Joaquim Raposo: “Não gastaremos mais um cêntimo no SATU”

Oeiras é um dos concelhos onde a “batalha” pela autarquia gera mais interesse, não só localmente como no contexto nacional. Paulo Vistas luta pela renovação do mandato, Isaltino Morais procura voltar a um lugar que já foi seu e o PS apresentou um histórico do movimento autárquico. Depois da Amadora, Joaquim Raposo enfrenta agora o desafio de Oeiras e esteve à conversa com o Panorama.

“Espero (…) ser eleito Presidente da Câmara Municipal de Oeiras e com o trabalho desenvolvido conquistar a confiança para um segundo mandato”

Panorama: Foi presidente da Câmara da Amadora durante 16 anos e candidata-se agora a Oeiras. O que é que o motiva a enfrentar mais um projecto autárquico? Está preparado para mais um projecto a longo prazo, ou o objectivo é apenas um mandato?

Joaquim Raposo: O que me motiva é a vontade de poder servir as pessoas e a minha forte convicção de que posso ajudar Oeiras a ser um melhor concelho para se viver e a aproveitar melhor todas as suas potencialidades. Sei que é um enorme desafio, mas já demonstrei ao longo da minha vida política que sou capaz de fazer acontecer e que nunca desisto. Espero, por isso, ser eleito Presidente da Câmara Municipal de Oeiras e com o trabalho desenvolvido conquistar a confiança para um segundo mandato.

O nosso programa apresenta projetos e soluções concretas em todas as áreas para fazer o que não foi feito que resultam de uma análise muito rigorosa das necessidades dos munícipes e das características do território. Nalguns casos, como na área da mobilidade, está em causa uma mudança estruturante que precisa de ser planificada e executada, na sua plenitude, nesse prazo de dois mandatos que espero poder cumprir.

P: Voltar a candidatar-se à Câmara da Amadora nunca foi opção, depois destes quatro anos de interregno?

JR: Tenho muito orgulho do trabalho que foi possível fazer na Amadora e sei, pelas vitórias sucessivas que tive, que as pessoas o reconhecem. O trabalho social que desenvolvemos, a requalificação urbana que promovemos, a revolução nas acessibilidades e as novas estações de metro são marcas incontornáveis. Mas esse ciclo para mim terminou e julgo que soube deixar a Amadora em boas mãos.

A minha disponibilidade sempre foi total para os desafios em que sinto que sou necessário e posso fazer a diferença, mesmo quando são exigentes, como é o caso de Oeiras, um concelho que conheço muito bem e ao qual sempre tive uma forte ligação. Considero que em Oeiras também terminou um ciclo para outros que esgotaram o seu projeto político. Espero agora ter a oportunidade para liderar Oeiras neste novo tempo que vivemos, demonstrando que é possível fazer melhor com novas ideias e novas soluções.

“Oeiras foi o concelho que pior se preparou para os novos desafios de mobilidade urbana”

P: Primeiro Amadora, agora Oeiras, são dois concelhos que estão intimamente ligados a Lisboa. As acessibilidades são tidas como o maior problema, mas de um modo genérico, em que é que os concelhos limítrofes à capital mais beneficiam e mais são prejudicados por essa proximidade?

JR: Oeiras foi o concelho que pior se preparou para os novos desafios de mobilidade urbana. É incompreensível que no passado não tenham sido projetadas e executadas soluções, que hoje apresentamos no nosso programa, junto a vias estruturantes como a A5, a CREL ou a CRIL que estariam seguramente a garantir mais fluidez no trânsito em zonas residenciais que foram crescendo mas mantendo sempre a mesma rede viária. A falta de investimento nos interfaces de transportes, que são dos mais desqualificados na área metropolitana de Lisboa, não é aceitável e provocou a redução preocupante do número de utilizadores.

A proximidade à centralidade de Lisboa pode ser uma vantagem competitiva se o problema da mobilidade for encarado seriamente e não adiado como até aqui. O concelho só pode ser competitivo para atrair empresas e famílias se garantir uma oferta de qualidade ao nível dos transportes e da rede viária que não signifique um prejuízo para a qualidade de vida das pessoas e a própria produtividade das empresas que escolhem Oeiras para se sedearem.

Por outro lado, acredito que Oeiras pode construir uma identidade própria que se afirma num contexto de proximidade e complementaridade à capital pela diferenciação positiva e qualificada nas respostas sociais, na fixação de empresas inovadoras, na organização e eficácia da gestão do espaço público e na excelência da oferta cultural. O nosso programa aponta várias soluções nesse sentido.

P: Pegando agora sim no tema das acessibilidades. A sua aposta é no MetroBus e numa interligação com outros concelhos, mas caso esses outros concelhos acabem por não concordar, de que forma é que Oeiras pode resolver o problema da mobilidade? Que estratégias tem pensadas para este tema?

JR: A proposta está pensada para uma ligação a interfaces de metro e de comboio não estando por isso dependente da aceitação de outros municípios. Creio porém que, neste contexto, dificilmente haverá algum concelho que não queira aderir a uma solução que tem o apoio das instâncias europeias e nacionais, por se tratar de um meio de transporte eficiente, económico e amigo do ambiente. No plano do conselho metropolitano e ao nível do Governo vou empenhar-me para mobilizar os meus colegas autarcas e os membros do Governo responsáveis para este novo projeto estruturante de mobilidade urbana.

Julgo que esta é a alternativa que Oeiras precisa e não o investimento que alguns ainda defendem num projeto falido como o SATUO que é, na prática, um simples elevador na horizontal altamente oneroso sem capacidade de resposta para as necessidades de todo o concelho. Nós defenderemos o METROBUS em 3 três corredores (Linha Azul, Linha Vermelha e Linha Amarela) por todo o concelho, e não gastaremos nem mais um cêntimo no SATUO.

A estratégia para a mobilidade passará também por uma aposta na criação de novas alternativas na rede viária que melhorarão a circulação aproveitando a proximidade à A5, à CRIL e à CREL, na criação de novos interfaces junto à linha de Cascais com novos parques de estacionamento, uma nova ligação desta linha à rede de metro, uma faixa dedicada na A5 para o novo MetroBus e numa nova rede integrada de ciclovias com cerca de 90 km a ligar todo o concelho, nomeadamente à zona ribeirinha.

P: Ainda na relação entre a Área Metropolitana de Lisboa, acredita que o actual modelo de coordenação da AML é eficaz? Se não, que alterações gostava de ver na forma de coordenação de todos os concelhos da AML?

JR: Sempre defendi a eleição direta da direção política da área metropolitana com mais competências supramunicipais atribuídas. Não foi possível avançar nesse sentido ainda. Espero, mesmo assim, que o debate importante que está a decorrer sobre a descentralização permita uma valorização do estatuto político das áreas metropolitanas. Oeiras ficará a ganhar com uma coordenação reforçada de políticas metropolitanas e sei que a minha experiência pode ser uma importante mais valia nesse trabalho como presidente do município. Fui Presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS durante alguns anos e conheço bem a realidade de todos os concelhos.

“Lançamos também um programa ambicioso de construção de 34 novos parques em todo o concelho”

P: Disse já, em entrevistas anteriores, que pretende cancelar a obra do Fórum Municipal e encaminhar os fundos para outras áreas, apontando, para além da mobilidade, a área social. Para além destas duas áreas, que outras prioridades considera essenciais para Oeiras no curto prazo (ou seja, para um mandato)?

JR: Essas áreas são sem dúvida prioritárias para nós e sobretudo na área social de apoio aos idosos, aos jovens e às famílias há muito que pode ser feito. No plano da fiscalidade Oeiras tem de ser mais exigente beneficiando mais as pessoas e as empresas que criam postos de trabalhos.

O IRS, atualmente, está entre os mais altos de toda a área metropolitana e a derrama não considera os novos empreendedores como acontece noutros concelhos. Connosco, os munícipes de Oeiras beneficiarão, já neste mandato, da devolução de uma percentagem do seu IRS e os novos empreendedores que criam postos de trabalho terão isenção de derrama.

Outra área decisiva que a autarquia não soube planear e executar ao longo dos anos para a qualidade de vida em Oeiras tem a ver com uma estratégia eficaz na limpeza urbana. O estado atual de muitas ruas do concelho é absolutamente calamitoso. Nós vamos mudar este cenário investindo em novos meios de limpeza e na transferência desta competência para as juntas de freguesia, potenciando assim a sua mais rápida capacidade de resposta e proximidade às diferentes realidades.

Lançamos também um programa ambicioso de construção de 34 novos parques em todo o concelho que vai valorizar, como nunca, o espaço público em Oeiras, permitindo às famílias e a todas as gerações beneficiar, mais perto de casa, de novos espaços verdes com parques infantis, circuitos fitness e campos desportivos. Porque esta é também uma opção que importa para a qualidade de vida.

Nas políticas de habitação também é necessário intervir porque Oeiras não soube criar verdadeiras respostas às necessidades já diagnosticadas. Iremos criar uma bolsa de arrendamento que permitirá o acesso a habitação a custos acessíveis no concelho a muitas famílias principalmente de jovens.

Creio que os munícipes de Oeiras perceberão que todas estas medidas que proponho como alternativa fazem muito mais sentido do que atirar cerca de 40 milhões de euros para a construção de uma nova sede do município, que só serviria para continuar o adiamento de tanta coisa que está por fazer.

Geringonça municipal? “Não seria uma experiência nova para mim”

P: Dependendo do resultado das eleições, considera-se capaz de sentar à mesa Isaltino Morais e Paulo Vistas, numa espécie de “geringonça” municipal? E ao contrário, está disponível para assumir funções num executivo liderado por outro candidato?

JR: Não seria uma experiência nova para mim. No meu primeiro mandato como presidente da Câmara da Amadora fui capaz de governar com sucesso atribuindo responsabilidades a todos os partidos do PCP ao PSD.

Em Oeiras não tenho contas a acertar com ninguém. Respeitando os princípios fundamentais do nosso compromisso eleitoral, farei, naturalmente, tudo o que estiver ao meu alcance para estabelecer os consensos necessários entre as forças políticas do município para garantir a melhor governação do município e assim melhor servir todos os munícipes. Esse será o meu dever como Presidente que espero vir a ser e, se não for esse o caso, como vereador.

Descomplicador:

Joaquim Raposo aposta na mobilidade como uma das prioridades para Oeiras, prometendo não gastar mais dinheiro com o MetroBus. O candidato do PS revela ainda estar disponível para trabalhar com todos.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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