100 dias de Trump aos olhos de um “trumpista”

No início de 2016, muitos acharam que Trump não chegaria a passar das eleições primárias. No final do ano, uma grande parte da população norte-americana, e mundial, ficou surpreendida com a eleição de Donald Trump a Presidente dos Estados Unidos.

100 dias depois do início do mandato de um dos mais controversos presidentes norte-americanos, as polémicas têm-se multiplicado, mas as estatísticas mostram que mais de 96% dos eleitores que votaram em Trump voltariam a fazê-lo.

No Panorama, fomos falar com um apoiante de Donald Trump. Num período em que importa reforçar o pluralismo e criar espaço para o debate de ideias, trazemos para o diálogo a visão de um dos cidadãos que, no fim de contas, faz parte de cerca de metade da população norte-americana.

O nosso entrevistado preferiu não ser identificado e nas suas respostas deixa pistas sobre o motivo pelo qual tomou esta posição.

Qual é o balanço global que faz dos primeiros 100 dias da Administração de Trump?

Eu acho que Trump tem feito um bom trabalho. Tem ido ao encontro das promessas da campanha eleitoral, de uma forma muito direta e consistente. Apesar de haver alguma oposição, em especial no que diz respeito às reformas nas áreas da imigração e da saúde, eu vejo isso como positivo, porque mantém a minha confiança na nossa democracia.

Quais foram os maiores feitos do Presidente até agora?

Através das ações na Síria e no Afeganistão, Trump tem feito com que os Estados Unidos  restabeleçam a ideia de que são uma nação para levar a sério. Ele é um líder determinado e direto. Tem mostrado ao resto do mundo que não nos vamos render a ameaças ou a atos de terrorismo e que estamos a reconstruir ligações fortes com outros países para combater a ameaça do ISIS.

E os maiores erros?

Acho que Donald Trump devia parar de usar o Twiter de uma forma tão leviana. O uso do Twitter tem vantagens, no sentido em que permite contornar os meios de comunicação social – que têm as suas próprias motivações -, e chegar diretamente às pessoas. No entanto, Trump devia ser mais eloquente e cuidadoso com aquilo que publica.

Para além disso, talvez Trump não devesse ter feito comentários acerca dos hábitos de golfe de Obama, visto que ele próprio joga bastante.

O que o surpreende mais na presidência de Trump?

O facto de ela existir. A lista de candidatos disponíveis era de tão fraca qualidade que Trump acabou por ser eleito.

As promessas eleitorais estão a ser cumpridas?

Estão, mas o sistema de checks and balances (equilíbrios) também entra em jogo aqui. No fundo, estou satisfeito com o que Trump está a tentar fazer e fico descansado por saber que vivemos num sítio onde ambos os lados são ouvidos.

Quais são as principais razões que o levam a apoiar Trump?

Durante a campanha, Trump destacou-se por ter uma mensagem e, ao contrário de Hillary, eu senti que ele era realmente uma “pessoa”. Trump quer tornar a América grande de novo, e eu apoio isso. Para além disso, concordo, em particular, com a oposição de Trump ao “politicamente correto”.

Em relação a decisões concretas, concordo com a escolha de Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal de Justiça e acho que Trump está a fazer um bom trabalho no corte de impostos e regulações.

Discorda de Trump nalgum aspeto?

Não concordo com a forma como se posiciona em relação às alterações climáticas. Penso que Trump devia acreditar na comunidade científica e, pelo menos, reconhecer a realidade das mudanças no clima e os benefícios da proteção ambiental.

Também sou firmemente contra o facto de o trabalho de governação estar a ser feito no resort de Mar-a-Largo. Aquela não é uma zona segura, e Trump não tem o cuidado necessário para garantir a reserva de informação sensível.

Como tem reagido a população norte-americana à Administração de Trump?

A população norte-americana está a reagir da forma que uma nação bipartidária reage quando um lado ganha e o outro perde. Mas a comunicação social dá a entender que a revolta contra Trump é maior do que realmente é.

A reação também depende da região do país onde estamos: nas cidades maiores, há uma maior representação das tendências liberais, mas nos outros sítios o conservadorismo predomina. Como as notícias são feitas nas grandes cidades, a oposição a Trump parece falar mais alto.

E o resto do mundo?

A minha exposição ao resto do mundo é limitada à minha família alargada e aos media. E ambos são contra a Administração de Trump.

Não tenho informação suficiente para fazer uma correta interpretação de como o resto do mundo está a reagir. Ainda assim, penso que as atuais eleições em França são um paralelo das nossas, e isso pode ser indicativo da forma como as pessoas se sentem.

À sua volta, há mais apoiantes ou opositores de Trump?

Onde eu vivo, existe um número igual de apoiantes e opositores. Mas aqueles que se opõem a Trump, de uma forma geral, fazem-se ouvir mais.

Sente que pode falar abertamente sobre o seu apoio ao Trump?

Se quiser ter um dia tranquilo, não.

Como é para um apoiante do Trump ouvir as pessoas criticarem aqueles votaram no atual Presidente?

Começar uma discussão cívica é quase impossível pela forma como aqueles que têm uma opinião muito firme acerca de Trump levantam a voz publicamente contra aqueles que apoiam o Presidente. Para além disso, aqueles que falam de forma mais agressiva contra o Trump são tipicamente os que estão menos informados. No fundo, os extremistas, em qualquer um dos lados, são normalmente aqueles com menos informação substancial sobre os assuntos.

O que poderá ajudar a que se crie um diálogo entre os apoiantes de Trump e aqueles que se opõem a ele?

Quando, em vez de factos, são reportadas opiniões, torna-se difícil formular as nossas próprias convicções. Acho que um bom diálogo entre os dois lados podia ser facilitado pela criação de uma fonte noticiosa não enviesada. Se recebêssemos factos simples sobre os acontecimentos, gerar-se-ia uma discussão natural e prevaleceria uma maior diversidade de opiniões.

O que podemos esperar dos próximos 100 dias?

Mais do mesmo.

Para saberes mais sobre aquilo que se passou nos primeiros 100 dias da presidência de Trump, deixamos-te o balanço que vários jornais fizeram, em diferentes formatos: a galeria fotográfica do Politico, o infográfico do Washington Post, a coleção de títulos de jornais do New York Times, o jogo de perguntas da BBC, e os tweets, discursos e entrevistas recuperados pelo Expresso.

Descomplicador:

No fim de semana em que se assinalam os primeiros 100 dias da presidência de Trump, fomos falar com um apoiante do presidente dos Estados Unidos. A opinião geral deste cidadão norte-americano é que Donald Trump está a desempenhar bem o seu papel e que o sistema de equilíbrios do país tem contribuído para que a democracia seja assegurada.

margarida.alpuim@gmail.com'
Publicado por: Margarida Alpuim

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