FBI já investiga interferência russa nas eleições desde julho (e não há provas das alegadas escutas de Obama)

Tempos especiais pedem medidas especiais e esta foi a máxima que pareceu reger a audiência que aconteceu esta segunda-feira na Casa dos Representantes norte-americana (uma das câmaras do Congresso, a par do Senado). A começar pela própria audiência, de natureza extraordinária, que reuniu o diretor do FBI, James Comey, e o diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), Mike Rogers, perante o comité da Casa dos Representantes que está a investigar a interferência russa nas eleições norte-americanas.

Os dois líderes dos serviços de inteligência e segurança norte-americanos confirmaram algumas das informações que mais têm feito correr tinta nos Estados Unidos e no mundo, mas também negaram outras – e ainda houve tempo para discutir as alegações de Trump sobre as supostas escutas que Obama terá mandado instalar na Trump Tower, durante o período de campanha do ano passado, para o vigiar.

  1. O FBI está mesmo a investigar a interferência russa nas eleições

A investigação, que foi assim oficializada pela primeira vez, já decorre desde julho e não é possível prever uma data para a sua conclusão, explicou Comey perante o comité. “Como sabem, não é nosso hábito confirmar investigações que estão a decorrer”, lembrou. “Mas, em circunstâncias pouco habituais, em que há interesse público, pode ser adequado fazê-lo”.

Comey confirmou assim que o FBI está a investigar a possível interferência russa, sem poder dar detalhes sobre quem está a ser investigado mas ficando-se a saber que a Rússia terá usado um terceiro interveniente para comunicar com a Wikileaks neste processo. Confirmada foi também a investigação sobre se “houve qualquer coordenação entre a campanha [de Trump] e os esforços da Rússia”.

Sobre esta hipótese, o mais importante representante democrata naquela câmara, Adam Schiff, disse que a confirmar-se esta seria “uma das traições mais chocantes da história da democracia” americana. Mais tarde, Schiff adiantou à NBC estar a par de “provas circunstanciais de conspiração”, mas o seu homólogo republicano, Devin Nunes, disse à Fox não ter visto provas que comprovem essa hipótese.

   2. Obama não escutou Trump, confirma FBI

Na semana passada, foram vários os legisladores e representantes dos serviços de inteligência (como o antigo diretor dos serviços secretos, James Clapper) que negaram a acusação de Trump, feita no início deste mês via Twitter, segundo a qual Obama teria vigiado o então candidato Trump com escutas na Trump Tower. Desta vez, e depois de na quarta-feira passada este comité ter negado a hipótese e de na quinta-feira o comité do Senado que investiga as alegações ter confirmado também “não ter encontrado quaisquer indicações” nesse sentido, foi a vez de Comey declarar que “o FBI e o Departamento de Justiça não têm informação que confirme” esta teoria.

Devin Nunes interveio na audiência para explicar de forma “clara”: “Nós sabemos que não houve escutas na Trump Tower”. No entanto, o representante republicano não colocou de parte a hipótese de ter havido “outras formas de vigilância” usadas por Obama para espiar Trump.

Na semana passada, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, tentou esclarecer os tweets acusadores de Trump, explicando que afinal as escutas a que Trump se referia consistiam em formas de vigilância de uma forma genérica, e que por isso a palavra “escutas” tinha sido escrita – em parte desses tweets – entre aspas. Também a conselheira de Trump, Kellyanne Conway, interveio para falar das “muitas formas” com que se pode vigiar alguém, dando exemplos que variaram entre “televisões” e “microondas que se transformam em câmaras”.

3. Acusações sobre Reino Unido são “frustrantes”

“Frustrantes” foi o adjetivo usado por Rogers para falar das acusações sobre o envolvimento da agência de espionagem eletrónica do Reino Unido, a GCHQ, na alegada vigilância planeada por Obama para espiar Trump. A insinuação foi feita no final da semana passada por Sean Spicer, que repetiu alegações feitas pelo analista Andrew Napolitano na Fox News sobre o suposto envolvimento da agência no esquema de Obama, que desejaria evitar deixar provas de envolvimento americano na espionagem a Trump.

As alegações, que mereceram um raro comunicado da GCHQ onde se dizia que as mesmas eram “ridículas” e que não tinham “sentido”, foram mais uma vez desmentidas, desta vez pelo diretor da NSA.

Descomplicador:

Uma audiência extraordinária na Casa dos Representantes norte-americana fez várias revelações aguardadas, entre elas a confirmação de uma investigação à interferência russa nas eleições americanas que já decorre desde julho e que inclui uma investigação sobre os laços entre a campanha de Trump e o país liderado por Putin.

 

 

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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