Entrevista a Marinho e Pinto: “Nenhum partido foi alvo de ataques e de boicotes tão sistemáticos como o PDR”

António Marinho e Pinto, sem papas na língua, luta para “reconduzir a política à sua nobreza original”, mas primeiro tem de refundar o seu partido, o PDR, e ultrapassar a “campanha de mentiras” de que acusa a comunicação social. Entre eleições, boicotes e sabotagens o PDR combate o poder instalado, sem desacelerar na denúncia do “ciclo de encenações” em que se tornou a Assembleia da República, das “negociatas” do Primeiro-Ministro ou da “sede de poder” de alguns políticos.

Esta é a segunda e última parte da entrevista do Panorama a Marinho e Pinto. A primeira pode ser lida aqui:

Pedro Bourbon, o secretário-geral do PDR, e outros membros estão ainda suspensos, devido aos crimes de que são acusados. Se forem absolvidos, podem voltar a exercer funções?

Claro.

A imagem deles fica manchada aos olhos do público?

A imagem deles serão eles próprios que terão de tratar dela. Se forem absolvidos é sinal que não cometeram o crime de que foram acusados e poderão voltar de pleno direito. Se forem condenados serão expulsos do partido, porque não queremos no partido pessoas condenadas por esse tipo de crime.

Afirmou no ano passado que estava a refundar o partido. O que é que está a mudar?

Estamos a por fora pessoas que se enganaram no partido. Pensaram que vinham satisfazer ambições pessoais, megalomanias. Estamos à espera que saiam para ficarem pessoas com um elevado sentido de serviço público.

Qual a fasquia para as autárquicas?

Nós não pomos a fasquia demasiado alta para a nossa capacidade de elevação no salto. Vamos concorrer às autarquias onde pudermos reunir bons candidatos. Damos preferência aos independentes, mas onde haja um bom candidato de um partido nós não temos pejo nenhum em apoiá-lo. As eleições autárquicas são bastante diferentes das eleições legislativas. Mas é difícil ganharmos alguma câmara porque nenhum partido na vida política portuguesa foi alvo de ataques e de boicotes tão sistemáticos como o PDR.

Também da comunicação social?

Sobretudo da comunicação social. Desde que este governo tomou posse eu nunca mais fui à RTP. Dos 21 eurodeputados portugueses a RTP organiza debates entre 20 e exclui um, que sou eu. Alguém criticou mais o António Costa do que eu? Ele assaltou o poder dentro do PS por uma razão: o anterior líder ganhava por poucochinho. Ele foi às eleições e perdeu. Transformou-se em líder porque foi vender parte do património moral do PS ao BE e ao PCP, os mesmos dois partidos que se aliaram à direita em 2011 para derrubar o PS. Falta saber o preço que o PS pagou pelo apoio daqueles que sempre estiveram contra este. Há um preço que o António Costa pagou ao PCP e ao BE, que leva uma parte importante do património moral e histórico do PS. Há de se saber mais tarde. O António costa era capaz de vender a alma ao diabo para chegar ao poder. A única coisa que ele quis na vida foi o lugar onde está agora. Eu denunciei isso, e continuo a denunciar isso. É por isso que eu não vou à RTP. Também denuncio a duplicidade de critérios do PCP e do BE. O PCP está contra o PS desde 1974, porque o PS só faz políticas de direita. De repente alia-se ao PS sem que nada aconteça internamente? Na segunda-feira o PCP dizia que o PS era um partido de direita, só fazia políticas de direita, e na terça começou a apoiá-lo. O que é que se passou nessa noite? O mesmo com o BE. Há aqui muita mentira que está a ser lavada pelos órgãos de comunicação social, ao serviço do António Costa. O António Costa que é muito generoso com os dinheiros públicos a comprar clientelas e fidelidades. Sempre foi. Fez isso na Câmara, a par de boas negociatas.

Vamos ouvir falar de corrupção?

Vamos. No seu tempo vão ver. Pode demorar alguns anos, mas os negócios que já se começaram a fazer vão ser conhecidos.

A ligação entre os partidos da esquerda é para durar ou fica por aqui?

Não faço ideia. Não sou profeta. Esta é uma aliança contranatura, porque o PS é um partido de poder. Precisa do poder como os peixes precisam da água. O PS tem uma clientela enorme, com apetites vorazes, que precisa de satisfazer, senão entra em crise gravíssima. O PS nasceu em torno do poder. Aliás, pode fazer uma análise de comportamento. Há 6 anos o PS idolatrava o José Sócrates. Hoje ninguém o conhece. Só falta os ministros de José Sócrates, como o António Costa, dizerem que nunca o conheceram e se estiveram no governo não se lembram bem.

Caso o ex-primeiro-ministro José Sócrates seja culpado dos crimes de que é acusado, os seus ministros tinham que ter conhecimento deles enquanto decorriam?

Os ministros, a começar pelo António Costa. Se calhar por isso é que estão calados, nem o conhecem. A política é uma atividade humana, e tem de ser pautada por princípios éticos muito fortes. Se você é meu camarada num partido, o meu primeiro dever é defendê-lo. O silêncio do PS em relação a José Sócrates é uma atitude cobarde e oportunista, comandada pelo cobarde e oportunista que está na liderança do partido.

A voz do PDR é inconveniente para todos os partidos na Assembleia da República (AR)?

Os partidos que estão na AR formaram um cartel. Recebem do estado mais de 100 milhões de euros por ano, para alimentarem as suas clientelas. Não falam para o povo português, falam para a parte do rebanho dos seus filiados que está no seu respetivo redil, de fora fica a maioria da população. Repartiram entre si este mercado eleitoral. São os únicos que podem fazer política. Um cidadão não pode candidatar-se à AR.

Os partidos estão felizes em manter o status quo?

Os partidos estão felizes porque têm uma ilusão de poder. Há pessoas que são profissionais da política. Fora da política não eram nada, na política dominam tudo. Dão se bem nessas águas da intriga, da conspiração, da traição, da subserviência canina, porque quanto mais servil for hoje, mais possibilidade tem de subir amanhã. É assim que funciona a vida política em Portugal. Eu toda a minha vida trabalhei, e cheguei a uma altura em que conclui que é preciso fazer mudar. Viraram-se contra mim todos! Desde o BE ao CDS. Vamos ver se nós resistimos ou não.

Como é que olha para o futuro do PDR a longo prazo?

Isso dependerá de quem estiver na direção do partido.

As legislativas são a próxima grande prova. Têm o objetivo de eleger deputados?

Temos esse objetivo. Mas há uma campanha de mentiras na comunicação social, ao serviço de outros partidos, para que o PDR não tenha deputados na AR. Se houvesse um deputado do PDR a AR não era o ciclo de encenações que tem sido.

A entrada do PAN não ajudou?

[Risos] Diga você. Eu gosto de animais, mas o compromisso político é com os seres humanos. Os animais existem para nos servir. São mortos aos biliões todos os dias para servir o homem. Não são titulares de diretos. O direito é uma exigência da dignidade humana.

A luta do PDR é contra o poder estabelecido?

É. Somos contra esta forma de fazer política. Há sede de poder, exibicionismo, majestade em certos titulares de poder político. Nós queremos reconduzir a política à sua nobreza original. A política existe para servir os cidadãos, não para os escravizar.

nunogcviegas@gmail.com'
Publicado por: Nuno Viegas

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