Eleições presidenciais francesas de A a Z: de 2012 a 2017

Em 2012, François Hollande tornou-se Presidente, já lá iam mais de vinte anos desde que França tinha um membro do partido socialista no poder. Hollande conseguiu ultrapassar Nicolas Sarkozy em quase três por cento dos votos, declarou uma autêntica guerra à política de austeridade alemã e sempre admitiu que “as finanças” constituíam o seu maior inimigo. Prometeu que baixaria os impostos e que pararia com as “exceções para os mais ricos” que Sarkozy iniciara. Do estilo controverso do seu predecessor, Hollande imaginava que reporia a ordem, que seria “o Presidente normal” que geraria consensos.

A 22 de abril de 2012, na primeira volta daquelas eleições, Sarkozy e Hollande empataram, sendo que os franceses regressaram às urnas a 6 de maio do mesmo ano. Em cinco anos, o panorama político alterou-se drasticamente, algo que podemos observar na tabela seguinte:

2012 (1ª volta) 2017 (1ª volta)
François Hollande – 28,63% (PS) Emmanuel Macron – 24,01% (Em Marcha!)
Nicolas Sarkozy – 27,18% (UMP) Marine Le Pen – 21,30% (Frente Nacional)
Marine Le Pen – 17,90% (FN) François Fillon – 20,01% (Os Republicanos)
Jean-Luc Mélenchon – 11,10% (FG) Jean-Luc Mélenchon – 19,58% (França Insubmissa)
François Bayrou – 9,13% (MoDem) Benoît Hamon – 6,36% (PS)
Eva Joly – 1,79% (EE-LV) Nicolas Dupont-Aignan – 4,70% (Levantar a França)
Nicolas Dupont-Aignan – 1,79% (DLR) Jean Lassalle – 1,21% (Resistir!)

Os principais reincidentes – Le Pen e Mélenchon

Ainda que Nathalie Arthaud do Luta Operária e Nicolas Dupont-Aignan, do Levantar a República, se tenham recandidatado este ano, Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon são os principais reincidentes.

Marine Le Pen é uma advogada, considerada por metade da população como sendo de extrema-direita nacionalista e xenófoba e pela outra metade como uma patriota de direita que defende os valores tradicionais. O seu pai, Jean-Marie Le Pen, criou em 1972 o partido Frente Nacional, pelo qual Marine se candidatou à Presidência em 2012.

Marine Le Pen e Emmanuel Macron enfrentam-se este domingo nas urnas pela presidência de França

Entre outras medidas, defende o abandono do euro e da União Europeia, e a expulsão dos imigrantes. Realizou uma campanha dirigida aos setores populares, acrescentando medidas sociais de proteção dos salários. Como seria de esperar, a candidata teve maior apoio dos homens entre os 35 e os 49 anos, ou seja, aqueles que foram mais afetados pela crise. No entanto, o apoio das eleitoras do sexo feminino era pouco ou quase nulo.

Cinco anos depois, Marine Le Pen não obteve 17,90% dos votos na 1ª volta das eleições presidenciais. A sua escalada é mais ampla e potencialmente perigosa: obteve o apoio de 21,30% dos eleitores e passou à segunda volta das eleições, competindo contra Macron.

As medidas que Le Pen pretende tomar caso chegue ao Palácio do Eliseu são tudo menos tranquilizadoras para boa parte da população: eliminação da lei de 1973 que assegura a independência do Banco de França face ao Estado, permitindo que este financie o Estado; saída da zona Schengen, de livre movimento de bens e pessoas; redução da imigração para 10 mil pessoas por ano; recriação de uma unidade de controlo de fronteiras com seis mil polícias; fim da obtenção automática da nacionalidade francesa através de casamento; fim da dupla nacionalidade para os não-Europeus; limitação dos casos de asilo a pedidos feitos em embaixadas ou países vizinhos das pessoas que procuram asilo; intensificação dos esforços para banir todas as organizações, como mesquitas, ligadas a fundamentalistas islâmicos; abandono do comando militar integrado da NATO; obrigação do uso de uniformes em todas as escolas; proibição da utilização dos hijab, em todos os locais públicos.

Quem também não desistiu foi Jean-Luc Mélenchon, de 60 anos, candidato de esquerda ex-membro do Partido Socialista, que ajudou a fundar o partido Frente de Esquerda em 2008.

Contudo, as suas ideias não se alteraram desde 2012: é contra o liberalismo e defende uma Europa oposta à economia de mercado. Apesar de não ter vencido nem chegado à segunda volta, Mélenchon apresentou uma grande ascensão política, organizando os maiores comícios, que há cinco anos contavam com cerca de 100 mil pessoas.

A Frente de Esquerda inclui comunistas, sociais-democratas radicais, ecologistas e trotskistas, isto é, uma coligação baseada nas tradições das lutas operárias, sindicais e de movimentos sociais. Jean-Luc Mélenchon cresceu quando iniciou uma luta contra a extrema-direita, recuperando votos de operários que tinham acreditado no discurso xenófobo. Propôs a criação de um salário máximo, a nacionalização do sistema de energia, o aumento do salário mínimo para 17 mil euros anuais, medidas que já tinha apresentado na sua primeira candidatura.

Macron e Hollande: descubra as semelhanças

O ainda Presidente francês, o socialista François Hollande, considera que a chegada da extrema-direita à segunda volta das eleições presidenciais francesas, na pessoa de Marine Le Pen, é um “risco” e que, por isso, votará no candidato centrista, o ex-ministro da Economia Emmanuel Macron. “[A extrema direita] tem a sua história, os seus métodos, as suas ligações a grupos extremistas em toda a Europa, mas há sobretudo consequências do seu programa no nosso país,” avisou Hollande.

Para Hollande, eleger Marine Le Pen teria diversos efeitos nefastos, como: decréscimo do poder de compra dos franceses, que seria “amputado” com a aplicação de um plano de desvinculação da Zona Euro, como defendido pela candidata da Frente Nacional; a saída da moeda única traria “uma subida dos preços que afetaria os mais frágeis,” alertando ainda para o risco de isolamento da França em relação à Europa. Por estas e outras razões, publicou no Twitter: “É por isso que, face a um tal risco, não é possível calarmo-nos. Impõe-se a mobilização. Pela minha parte, votarei Emmanuel Macron. É ele que defende os valores que permitem juntar os franceses neste período tão particular,” concluiu, aludindo à pertença à Europa e ao “lugar de França no mundo.”

A questão que se coloca é: existem semelhanças entre Hollande e Macron? Para muitos franceses, Emmanuel Macron é uma espécie de “produto de marketing”. Por outro lado, há quem o encare como um “novo Obama”, repleto de energia e esperança, com apoiantes idealistas e, acima de tudo, alguém que se distancia do sistema político tradicional. Mas há que entender que essas características o afastam de Hollande em certos pontos, na medida em que o Presidente é oriundo de um partido conhecido e com uma História mais avivada na memória da população, é “parte do sistema” e sempre teve um programa político definido, algo que Macron não tem, até porque fundou o seu partido há um ano.

No entanto, criou um manifesto de propostas, com o objetivo de mostrar as suas ideias a quem o criticava e de esclarecer os seus apoiantes: terminar com o nepotismo (termo utilizado para designar o favorecimento de parentes ou amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos) e com o conflito de interesses; introduzir o escrutínio das despesas parlamentares; combinar medidas tradicionais pró-negócios da direita (como a diminuição das leis trabalhistas e dos impostos) e medidas para combater a crescente desigualdade do país na educação e na urbanização.

Propôs uma revisão radical do sistema de pensões francês – suavizando as grandes diferenças entre os regimes privados e os regimes de pensões dos funcionários, mantendo a idade da reforma nos 62 anos.

Ainda que França seja frequentemente descrita como “irreformável” devido ao descontentamento dos cidadãos e das cidadãs, Macron afirma: “Não queremos adaptar ou reformar, mas sim transformar!”.

Descomplicador:

Duas eleições presidenciais, candidatos diferentes nas segundas voltas mas alguns comuns nas primeiras. A dois dias do veredito final dos franceses, é tempo de comparar estes momentos eleitorais antagónicos e chegar a algumas conclusões.

mariamoreirarato19@gmail.com'
Publicado por: Maria Moreira Rato

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