Eleições no Reino Unido: Ontem, hoje e amanhã

Porque tem estado o Reino Unido ‘na boca do mundo’ nos últimos dias?

Na passada quinta-feira, dia 8 de junho, houve eleições legislativas no Reino Unido. De uma maioria absoluta, o país passou para o chamado ‘hung parliament’ (‘parlamento pendurado’ – acontece quando nenhum dos partidos tem maioria absoluta).

O Partido Conservador, que estava a governar com maioria absoluta até aqui, conta a partir de agora apenas com 318 lugares – menos treze do que tinha antes das eleições e menos seis do que o necessário para a dita maioria.

O Reino Unido ficou numa situação de instabilidade. Sem que se possa garantir ainda quem realmente vai assumir a liderança do país daqui para a frente, tudo indica que serão os Conservadores a formar Governo.

Os resultados destas eleições foram inesperados. No início do período eleitorial, as sondagens davam uma diferença clara de 20 pontos percentuais a favor dos Conservadores, em relação aos Trabalhistas. Foi essa vantagem que motivou Theresa May a convocar eleições antecipadas.

Porquê estas eleições antecipadas?

A primeira-ministra britânica tem nas suas mãos as negociações do Brexit e tem vindo a encontrar alguma resistência quer nos partidos da oposição, quer dentro do próprio partido, e até mesmo em Bruxelas. O que se passa é que não há consenso sobre a forma como deve ser conduzido o processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

No sentido de reforçar a sua posição, a primeira-ministra, no passado dia 18 de abril, convocou eleições antecipadas, esperando, desta forma, aumentar o número de deputados Conservadores no parlamento. Segundo a própria, este reforço iria facilitar uma negociação do Brexit mais vantajosa para o Reino Unido.

Para além disso, May não gozava de legitimidade eleitoral, uma vez que tinha chegado ao cargo  por via de substituição de David Cameron, que tinha abandonado o lugar.

Por que motivo David Cameron resignou ao cargo?

O anterior primeiro-ministro britânico demitiu-se no dia 24 de junho de 2016, depois de o Reino Unido ter aprovado, em referendo, a saída do país da União Europeia – o famoso “Brexit”.

David Cameron é europeísta e, no seu discurso de resignação, explicou que não estaria certo estar à frente das negociações uma pessoa que não acredita nas vantagens da decisão tomada pelo povo britânico.

A campanha foi renhida e grande parte das sondagens deram a vitória ao “Remain” (“Ficar”). Os resultados do Brexit foram uma surpresa para todos e iniciaram um processo histórico, por determinarem a saída pela primeira vez de um país da União europeia.

Se o país parecia querer manter-se na União Europeia, o que os levou a referendo?

A decisão foi do próprio primeiro-ministro Cameron que, nas eleições legislativas de 2015, acreditou que a promessa de um referendo o poderia colocar em vantagem face aos restantes países europeus, na renegociação das condições para continuar na União Europeia.

No dia 20 de fevereiro de 2016, Cameron convocou o referendo para quatro meses depois. A campanha foi fortemente destabilizadora da ordem social e política e deixou o país dividido. Os resultados acabaram por ser renhidos – 52% para o “Leave” (“Sair”) contra 48% para o “Remain” (“Ficar”) –, com uma afluência às urnas de 72%.

Tanto Cameron, no ano passado, como May, este ano, puseram o seus lugares à prova para reforçar as posições de poder e acabaram por sair enfraquecidos.

E agora?

Neste momento, o Reino Unido está numa situação fragilizada, havendo várias consequências a apontar e diferentes cenários possíveis para o futuro:

  • Os chefes de gabinete de Theresa May, Nick Timothy e Fiona Hill, demitiram-se, assumindo responsabilidade pelo fracasso destas eleições;
  • A moeda britânica caiu nos mercados, no momento da divulgação das primeiras projeções dos resultados, na passada quinta-feira;
  • Tudo parece indicar que Theresa May virá a formar governo, com o apoio – sem coligação oficial – do Partido Democrático Unionista, da Irlanda do Norte, embora não esteja fechado um acordo ainda. Os dois partidos juntos garantem a maioria absoluta. As líderes partidárias vão reunir-se esta terça-feira, dia 13;
  • Jeremy Corbyn vai tentar unir esforços junto dos restantes partidos, na perspetiva de conseguir apresentar uma proposta de Governo alternativa à dos Conservadores. A hipótese de sucesso não é vista como provável, uma vez que os partidos têm posicionamentos muito díspares nalgumas matérias;
  • Um outro sinal da instabilidade vivida no país é a não confirmação da data do discurso da rainha para o anúncio do início oficial da legislatura. O momento estava marcado para dia 19, próxima segunda-feira, mas ainda não foi confirmado;
  • Na sequência do possível adiamento da abertura da legislatura, também não é certo o início das negociações do Brexit, em Bruxelas, agendado para o mesmo dia (19 de junho), uma vez que os ministros precisam de estar no Reino Unido mais uns dias;
  • O Partido Conservador sai destas eleições enfraquecido, e a posição de Theresa May fica fragilizada. A primeira-ministra reuniu com os deputados do seu partido esta segunda-feira, dia 12, tendo pedido desculpa pela situação em que os colocou. Mesmo que para já não se preveja a contestação da saída de May – até porque o partido tem receio de perder ainda mais força no decorrer do processo –, os especialistas admitem que a liderança do partido esteja comprometida a médio prazo;
  • Seja como for, o Brexit não está em causa. Qualquer um dos dois partidos com mais deputados diz que irá respeitar o resultado do referendo. Resta saber se o processo vai assumir uma versão mais rígida (“hard Brexit”) ou mais suave (“soft Brexit”). Com o resultado destas eleições, aumenta a pressão para o acordo seja mais moderado.

Descomplicador:

O Reino Unido foi a votos na passada quinta-feira, na sequência da convocatória de eleições antecipadas por parte da atual primeira-ministra. Theresa May, líder dos Conservadores, tinha a expectativa de aumentar o número de deputados no parlamento. Os resultados foram no sentido contrário e o Partido Conservador perdeu até a maioria absoluta. O país está agora numa situação de instabilidade e maior fragilidade para negociar o Brexit junto da União Europeia.

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Publicado por: Margarida Alpuim

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