar “segura”.

      2. Já o Obamacare…

Quanto a outras promessas, Trump admite ter adotado um discurso mais extremo para “motivar” o eleitorado (“é mais fácil ser sóbrio”, argumenta) mas depois da primeira conversa com Obama, que considera um homem “muito inteligente e com um ótimo sentido de humor”, vem dizer que afinal há partes do plano de saúde idealizado pelo atual presidente que são para manter. Também não deverá mexer-se na lei para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com a qual Trump diz estar “satisfeito”.

      3. As contradições e o que fica por decidir

Há vários assuntos que Trump recusa discutir para já ou nos quais se contradiz. Sobre o diretor do FBI, James Comey, envolto em polémica por ter voltado a falar  do caso dos emails de Hillary Clinton a poucos dias das eleições, mas também sobre a promessa de prender a oponente, o novo líder dos EUA é parco em palavras e lembra que primeiro é preciso trabalhar “na reforma da saúde, na imigração e na economia”. Já em relação aos lobbies ou ao sistema de eleições que envolve o Colégio Eleitoral, que Trump disse durante a campanha serem problemas do sistema, o novo presidente reformula algumas ideias (até porque na sua equipa de transição se encontram vários destes lobistas) e fala de transições mais suaves e mudanças mais pacíficas. No que toca ao Supremo Tribunal, Trump garante que a sua agenda pró-vida e a defesa da Segunda Emenda (pelo direito ao uso e porte de armas) serão defendidas  – mesmo que no primeiro caso não tenha bem a certeza da maneira de o fazer e diga que se a decisão for remetida para o estado em que cada mulher cada abortar, “talvez elas o façam noutro estado”.

      4. Um presidente em adaptação

Um dos assuntos que dominaram a entrevista foi a surpresa com que Trump reagiu ou não à notícia de que seria o próximo presidente dos EUA, ele que alguns diziam apenas querer promover a sua marca e os seus negócios. Negando ter “medo” da empreitada que o espera (“tenho respeito, mas não medo. É colossal”, confirma), Trump garante que a dimensão dos seus comícios lhe indicava que teria bons resultados – “isto não me parece coisa de segundo lugar”. Sobre a surpresa – e o medo – que muitos americanos também sentiram, sobretudo os afro-americanos e mexicanos que já foram alvo de ataques nas ruas, o presidente pede para não terem medo porque o seu objetivo é “unir o país”, e diretamente para a câmara apelas aos seus apoiantes que ponham um fim aos ataques.

Descomplicador:

Na primeira entrevista depois de ter sido eleito presidente dos EUA, Donald Trump falou das promessas de campanha mais polémicas e recuou em algumas das medidas que mais têm dado que falar (mas o muro é mesmo para avançar).

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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