Estes não serão dias fáceis para Guterres

A esperada cerimónia de tomada de posse de António Guterres como secretário-geral da ONU aconteceu esta segunda-feira, confirmando o ex-primeiro-ministro português como um dos mais importantes líderes diplomáticos do mundo e, necessariamente, o herdeiro de uma série de dores de cabeça que há muito vêm sendo antecipadas.

Na cerimónia de juramento, que contou com representantes dos 193 estados membros das Nações Unidas, Guterres aproveitou para deixar algumas intenções claras; sobre outros dos desafios já tem vindo a falar, esperando-se agora pelas ações práticas do sucessor de Ban ki-moon em relação a vários dos conflitos e tensões internacionais mais preocupantes do nosso tempo.

1. Trump, pois claro

Impossível elaborar uma lista dos desafios que Guterres terá de enfrentar sem falar de Trump, e o antigo governante português sabe disso. Numa altura em que se multiplicam as incertezas sobre as primeiras decisões a tomar pelo atual Presidente-eleito dos EUA quando chegar à Casa Branca, em janeiro, Guterres explicou que considera “fundamental ter um discurso muito aberto e muito franco, tendo em conta que os interesses dos Estados Unidos, que lhes compete defender, podem ser compatibilizados com os interesses globais que as Nações Unidas se propõem defender”.

Neste ponto, há vários motivos para tensões: um deles deverá ser o Acordo de Paris, assinado em 2015 para reduzir a emissões de gases nocivos para a atmosfera, uma vez que Trump já disse duvidar da veracidade das conclusões científicas sobre o perigo do aquecimento global. “Devemos ter um espírito aberto e procurar fazer tudo para que sejam encontrados os consensos indispensáveis a fazer avançar objetivos tão importantes como ter um controlo sobre as alterações climáticas”, explicou António Guterres.

“A verdade é a única maneira de restaurar a confiança nas relações humanas. É com verdade que me vou relacionar com todos os governos do mundo e também com o novo governo dos Estados Unidos “, detalhou, abordando um dos tópicos quentes do ano que chega agora ao fim.

2. E por falar em Trump, o clima que não pára de aquecer

Mas se Guterres pensou nos Estados Unidos para falar do Acordo de Paris, a verdade é que não se findam por aqui as preocupações com o ambiente do novo secretário-geral da ONU. Sucessor de Ban ki-moon, que sempre garantiu ter por uma das suas causas principais o combate ao aquecimento global, Guterres deve enfrentar o desafio que a comunidade científica define como o maior desafio à vida no nosso planeta.

Neste sentido, Guterres deverá dar novas provas numa das áreas que conhece melhor: a do diálogo e das negociações, uma vez que os cientistas garantem que serão necessários compromissos entre governos e setor privado para que sejam alcançados resultados significativos. Poderá haver otimismo neste campo, uma vez que em 2011, conforme recorda o Observador, o novo líder das Nações Unidas publicava um estudo no Conselho de Segurança (“Novos Desafios para a Paz Internacional e Prevenção de Conflitos”) em que defendia que “a luta contra as alterações climáticas é o desafio que define o nosso tempo. (…) É um problema que aumenta o número de refugiados e que tem implicações importantes na manutenção da paz e segurança internacionais”.

3.  A tragédia na Síria

Já lá vão mais de cinco anos de guerra, uma guerra cujos motivos e intervenientes são tão numerosos e complexos que no final, só resta mesmo uma certeza: são milhares, demasiados milhares, os que perdem a vida neste conflito –  Observatório Sírio para os Direitos Humanos já fala em 400 mil mortos. Esta segunda-feira, definindo o conflito como uma das suas prioridades neste mandato, Guterres lembrou que “é preciso acabar com esta guerra que ninguém ganha” e deixou uma mensagem marcante: “Hoje, nas guerras, não há vencedores”.

Descomplicador:

No rescaldo da tomada de posse de Guterres na ONU, o Panorama recorda as primeiras dores de cabeça que o antigo governante português terá de enfrentar.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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