Este PSD não é para novos

O ano de 2018, que agora começa, promete ser politicamente intenso, na medida em que nos encontramos numa nova fase da governação e da oposição. Com efeito, os primeiros dois anos foram marcados, do ponto de vista governamental, pela redução de despesa, acompanhada da devolução de rendimentos e da estimulação do crescimento económico. No fundo, marcados pelo cumprimento do acordo político com os restantes partidos de esquerda e que suportam o Governo. Do lado da oposição, CDS e PSD seguiram rumos distintos, ainda que apoiados num eixo comum: a previsão do falhanço da estratégia do Governo. A dividi-los esteve a opção de desgaste do PSD protagonizada por Assunção Cristas, procurando rejeitar o papel de parceiro de oposição para tentar o de líder, enquanto Passos Coelho arriscava uma estratégia de total imobilismo político, aguardando pacientemente o colapso que nunca chegou e que promoveria a sua redenção política. Este quadro generalista sobre o ponto de partida do Governo e da oposição à presente data mereceria uma análise profunda, nomeadamente tendo em conta a necessidade de uma segunda fase de coligação mais assente na vontade política própria e menos no acordo à esquerda. Contudo, a eleição do novo presidente do PSD neste fim-de-semana impele-nos, naturalmente, a reflectir sobre o futuro mais imediato do maior partido da oposição.

O problema desta disputa eleitoral começa, obviamente, na incapacidade de afirmação do PSD enquanto alternativa política

O problema desta disputa eleitoral começa, obviamente, na incapacidade de afirmação do PSD enquanto alternativa política dentro do nosso sistema partidário. O primeiro debate quinzenal do ano foi disso exemplo: na ausência de propostas – e será difícil encontrar cidadãos que se recordem de alguma proposta do PSD durante estes dois anos – a aposta é feita na política de casos, procurando debilitar o Governo. Contudo, esta forma de acção esquece que o eleitorado apresenta uma cada vez maior resistência a discursos negativos, como podiam ter observado nas recentes eleições autárquicas. Ademais, ainda que as sondagens sejam apenas um instrumento, mas pelo menos útil para compreender tendências, a imagem do Governo tem sido e manter-se-á positiva independentemente das polémicas articiais que se tentem criar à sua volta.

Dito isto, o desafio do PSD seria apresentar uma imagem renovada, procurando introduzir alguma novidade na forma de se apresentar aos cidadãos. Essa necessidade era ainda mais urgente, dado que BE, CDS/PP e PS já o tinham feito, ora apresentando lideranças renovadas, com a originalidade de termos duas mulheres à frente de BE e CDS, ora dando fôlego a uma geração emergente, como foi o caso do PS. O PSD, ao ter apostado na queda rápida do Governo e na manutenção de Passos Coelho, adiou essa decisão, sem sequer ter arriscado um realinhamento programático. Por esse motivo, a principal nota negativa do debate interno do PSD é precisamente assistirmos a um combate entre passado e passado, que não suscitou o mínimo entusiasmo por parte da sociedade portuguesa.

A segunda nota relevante e negativa é que, à falta de capacidade de mobilização de ambos os candidatos, se juntou a ausência de debate palpável. O período de campanha foi marcado por uma discusão triste entre ambas as candidaturas acerca do número, modelo e moderação dos debates. Duvido que alguém fora do PSD tenha percebido as dificuldades de agendamento ou a indisfarçável vontade em bloquear o processo negocial para impedir o esclarecimento. É notório que, à necessidade de fomentar uma cultura de abertura, de prestação de informação, de simplicidade de relação entre os partidos e a restante sociedade, o PSD respondeu com um fechamento sobre si próprio, por mais apps que proponham ou proclamações inflamadas que profiram.

Ainda assim, já na recta final da campanha, tivemos direito a dois debates televisivos e a um na rádio. O balanço é esmagador: nem os debates permitiram apresentar qualquer ideia, nem trouxeram elementos novos ao que já sabíamos antes. Ficou claro, se já não fosse, a razão pela qual Rui Rio pretendeu limitar o número de debates. A impreparação para lidar com a pressão dos debates e com os ataques do seu adversário foi notória, independentemente de estes serem pouco ou nada substantivos do ponto de vista das ideias. Visivelmente atrapalhado nos momentos de maior tensão, Rui Rio só não é uma desilusão porque qualquer pessoa que tenha acompanhado os seus mandatos à frente da Câmara Municipal do Porto com um mínimo de seriedade não se teria iludido em primeiro lugar.

Nenhum dos candidato parece saber qual a postura que deve ter para com o PS

Do sumo deste embate tiram-se apenas duas ideias. Por um lado, há uma enorme vontade em reduzir a carga fiscal sobre as empresas, não percebendo que a competitividade fiscal não é o factor de diferenciação no qual a economia portuguesa precisa de apostar para atrair investimento. Por outro, nenhum dos candidato parece saber qual a postura que deve ter para com o PS, tal a quantidade de vezes que mudaram de opinião sobre os cenários eleitorais e pós-eleitorais futuros. Estrategicamente, o pior que pode acontecer a um partido é não saber o que fazer com o seu adversário directo e é precisamente o que acontece no PSD hoje em dia. Não há maior elogio ao trabalho de António Costa.

O único factor de destaque nestas eleições é o conjunto de alianças que se formou dentro do partido. O PSD, neste aspecto, foi coerente com o seu passado, na medida em que a sua volatilidade ideológica e a inexistência de grupos marcadamente constituidos por proximidade de ideias permite que já todos possam ter apoiado todos. Só assim se explica que Santana Lopes possa surgir à direita, arrebanhando os apoios de Passos Coelho, enquanto Rui Rio, possivelmente o mais populista, tecnocrata, extremista e autoritário dirigente do PSD se possa apresentar ao centro, apoiado por Pacheco Pereira. Todos, obviamente, rejeitando que o seu seja um partido de direita. Estes alinhamentos esquizofrénicos, muitas vezes gerados pela necessidade de um mal menor – como o próprio Pacheco Pereira referiu, a que não será alheia uma certa vontade de vendetta contra o outro putativo herdeiro de Sá Carneiro – serão muito pouco úteis para os portugueses, mas são pelo menos clarificadores.  Não sei quem vencerá a eleição, mas posso concluir que a maior vitória será de Passos Coelho, que não só verá o seu legado defendido em qualquer cenário como arranca, definitivamente, o PSD da direita moderada para a sua radicalização crescente. Com essa conquista, o partido de Sá Carneiro fica definitivamente enterrado.

Publicado por: Eduardo Barroco de Melo

Presidente da Federação Distrital do Porto da Juventude Socialista. Membro do Secretariado Nacional da JS. Ex-presidente da Associação Académica de Coimbra. Doutorando na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

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