Centeno, Domingues e o acordo que continua por revelar

Inocente até prova em contrário, dizem, em sintonia, Marcelo e Costa; mente descaradamente, acusam PSD e CDS. A novela que envolve o ministro das Finanças, Mário Centeno, e o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), António Domingues, parece não ter fim: desta vez, tudo se deve à documentação enviada por Domingues à Comissão Parlamentar de Inquérito no caso da CGD.

Segundo noticia o jornal online ECO, os documentos confirmam que Centeno mentiu quando disse que não houve acordo entre o ministério que dirige e Domingues para que a administração que então assumia as rédeas da CGD não tivesse de entregar as declarações de rendimento e património, conforme prevê o estatuto de gestor público. Mas tanto o primeiro-ministro como o presidente da República se têm mostrado firmes no apoio ao ministro das Finanças.

É uma novela que se arrasta há meses, mas o novo episódio já provocou muitas trocas de palavras acesas, sobretudo entre PSD, CDS e PS.

O primeiro episódio

O desacordo começou (ou recomeçou) esta quarta-feira, quando o ECO noticiou uma carta, datada de 15 de novembro do ano passado, na qual António Domingues menciona o acordo sobre o estatuto de gestor público, dirigindo-se a Mário Centeno. Na missiva, que está entre 11 documentos entregues a 1 de fevereiro à comissão de inquérito (justifica Domingues: “considerando que a comissão rejeitou a argumentação aduzida, venho juntar cópia da correspondência e documentação trocada (…) após a reunião de 20 de março de 2016, de alguma forma relacionadas com a aceitação dos convites para a nova administração da Caixa Geral de depósitos”), o acordo é mencionado: “Foi uma das condições acordadas para aceitar o desafio de liderar a gestão da CGD”.

No entanto, logo a 18 de novembro do ano passado, Centeno respondia à imprensa que o “único compromisso” sobre a CGD tinha ver com manter o banco público e competitivo. Na mesma carta, Domingues esclarecia ainda que havia a hipótese de membros da equipa se demitirem caso o acordo não fosse honrado, “por considerarem que se encontra alterado um dos pressupostos que, na sua avaliação pessoal, era central ao convite que lhes formulei”.

Parte II: Costa e Marcelo entram em cena

Foi logo na quarta-feira, no Parlamento, que o primeiro-ministro falou do caso, para dizer que Centeno “não mentiu” e lembrar que não há provas, da parte do ministro das Finanças, do referido acordo. Marcelo Rebelo de Sousa falou na mesma linha aos jornalistas sobre a posição que manterá “até encontrar alguma coisa assinada pelo ministro das Finanças que diga uma coisa diferente”.

“Como não tive conhecimento, até hoje, de nenhuma tomada de posição do senhor ministro das Finanças em sentido diferente, tenho de tomar como bom que o senhor ministro das Finanças pensava o mesmo que pensava o senhor primeiro-ministro e não estava enganado, como estava o presidente da Caixa, quanto à aplicação da lei”, disse o presidente da República. “Era óbvio que tinha de haver declaração da entrega de rendimentos e património. Entrava pelos olhos dentro”.

Terceiro ato: Os partidos acusam-se

A notícia dos documentos e da correspondência trocada entre Domingues e o ministério das Finanças colocou os partidos em alvoroço, com o PSD a chamar Centeno à Comissão de Inquérito e o CDS, pela voz de João Almeida, a falar de uma “quebra de verdade inequívoca” em conferência de imprensa, referindo-se à resposta de 3 de janeiro do ministério das Finanças aos centristas, que garantia uma “inexistência” de “trocas de correspondência”. O CDS falou mesmo de possíveis “consequências penais e políticas” para Centeno, entre elas a acusação de perjúrio.

Entretanto, esta quinta-feira também o PS se pronunciou, através do deputado João Paulo Correia, garantindo que o fim de confidencialidade sobre os documentos, nesta terça-feira, revelará que as acusações dos centristas são “uma montanha que pariu um rato”.  Em comunicado, foi a vez de o ministério das Finanças acusar os partidos da direita de tentarem um “vil assassinato de caráter” e de quererem “enlamear a sua honorabilidade [de Centeno] e o trabalho que tem sido desenvolvido para solucionar os problemas do sistema financeiro, herdados da governação dos referidos partidos.” No mesmo comunicado, o ministério esclarece que na altura não foram enviadas trocas de correspondência para o CDS porque estas não se enquadrariam no pedido feito pelo partido.

Descomplicador:

A novela da CGD continua, com PSD e CDS a atacarem Mário Centeno e, por outro lado, Costa e Marcelo a defenderem o ministro das Finanças.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *