Vi a guerra na Síria e voltei para contar a história

Acordo de manhã, abro a minha janela e vejo as ruínas em Aleppo.

Vejo aquela criança suja da poeira que era a sua casa, do sangue que era seu ou dos irmãos. O choro parece iminente, no beicinho que lhe treme, infantil, mas nunca chega. Dir-se-ia que não sabe chorar, mas uma mulher que a rodeia fá-lo, copiosamente, em nome da família que perdeu no bombardeamento. Não é, pois, por falta de exemplo. Será, porventura, por falta de lágrimas.

Ao lado, outra criança, pouco mais velha que a primeira, segura nos braços o pequeno cadáver do seu irmão mais novo. A sua cara grita de choro, mas o som é quase mudo. Está parado no corredor, com o cadáver aninhado nos braços, como que à espera de quem lhe diga que pode largar o irmão morto e voltar a ser criança. Sem sucesso. Senta-se ao lado da primeira mulher, que segura no colo a primeira criança. A mulher chora e grita pela filha que perdeu. A criança que segura o irmão conforta-a e promete-lhe a paga divina. A primeira criança nunca chora.

Duas outras crianças, aparecem, ambas de olhos secos. O pai, já o perderam nos escombros. Procuram agora a mãe, aparentemente sem sucesso.

Entretanto, a mulher encontra o cadáver da filha e relança o pranto.

As duas crianças, ainda sem a mãe, encostam-se e preparam-se para dormir. Exhausted beyond words, by a life beyond description, diz a voz.
Fecho a janela, para não me constipar mais, e volto a deitar a cabeça na almofada.

Lembro-me das discussões sobre as obras em Lisboa, sobre os atrasos do metro e sobre a dívida pública. Sobre a Uber e o Táxi. Sobre o AirBnB e os condomínios e a gentrificação e a falta de casas para arrendar no centro da cidade. Sobre o Samsung com a bateria defeituosa e o preço a que as coisas estão.

Sobre a porra da Cornucópia, coitada, que nem tem culpa nenhuma.

Penso que hoje, das nossas janelas, vemos tanta coisa, a Síria, o Iémen, tudo, cheios de boa vontade, compaixão e pesos de consciência.

E agora vou-me levantar que tenho que ir fazer as compras de Natal.

Publicado por: João Marecos

Advogado estagiário. Ex-Presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa. Global Shaper

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