Nem Guerra nem Paz: Gibraltar discute-se à mesa do Brexit

Numa península no sul da Península Ibérica há cabines de telefone vermelhas e toma-se o chá das cinco. É Gibraltar, uma província ultramarina do Reino Unido habitada por cerca de 32 mil britânicos e para onde vão diariamente trabalhar perto de 5 mil cidadãos espanhóis, passando a fronteira terrestre. A posse do território traz tensão às relações entre Espanha e Reino Unido há séculos (depois da conquista inglesa em 1704, a península passou formalmente a pertencer ao Reino Unido em 1713), mas, nos últimos anos, a União Europeia tem mitigado o conflito. A saída do Reino Unido da aliança está a reacender a disputa.

A discussão recente foi provocada por uma tomada de posição da União Europeia: Espanha tem poder de veto sobre a aplicação a Gibraltar de qualquer acordo comercial entre o Reino Unido e a UE. Na prática, isto significa que a UE apoia a pretensão espanhola de recuperar Gibraltar, dando ao país direito de veto sobre o acordos no território.

Gibraltar depende profundamente de Espanha para todo o seu abastecimento e atividade comercial, que se faz principalmente por terra. Caso a fronteira feche as consequências económicas serão devastadoras.

Em resposta, as palavras do ex-líder conservador Michael Howard bastaram para exaltar ambos os lados. “Há 35 anos, outra primeira-ministra [Margaret Tatcher] enviou uma força armada para o outro lado do mundo [Malvinas] para defender a liberdade de outro pequeno grupo de cidadãos britânicos contra outro país de língua espanhola [Argentina]. Tenho a certeza que a nossa atual primeira-ministra [Theresa May] vai mostrar a mesma força ao defender as pessoas de Gibraltar”, afirmou, aludindo à possibilidade de os países entrarem em guerra pelo território.

O ministro dos negócios estrangeiros espanhol, Alfonso Dastis não deixou dúvidas: a intervenção militar não devia ser considerada. “Alguém no Reino Unido está a perder o discernimento, e não há necessidade disso”, constatou. A noção é apoiada por Londres. O porta-voz da primeira-ministra britânica garantiu que não haveria qualquer ação militar, destacando a necessidade de diálogo e cooperação.

Gibraltar é só um dos capítulos do Brexit, mas será dos mais difícieis. Theresa May garantiu que nunca discutiria a posse de Gibraltar contra os desejos do povo local (que votou esmagadoramente a favor da soberania britânica em 2002), enquanto o ministro dos negócios estrangeiros britânico, Boris Johnson, afirmou que o território não estava à venda. A União Europeia pede calma na discussão, mas promete firmeza nas negociações.

Descomplicador:

Espanha e Reino Unido reclamam a posse da península de Gibraltar, atualmente propriedade britânica. O debate sobre o território dificulta a sua colocação no pós-Brexit. Não vai haver guerra, mas a União Europeia promete apoiar o seu membro, a Espanha, na discussão.

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Publicado por: Nuno Viegas

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