Antes era um “zé ninguém”, agora pode ser o próximo Presidente de França

francois-fillonO ano que vivemos não pode ser, no campo político, considerado um ano próprio para cardíacos: em 2016, descobrimos que os britânicos queriam mesmo sair da União Europeia e que os Estados Unidos preferiam mesmo Donald Trump a Hillary Clinton, mesmo quando todas as sondagens, comentadores e jornais previam resultados contrários. Ainda assim, a França não deixou de ficar espantada quando neste fim de semana se confirmou que será François Fillon, o homem até agora visto como o eterno “underdog” da direita francesa, a competir pela presidência do país contra Marine Le Pen, da Frente Nacional, e um candidato ainda desconhecido da esquerda socialista (que poderá voltar a ser o atual presidente, François Hollande, ou até o atual primeiro-ministro, Manuel Valls).

Quem lhe chama underdog não somos nós – a classificação para o conservador até agora discreto está por todo o lado, da imprensa que o classifica como um “zé ninguém” (no britânico Telegraph) ou um político “ofuscado” pelos seus pares (no também britânico Guardian) aos adversários políticos como o próprio Sarkozy, que chegou a chamar-lhe um “triste caso” tendo trabalhado com ele enquanto Fillon era primeiro-ministro, entre 2007 e 2012, e Sarkozy era o presidente – mal imaginava Sarkozy que agora seria mesmo derrotado pelo discípulo “triste” nas primárias dos Republicanos.

Não é que Fillon, agora com 62 anos, seja uma novidade na política. Político de carreira, o homem que começou por estudar Jornalismo e Direito tornou-se em 1981, aos 27 anos, o mais jovem deputado da Assembleia Nacional francesa. Conduzindo-se discretamente pelos seus ideiais conservadores, pela admiração a Margaret Thatcher e o catolicismo praticante, andou pelos bastidores da política tendo sido a partir de 1993 ministro em cinco ocasiões e chegando depois, em 2007, ao cargo de primeiro-ministro.

Mas se muitos destinavam o reservado Fillon, tantas vezes criticado ou desvalorizado por Sarkozy quando dirigiam os destinos do país, a um lugar de bastidores, o próprio conseguiu provar que todos estavam errados – talvez até ele próprio, se acreditasse nas sondagens francesas – e derrotar primeiro Sarkozy e depois, neste domingo, Alain Juppe nas primárias do partido, consagrando-se o nomeado oficial para as próximas eleições presidenciais.

Mas como é que um homem discreto como Fillon se tornou o favorito da direita francesa? A explicação pode estar no facto de Fillon ter tomado algumas posições mais radicais durante a campanha, tendo ironicamente, uma vez que já leva uma carreira de 35 anos na política, prometido “destruir todo o sistema” e assumido ser o símbolo da mudança para a França e para os trabalhadores que dizem estar fartos do peso do Estado. Entre as suas promessas nesta campanha estiveram o corte de impostos e postos de trabalho na função pública, o fim da semana de 35 horas de trabalho e também as suas posições conservadoras e de defesa da família tradicional – embora se mostre contra a adopção gay ou a despenalização do aborto, Fillon já garantiu não ter intenção de mexer nessas leis já aprovadas.

Irónico é, aponta o “Guardian”, que “a personificação do sistema” concorra e ganhe umas eleições a prometer mudança radical e a apostar num discurso neoliberal (nas palavras de Fillon, “pragmático”) que até agora lhe era desconhecido. Mas com uma esquerda que parece desmobilizada, Fillon poderá ser a grande esperança contra a extrema-direita de Le Pen – resta saber, insistem os comentadores, se o seu discurso radical poderá apelar a uma grande base do eleitorado descontente e desconfiando em relação a questões como a da imigração.

Descomplicador:

O Panorama apresenta-te François Fillon, a revelação tardia da política francesa que pode vir a ser o próximo presidente do país.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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