“Caça às bruxas!”: Os episódios da novela americana que nos trouxeram até aqui

Começou bem antes da eleição, com acusações ao candidato republicano de encontrar demasiados elogios para fazer ao presidente russo, Vladimir Putin. Não o conhecia pessoalmente mas não via problema em resolver as quezílias dos países, replicava Trump. Num dos debates que o opuseram a Hillary Clinton, e em que ela o acusou de ser uma “marioneta” de Putin, exclamou, furioso: “Eu não sou uma marioneta, você é a marioneta!”.

A relação Trump-Rússia deu que falar antes das eleições americanas mas trouxe consequências reais à nova administração. Começou pelas suspeitas de conspiração de membros da equipa da campanha Trump relacionadas com a alegada interferência russa nas eleições americanas. O antigo conselheiro de segurança nacional de Trump, Michael Flynn, não demorou a deixar de fazer parte da equipa. E o atual procurador-geral, Jeff Sessions, omitiu nas audiências de confirmação para o cargo dois encontros com o embaixador russo nos Estados Unidos – e noticia-se um terceiro, supostamente no hotel Mayflower, em Washington.

Nos últimos tempos, a trama adensou-se, com o FBI a representar um papel crucial na investigação que já envolve vários comités e equipas diferentes, determinados a descobrir: afinal, houve conspiração entre a equipa de Trump e Moscovo ou não?

A fuga de informação que baralhou os aliados

Em maio, um dos motivos que levaram Trump às capas dos jornais foi a revelação de informação confidencial a representantes russos, numa reunião na Sala Oval, relativamente a atos e grupos terroristas. Como Trump afirmou no Twitter, não há nada que impeça o presidente de revelar informação confidencial a quem quiser; o problema é que a informação passada à Rússia terá sido recolhida pelo aliado norte-americano Israel no Médio Oriente, e por isso a revelação dessa informação constituiu, para muitos, pelo menos uma indiscrição – e foi razão suficiente para Israel decidir mudanças em relação à forma como comunica essas informações.

O presidente escolheu difamar-me

Um dos momentos mais falados das últimas semanas foi o despedimento de James Comey, ex-diretor do FBI, por motivos contraditórios: embora os relatórios de Jeff Sessions e do seu número dois falassem da forma como Comey geriu o caso dos emails de Hillary Clinton, em outubro passado, Trump não teve pudor em dizer à NBC que “a coisa da Rússia” – isto é, a investigação do FBI à alegada interferência russa nas eleições – foi motivo para despedimento. Terá dito o mesmo aos tais representantes russos na Sala Oval, chamando “maluco” a Comey e admitindo que isto lhe retirara “pressão”. Comey, questionado no Senado, relatou conversas com Trump em que este tentou dissuadi-lo de investigar Michael Flynn e queixou-se de “difamação” por parte do presidente.

Semelhante interrogatório foi o de Jeff Sessions, que se retirou das investigações à campanha presidencial por ter feito parte da equipa Trump. Às perguntas sobre o despedimento de Comey, Sessions respondeu invariavelmente que não sabia ou não podia responder, provocando acusações de obstrução à justiça por parte de alguns senadores.

A acusação ao presidente

Esta semana foi formalmente oficializada a investigação do Departamento de Justiça a Donald Trump, desta feita já sem Comey e liderada pelo procurador especial e antigo diretor do FBI Robert Mueller, ainda devido às supostas ligações russas. No Twitter, o presidente falou de uma “caça às bruxas” e referiu que tudo terá a ver com o seu despedimento de Comey no momento em que a interferência russa era investigada, o que poderá constituir obstrução à justiça.

 

Descomplicador:

A novela russo-americana não dá sinais de estar a acabar, numa altura em que se confirma a investigação ao próprio presidente dos Estados Unidos.

Publicado por: Mariana Lima Cunha

21 anos, natural de Oeiras. Licenciada em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduada em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Jornalista online do Expresso

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