Debaixo de fogo, Dijsselbloem promete ser “ainda mais cuidadoso”

Jeroen Dijsselbloem será “ainda mais cuidadoso” para não voltar a ver o seu nome envolvido em escândalos como o que rebentou recentemente graças às suas declarações sobre “aguardente e mulheres”. A promessa foi feita pelo próprio numa carta dirigida aos membros do Parlamento Europeu, nesta terça-feira.

Recordando a entrevista com o jornal alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung” em que fez as declarações originais, o líder do Eurogrupo sublinhou que as suas palavras acabaram por ser “relacionadas com a situação nos países do sul da Europa durante os anos da crise” e que essa ligação é “muito infeliz”: “Não foi isso que eu disse. E certamente não foi o que quis dizer. A crise impactou sociedades na eurozona com grandes custos sociais e a solidariedade é muito justificada”.

Na entrevista que deu origem à polémica – e que levou a pedidos de demissão e reações inflamadas por atores internacionais, eurodeputados ou até pelo primeiro ministro português, que considerou as palavras de ordem “racista, xenófoba e sexista” -, Dijsselbloem falava da solidariedade mostrada durante a crise pelos países do norte da zona euro para com os vizinhos do sul, mas mostrava reservas: “Porém, quem a exige também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu”.

Na carta desta terça-feira, Dijsselbloem evita referir-se aos pedidos de demissão, mas nega ter tido intenção de “insultar” e lamenta que “algumas pessoas se tenham sentido ofendidas”. “A escolha das palavras é obviamente pessoal, como é o modo como elas são interpretadas”.

Ausência no Parlamento Europeu gera protesto formal

Depois de ter estado debaixo de fogo recentemente pelas declarações polémicas, novas críticas surgiram com a ausência do presidente do Eurogrupo esta terça-feira num debate do Parlamento Europeu sobre o resgate grego. Citado pelo Politico, o presidente do Parlamento, Antonio Tajani, disse aos presentes em Estrasburgo que Dijsselbloem cancelara “mais uma vez”, recordando que “não há uma obrigação legal” no sentido de o presidente do Eurogrupo participar neste tipo de sessões, mesmo tendo recebido um convite. No entanto, o próprio Tajani declarou mais tarde que vai apresentar um protesto formal contra Dijsselbloem.

O presidente do Eurogrupo anunciou numa carta, também esta terça-feira, a sua ausência da sessão, agradecendo o convite endereçado a 29 de março por Tajani e explicando “já não estar disponível” nesta data. No texto, Djisselbloem assegura que continua comprometido com este debate, sugerindo que se procure outra data em que possa estar presente e dirigir-se aos membros do Parlamento Europeu.

Durante o debate desta terça-feira, a eurodeputada portuguesa Marisa Matias referiu-se à ausência como um “ataque de cobardia” e reafirmou o pedido de demissão de Dijsselbloem. No Facebook, a bloquista teceu duras críticas: “Dijsselbloem recusou-se a vir ao plenário, com medo de enfrentar os representantes dos povos que ofendeu. Coube assim à Comissão Europeia e ao Conselho prestar-se ao ridículo de substituir Dijsselbloem, em vez de se juntarem ao Parlamento europeu na exigência da sua demissão”.

Apto para concluir mandato?

As controvérsias acontecem numa altura em que se colocam dúvidas sobre a permanência de Dijsselbloem no cargo – afinal, a presidência do Eurogrupo consiste na liderança do grupo de ministros das finanças da zona euro, e Dijsselbloem detém o cargo por ser o ministro das Finanças da Holanda.

No entanto, depois dos maus resultados que o seu partido, o Labour Party, obteve nas eleições do passado dia 15 de março, não é certo que Dijsselbloem se mantenha no Governo holandês – e, assim, a conclusão do seu mandato como presidente do Eurogrupo, que dura até janeiro de 2018, poderá estar em risco.

O próprio Dijsselbloem já admitiu, citado pela Reuters, que as hipóteses de o seu partido fazer parte do próximo Governo são “escassas”, mas deixou no ar dúvidas sobre a sua permanência no cargo do Eurogrupo durante a transição de poder no seu próprio país: “A formação de um novo Governo de coligação na Holanda pode levar alguns meses. É demasiado cedo para dizer se haverá um vazio entre a chegada de um novo ministro e o final do meu mandato”.

 

Descomplicador:

Jeroen Dijsselbloem respondeu esta terça-feira às críticas pelas declarações sobre “aguardente e mulheres”, mas não se livra de outras polémicas – nem das dúvidas sobre se conseguirá concluir o atual mandato na liderança do Eurogrupo.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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