“Vamos tornar a Holanda nossa outra vez”. Onde é que já ouvimos isto?

É o efeito Trump/Brexit, diz alguma imprensa: a onda de extrema-direita que de há meses para cá parece ter varrido a Europa também se faz sentir na Holanda, com o partido extremista Freedom Party (PVV, na sigla original) a levar avanço nas sondagens para as próximas eleições parlamentares, no dia 15 de março.

Para além das sondagens positivas – o portal “Dutch News” cita as previsões das empresas de pesquisa holandesas, que neste momento atribuem 19,3% a 22 por cento das intenções de voto ou 29 a 33 dos 150 assentos parlamentares ao partido, o mais votado segundo estes números -, o PVV tem invadido a imprensa internacional por causa do seu líder carismático, o deputado Geert Wilders.

“A escumalha marroquina na Holanda… mais uma vez, nem todos são escumalha… Mas há muita escumalha marroquina na Holanda que torna as ruas inseguras, especialmente os jovens… e isso devia mudar”, dizia este sábado o líder do partido populista aos jornalistas, numa visita à zona industrial e etnicamente diversa de Spijkenisse em que lançava a sua campanha para as eleições do próximo dia 15.

“Se querem recuperar o vosso país, se querem fazer da Holanda a casa dos holandeses, a vossa própria casa, só podem votar [no PVV]. Por favor, tornem a Holanda nossa outra vez”, apelou, rodeado de seguranças e polícias – uma necessidade que tem sido constante nos últimos anos de exposição pública, lembra o “The Guardian”.

O político do ano e dos soundbites com bom timing

O político de 53 anos nem sempre foi este homem que critica as “elites políticas de esquerda” e se protege com seguranças, acumulando processos em tribunal por acusações de discriminação. Nascido na cidade de Venlo em 1963 e criado num contexto católico – embora, como relata a BBC, hoje diga não ser religioso –  a carreira de Wilders começou na área dos seguros.

Foi quando se tornou responsável por escrever os discursos do Partido Liberal Holandês (VVD) que entrou na vida política. Em 1998 era eleito deputado pela primeira vez, mas pouco depois incompatibilizou-se com o partido, devido a discordar da entrada da Turquia na UE, e decidiu sair.

Em 2006, criou o seu próprio partido com o objetivo de participar nas eleições parlamentares, conseguindo conquistar 10 assentos – e logo em 2010, aumentou este número para 24. No entanto, esta subida não tem sido sempre pacífica, devido às tomadas de posição polémicas e às tiradas inesperadas (mesmo que em 2007 tenha sido eleito político do ano pela imprensa política holandesa, que justificou a decisão com os “soundbites com bom timing” que é perito em proferir).

Um filme proibido e um discurso polémico em Nova Iorque

Uma das maiores controvérsias que rodearam Wilders, conhecido pela alcunha “Mozart” devido ao cacracterístico cabelo platinado, aconteceu em 2008, quando produziu o filme de 17 minutos “Fitna” em que, conforme relata a BBC, sobrepôs partes do Corão a atentados como o 11 de setembro – banido pelas emissoras televisivas, o vídeo acabou por ser divulgado na internet.

De conteúdo semelhante foi a sua intervenção num discurso no memorial Ground Zero para os ataques do 11 de setembro, quando visitou o local, 9 anos depois dos atentados, para falar contra a intenção de construir um centro islâmico ali perto. Para o líder do partido extremista, que apresentou o seu programa para estas eleições num manifesto de uma página, a Holanda deve banir a imigração muçulmana, banir o Corão e sair da UE.

Apesar de se querer afastar dos grupos “errados, de direita fascista” e de garantir que é apenas “intolerante aos intolerantes”, o Governo britânico já tentou impedi-lo de entrar no país. Absolvido de uma acusação de discriminação e discurso de ódio em 2011, Wilders foi em dezembro condenado por acusações semelhantes – devido a um encontro num café em que garantiu aos seus apoiantes que se asseguraria de diminuir o número de muçulmanos na Hulanda – e está neste momento a apelar da decisão.

“Temos de des-islamizar as nossas sociedades”

Apesar de querer afastar-se dos estereótipos de extrema-direita, Wilders assina textos no site extremista Breitbart – o mesmo que era liderado por Steve Bannon, o controverso ideológo de Donald Trump. O último dos textos, datado de dezembro passado, foca-se nos ataques ao mercado de Natal em Berlim. “Quando no ano passado a chanceler alemã abriu as fronteiras alemãs a quase um milhão de refugiados e requerentes de asilo, ela convidou o cavalo de Tróia do Islão para o seu país”.

“Não precisamos apenas de mais polícias; aquilo de que precisamos é uma revolução política democrática”, escreve Wilders, culpando os políticos atuais, que considera “politicamente corretos” por “convidarem o Islão para os seus países” e “traírem os seus cidadãos”. A solução é clara para Wilders: “Temos de des-islamizar as nossas sociedades. Os partidos patrióticos estão a crescer rapidamente em todo o lado. São a única esperança de um futuro melhor para a Europa (…) Temos de libertar as nossas sociedades”.

Este fim de semana, vários grupos e associações de muçulmanos insurgiram-se contra os seus comentários sobre a “escumalha marroquina”, embora nas sondagens o partido continua a apresentar considerável vantagem sobre os rivais. “Os meus apoiantes dizem: ‘Pelo menos há alguém que se atreve a dizer o que milhões de pessoas pensam’. Isto é o que eu faço”, defende-se Wilders, citado pelo “Telegraph”.

 

Descomplicador:

O líder do partido de extrema-direita PVV, na Holanda, está a ser criticado por declarações sobre a “escumalha marroquina” que vive no país. O Panorama traça o perfil de Geert Wilders.

 

 

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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