#RegressoÀsAulas: “Gostava que não houvesse abandono escolar”

Série #RegressoÀsAulas – Panorama

As colocações para o Ensino Superior vão ser conhecidas na Segunda-Feira, 11 de Setembro. Várias academias e várias cidades preparam-se então para receber dezenas, centenas ou milhares de estudantes, que alteram o quotidiano de qualquer local. O Panorama esteve à conversa com o presidente da Federação Académica de Lisboa, João Rodrigues. Nesta primeira parte, o tema em destaque é a acção social.

Gostaria que não tivéssemos abandono escolar.

Panorama (P): Começando com uma pergunta difícil, se tivesses que escolher uma coisa que quisesses ver resolvida durante este ano lectivo, o que é que escolhias?

João Rodrigues (JR): É uma pergunta realmente difícil, as prioridades e os desejos são tantos. Se fosse um desejo de lâmpada do Aladdin, gostaria que não tivéssemos abandono escolar. Que ao longo do ano existissem mecanismos que evitassem que qualquer estudante desistisse do Ensino Superior.

P: A Federação Académica de Lisboa (FAL) diz na sua moção global que “enquanto existir abandono escolar, a acção social não cumpre a sua função na plenitude”. Quando é que podemos considerar que a acção social cumpre integralmente a sua função? Podemos dizer que o ideal seria a bolsa escolar integrar também a despesa de alojamento, transportes, etc?

JR: Nós temos a acção social direta e a indirecta. O cariz efectivo da acção social passa muitas vezes por coisas como o regulamento de atribuição de bolsas ser mais lato, o financiamento ser mais abrangente, mas passa também pela prestação de serviços como os transportes, o alojamento, a componente desportiva, para que seja de acesso universal a todos os estudantes e é para isso que a FAL luta diariamente. Se nos perguntares se é utópico, é. Mas a política faz-se de utopias. O nosso sistema ainda é muito elitista e tem incorporado, ainda, traços de exclusão a nível social.

A acção social deverá ser transversal para uma melhor frequência do Ensino Superior.

P: E para que a acção social seja mais abrangente em todas essas áreas, o reforço deve ser pela via financeira ou pela disponibilização desses serviços?

JR: A acção social deverá ser transversal para uma melhor frequência do Ensino Superior. Ou seja, dar condições para a prática do desporto, para que a mobilidade seja efectiva, entre outros. Agora, o que é que eu gostaria prioritariamente? Que a ação social directa, venha a abranger níveis mais baixos do que na actualidade.

P: Embora tenha existido já um aumento há uns tempos, certo?

JR: Sim, pode-se falar num aumento. Se me perguntares se chega, não chega. Aliás, uma das nossas bandeiras com o restante movimento associativo estudantil, foi que quando um estudante requer bolsa, e portanto sabe que não tem forma de frequentar o Ensino Superior sem esse apoio, que essa bolsa se possa renovar automaticamente. Isto parece uma pequena questão mas que era claramente necessário corrigir. Um estudante que no primeiro ano tenha bolsa, irá pedir, regra geral, bolsa no ciclo de estudos de três anos. Não faz sentido, até para optimizar os recursos do Estado, o estudante ter que estar constantemente a comprovar a sua situação financeira e social. O estudante faz um contrato com o Estado, existindo assim confiança para com o estudante e para com o seu agregado familiar, trazendo maior estabilidade. O sistema ficou mais inclusivo com esta medida, que trouxe obviamente aumentos, até porque o número de créditos exigidos baixou, não numa política de facilitismo, mas tendo em conta que são os estratos sociais mais baixos quem mais abandona.

(…) Pode existir uma plataforma de entendimento para que existam perspectivas comuns entre as instituições, para responder às necessidades dos estudantes.

P: Não acreditam então que a melhor forma de materializar estes apoios não é através de uma unidade central? Ou seja, Lisboa podia contar com uma unidade estatal que fizesse a gestão dessa acção social, até porque para os transportes, alojamento, entre outros, seria mais benéfico organizar por região.

JR: A autonomia das instituições tem que ser respeitada, mas isso não pode ser uma barreira à criação de sinergias entre instituições e aliás, isso está na génese da Federação Académica de Lisboa. Isso deve-se claramente repensar, tal como está plasmado na nossa moção global. Devemos assim pensar que acção social queremos. Um estudante do Politécnico de Lisboa não pode ir à cantina do ISCTE? Essa não é a acção social que almejamos. Queremos que os fundos públicos sejam optimizados, ganhando em escala, quer no desporto, quer na alimentação, quer no alojamento. Respeitando esta autonomia, pode existir uma plataforma de entendimento para que existam perspectivas comuns entre as instituições, para responder às necessidades dos estudantes.

Estes são alguns dos problemas de uma Lisboa “menina e moça”, mas que tem dar condições aos “meninos e às meninas” que apostam na cidade.

P: Para encerrar este tema da acção social, até porque este é um tema que tem estado em destaque na campanha para as eleições autárquicas, para os estudantes a questão da habitação é já um “handicap” para virem estudar para Lisboa? Está a afastar estudantes?

JR: Claramente. O objectivo da FAL é que Lisboa não seja só uma cidade para turismo, para startups e empresas, mas também uma cidade para estudantes. Queremos uma cidade o mais multifacetada e cosmopolita possível. Lisboa a nível europeu é das capitais com maior número de instituições de Ensino Superior e este tema não depende apenas do poder autárquico, embora tenhamos estado em contacto constante com a autarquia. Já neste processo autárquico, temos reunido e vamos reunir com todos os candidatos à CM Lisboa (CML), alertando para o aprimoramento da relação entre a FAL e a CML e depois a questão da mobilidade e da habitação. Na mobilidade têm-nos apresentado garantias de que com a gestão da Carris, irá existir uma optimização sobre o número de autocarros e a sua frequência. Por exemplo, a ligação entre a Cidade Universitária e o Pólo da Ajuda fica claramente aquém das necessidades. Na habitação, é uma questão mais de legislação nacional, embora a autarquia tenha um parque habitacional que precisa de remodelações e reformas. É necessário construir mais residências universitárias e maior regulação sobre o preço da habitação, não só para o estudante, mas para quem habita em Lisboa, porque os estudantes de hoje serão os habitantes de Lisboa para o futuro. Todas as residências estão lotadas e ainda existem instituições sem residências próprias, e esta é uma realidade incomportável nos últimos anos. Estes são alguns dos problemas de uma Lisboa “menina e moça”, mas que tem dar condições aos “meninos e às meninas” que apostam na cidade.

Segunda parte AQUI 

Série #RegressoÀsAulas – Panorama

Descomplicador:

João Rodrigues, presidente da Federação Académica de Lisboa, diz que gostaria de ter um ano lectivo sem abandono escolar e pede ainda um alargamento do limiar de abrangência da acção social escolar.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *