As mensagens de Schäuble para Portugal: uma notícia dejà vu?

O ministro das Finanças alemão voltou esta quarta-feira a dirigir uma mensagem a Portugal, como já vem sendo hábito. Numa conferência de imprensa em Berlim, o ministro, citado pela agência Bloomberg, aconselhou: “Certifiquem-se de que não precisam de resgate”.

O mais recente “alerta” – nas palavras do próprio – de Wolfgang Schäuble, contado pelo Jornal Económico, veio no seguimento de uma intervenção em que o ministro alemão defendeu que os programas de ajustamento têm dado “bons resultados” nos países em que são aplicados, tendo mesmo ajudado estes países a “regressar ao crescimento e às finanças públicas sólidas”.

Como em vários casos anteriores, a declaração do alemão não caiu bem ao Governo português, que respondeu pela voz do primeiro-ministro, presente no Porto à saída da inaguração do Centro Tecnológico da Euronext, com uma enumeração dos argumentos positivos que a economia portuguesa apresenta e aproveitando para lembrar que “contra factos não há argumentos”: Os números são simples: 2,1% de défice, o melhor em 42 anos de democracia, 2% de saldo primário positivo, diminuição de um ponto da dívida líquida, estabilização da dívida bruta e começo da redução, estabilização do sistema financeiro, criação de 118 mil postos de trabalho líquidos. Estes são os números”.

Mas esta não é a primeira vez que Wolfgang Schäuble decide intervir para falar da economia portuguesa, por vezes deixando conselhos e por outras vezes atirando críticas à gestão feita pelo Governo. O Panorama recorda algumas dessas ocasiões, ocorridas desde que o Governo de Costa tomou posse, em novembro de 2015:

“Portugal deve estar ciente de que pode perturbar os mercados financeiros, se der impressão de que está a inverter o caminho que tem percorrido. O que será muito delicado e perigoso para Portugal”

A frase, citada pela Renascença, foi proferida à entrada da reunião do Eurogrupo, a 11 de fevereiro de 2016, quando acrescentou: “Vamos continuar a encorajar firmemente os nossos colegas portugueses a não se desviarem do caminho de sucesso que tem sido percorrido”. Mas já no início desse mês o Observador relatava que Wolfgang Schäuble dera indicações ao seu braço direito para que, na reunião da preparação do Eurogrupo, exigisse “um plano de contingência ao Governo português” para dar resposta às preocupações sobre  o défice.

Logo no dia seguir à reunião, a 12 de fevereiro, o ministro alemão voltava a falar de Portugal: “[Mário Centeno] (…), naturalmente, sabe que Portugal estava no bom caminho. Mas este bom caminho ainda não permite a Portugal estar bem. É este o ponto da situação. Trata-se apenas do desejo de não voltar a ter de novo os problemas que existiam há alguns anos em Portugal”.

“Portugal irá cometer um enorme erro se não cumprir o que foi acordado”.

O aviso foi dado no mesmo sentido daquele que o ministro veio deixar nesta quarta-feira. Aconteceu ainda há pouco tempo, numa conferência de imprensa em Berlim a 29 de junho do ano passado, com declarações citadas pela Renascença:  “Os portugueses não querem um novo pacote de resgate e não precisam dele se cumprir as regras e os compromissos europeus!”.

“Portugal vinha tendo muito sucesso até [à chegada] de um novo Governo”

A tirada data de 26 de outubro do ano passado, quase um ano passado desde as eleições que acabaram por dar posse ao Governo de Costa, apoiado nos acordos com a maioria de esquerda. “Está a acontecer da forma como eu avisei o meu colega português [Mário Centeno] porque eu disse-lhe que se seguirem esse caminho vão tomar um grande risco e eu não tomaria esse risco”, disse o alemão, numa conferência em Bucareste.

Mais uma vez, Costa não tardou em responder, falando de um “preconceito muito pouco inspirador” e declarando, sem deixar margem a dúvidas sobre se este seria um ataque ao ministro alemão: “Dou sobretudo atenção aos alemães que conhecem Portugal e, por isso, sabem do que falam”. O primeiro-ministro português passou ainda, segundo o relato do Expresso na altura, a enumerar empresas alemãs com operações e negócios em Portugal às quais “dá importância”, como a “Volkswagen”, a “Bosch” ou a “Continental”.

Um mês depois, em novembro de 2016, o líder socialista desvalorizava, em entrevista à Visão, as declarações do alemão: “Neste contexto, o ministro Schäuble é uma andorinha que não faz a primavera… E que, felizmente, não marca o tom da relação que temos com as instituições europeias. (…) Mas nunca senti que as posições dele, ao longo deste período, relativamente a Portugal, fosse a posição do conjunto das instituições europeias nem sequer a do Governo alemão, com quem temos uma relação muito amigável, quer no Conselho quer em termos bilaterais”.

 

Descomplicador:

O ministro das finanças alemão voltou esta quarta-feira a deixar duros avisos a Portugal, algo que já aconteceu em várias ocasiões desde que o atual Governo tomou posse.

 

 

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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