As 72 horas decisivas que baralharam as contas no Porto: “O PS não se impõe onde não é desejado”

Foi anunciado esta manhã o nome de Manuel Pizarro, atual vereador de Rui Moreira na câmara do Porto e líder da distrital dos socialistas, como o candidato pelo PS à câmara nas autárquicas de outubro. No entanto, basta recuar três dias para percebermos como tudo se precipitou – da altura em que se falava de negociações sobre as listas de Rui Moreira, com o apoio do PS, à decisão do independente de deixar cair o apoio socialista e à imposição, alegadamente de António Costa, de o PS lançar rapidamente um candidato próprio em resposta à ruptura.

O Panorama explica-te os momentos chave do desentendimento entre o PS e o movimento independente liderado por Rui Moreira, numa altura em que as contas ficam baralhadas para as autárquicas deste ano numa das principais câmaras do país.

Um conflito crescente (e previsível?)

Embora tudo se tenha precipitado esta semana, o desconforto entre as duas partes não é de agora. Já no fim de março se dava conta do desconforto socialista com a presença de Rui Moreira numa sessão de apoio ao candidato independente à câmara de Coimbra, José Manuel da Silva, onde o atual autarca do Porto falou das “escolhas sóbrias” que as candidaturas independentes conseguem fazer, colocando de parte as “mercearias e as quotas”, cita o Público.

Já em abril, Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do Partido Socialista, deu uma entrevista ao Expresso que terá sido intepretada no movimento de Rui Moreira como uma das maiores formas de pressão, dizendo esperar uma “forte representação socialista” nas listas do Porto.

A resposta não se fez esperar: ao Público, o assessor de Rui Moreira, Nuno Santos, esclareceu que não haveria “jobs for the boys na Câmara do Porto, e isto é tanto para o PS como para o CDS”, partidos que apoiam – ou apoiavam, na altura – a candidatura indepentente. “O doutor Rui Moreira fará as suas listas de acordo com critérios de competência e de conhecimento das pessoas nas respectivas áreas”, acrescentava então Nuno Santos.

As 72 horas que precipitaram duas grandes decisões

“As vitórias das listas que o PS integra serão vitórias do PS“. A frase da discórdia foi proferida por Ana Catarina Mendes nesta quarta-feira, em entrevista ao Observador, e gerou desconforto no movimento de Rui Moreira, que interpretou as declarações como nova forma de pressão. “No Porto houve uma decisão de apoiar o projeto de Rui Moreira, mas isso não significa que PS não tenha a sua representatividade nestas listas”, dizia então a secretária-geral adjunta, falando de uma “negociação” que teria de haver entre as duas partes.

A negociação não chegou a acontecer – na quinta-feira à noite, houve uma reunião de emergência da comissão política do movimento de Rui Moreira, em que foi avaliado o apoio do PS ao partido. Logo na sexta-feira de manhã soube-se da decisão de deixar cair o apoio socialista.

A decisão foi esclarecida ainda na sexta-feira por Rui Moreira, em entrevista à SIC. com palavras duras do autarca: “Não aceitamos que o PS tente fazer crer que existe uma coligação informal ente o PS e o nosso movimento”. Entendendo que houve uma “forma de pressão clara” nas palavras de Ana Catarina Mendes tanto ao Expresso como o Observador, Moreira rematou: “Pretendo ter a liberdade que um movimento independete deve ter de poder escolher os melhores. Não pode haver uma contabilidade que tente minar este princípio fundamental do meu movimento”. E a gota de água: depois de elogiar a “enorme lealdade e competência” de Manuel Pizarro nos últimos quatro anos, Moreira confirmou estar a contar com o socialista como vereador, mas não como número dois da lista: “O número dois da lista será em qualquer caso uma pessoa independente, sem qualquer filiação partidária”.

Após indicações durante sexta-feira de que o PS manteria o apoio a Rui Moreira como candidato no Porto, com o Jornal de Notícias a chegar a imprimir uma capa  que chegou à edição sul com a manchete que anunciava que o PS não avançaria com candidato próprio (“daí a coexistência de duas primeiras páginas com versões contraditórias, mas ambas verdadeiras à hora em que foram impressas”, explica o jornal), o PS surpreendeu, possivelmente influenciado pelas palavras ásperas de Moreira na SIC, alegadamente com António Costa a impor a decisão de avançar com candidato próprio. O nome de Pizarro acabou por ser confirmado numa reunião do Secretariado do PS/Porto, já na madrugada deste sábado.

Já na manhã deste sábado, Tiago Barbosa Ribeiro, líder da concelhia do PS no Porto, anunciou o nome de Pizarro como candidato do PS, acrescentando: “Quisemos renovar este acordo pela avaliação positiva de todo o executivo. Nenhum autarca é inferior porque tem filiação partidária. (…) Mas… a casamentos e a baptizados só vai quem é convidado. A nossa dignidade não é negociável”. O próprio Pizarro voltou à imagem dos casamentos para falar da própria candidatura, na qual rejeita “dramas”: “É evidente que estes acontecimentos impõem uma atitude por parte do Partido Socialista. Diria que é mais proveitoso, como na vida, mantermos uma boa amizade do que um casamento onde uma das partes não se quer manter no casamento”.

À entrada da convenção autárquica socialista a acontecer neste sábado, o próprio secretário-geral do partido manifestou o seu apoio e orgulho no trabalho que Pizarro tem desenvolvido na autarquia. “Mas obviamente, o PS não se impõe onde não é desejado. Havendo uma vontade clara de cada um concorrer com a suas próprias listas, o PS fará o que lhe compete”, concluiu o líder socialista.

Descomplicador:

Desde quarta-feira que os acontecimentos se precipitaram entre a candidatura independente de Rui Moreira no Porto e os socialistas, que vinham demonstrando o seu apoio. O Panorama explica o que esteve na origem da ruptura e da apresentação  de última hora do candidato socialista, Manuel Pizarro.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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