Congresso PSD: o resumo dos dias das decisões

Perto de três mil pessoas lotaram o Centro de Congressos de Lisboa para o 37º Congresso do PSD. Luis Montenegro foi a “pedrada no charco”, Elina Fraga, a grande surpresa e a unidade, essa, estará à prova nos próximos tempos. O Panorama resume os principais factos do segundo e terceiro dia do conclave social-democrata.

Luís Montenegro surpreendeu o PSD

O ex-líder parlamentar durante os anos de Pedro Passos Coelho como Primeiro-Ministro protagonizou um dos momentos do Congresso ao ser o responsável pelo discurso mais duro dirigido a Rui Rio. A sua intervenção começou por criticar o caminho do PS e de algumas das suas figuras de proa e colocou-se até ao lado de Rui Rio, ao dizer que a sua oposição “é Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e António Costa”.

Depois de, também ele, aderir ao “exército” social-democrata para combater a “geringonça”, Luís Montenegro partiu para o ataque ao dizer que “acusar de falta de coragem alguém que passou os últimos anos, não no sofá, mas a dar o corpo às balas é inusitado e é injusto. Não fui eu que estive 10 anos à espera para disputar a liderança do PSD, entre desejos alternantes de ser primeiro-ministro e Presidente da República”, começou por dizer o antigo líder da bancada, para acrescentar ainda que, sobre este tema, “este é um selo que posso aceitar, mas há ai quem tenha a caderneta cheia de selos”.

Os recados começavam a ser entregues, para minutos depois dizer que “o PSD não foi fundado para ser um clube de amigos, nem foi pensado para ser uma agremiação de interesses individuais. Não transforme o partido numa agremiação dos amigos de Rui Rio”, pediu Luís Montenegro, para antes de deixar o púlpito anunciar a sua saída do Parlamento, no próximo dia 5 de Abril e para avisar que não vai “pedir licença a ninguém” caso decida avançar para a liderança do PSD.

A surpresa chamada Elina Fraga

A ex-bastonária da Ordem dos Advogados, Elina Fraga, foi a grande surpresa de Rui Rio na lista candidata à Comissão Politica Concelhia, que arrebatou 65% dos votos dos congressistas. A sucessora de Marinho e Pinto, apoiada pelo próprio, na Ordem dos Advogados, foi uma grande crítica do executivo de Passos Coelho.

A sua escolha não caiu bem nas hostes sociais-democratas, com a ex-Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz a dizer que esta escolha foi um “acto de traição” para com a herança do executivo do PSD/CDS. A responsável pela pasta no último executivo social-democrata não era a única desagradada com a escolha, visto que, Elina Fraga foi apupada quando foi chamada ao palco para tomar posse, no dia de encerramento do Congresso.

Aos jornalistas, depois de encerrados os trabalhos, Elina Fraga disse “nunca ter traído” o seu partido e ter feito o “melhor por Portugal, dando seguimento ao pensamento de Sá Carneiro”, isto em resposta à queixa que apresentou contra o Governo de Passos Coelho, enquanto bastonária.

Horas mais tarde, Luís Marques Mendes, que esteve presente no “conclave” social-democrata, disse no seu espaço de comentário na SIC que a escolha de Elina Fraga foi “uma imprudência e um erro” e uma “cedência total ao populismo. Ela é uma populista”, disse o comentador.

Um terço dos congressistas não votou nas escolhas de Rui Rio. Conselho Nacional ficou a um lugar da maioria

Quando Rui Rio anunciou os nomes que integraram as “polémicas” listas, pela dificuldade em fechar os lugares na noite de Sexta para Sábado, a desconfiança começou a crescer no Centro de Congressos de Lisboa. No Domingo de manhã, conhecidos os resultados, a desconfiança veio mesmo a confirmar-se.

Um terço dos congressistas não votaram na Comissão Politica Nacional proposta por Rui Rio, com a lista do novo líder social-democrata a recolher menos simpatia do que a última lista de Pedro Passos Coelho. 476 congressistas (65%) votaram a favor, mas registaram-se 190 votos brancos e 69 votos nulos.

No Conselho Nacional a votação correu melhor para a lista de unidade, encabeçada por Pedro Santana Lopes e com Paulo Rangel como número dois, que conquistou 35 dos 70 lugares, ficando a apenas um da maioria absoluta.

Para o Conselho Nacional, para além dos 34 nomes da lista de Pedro Santana Lopes, a lista de Carlos Eduardo Reis e Sérgio Azevedo conquistou 13 lugares e a lista encabeçada por Bruno Vitorino obteve nove lugares. Ainda assim, segundo o Expresso, este resultado foi positivo para as hostes de Rui Rio.

A unidade que está posta à prova

A unidade foi das palavras mais utilizadas nas intervenções que se registaram no púlpito do 37º Congresso do PSD, mas essa unidade está posta à prova. Durante a hora de almoço de Sábado veio a público uma revolta entre os congressistas do Porto, devido à falta de lugares nas listas nacionais, naquela que é a maior distrital do partido.

Horas depois, Bragança Fernandes, líder da distrital estava mais satisfeito e disse até ao Observador que, “a distrital está satisfeita porque aumentou o número nos órgãos. Como presidente estou satisfeito. Neste momento estamos muito bem representados”.

Bragança Fernandes chegou até a dizer que nem Salvador Malheiro nem João Montenegro (os “negociadores” das candidaturas de Rui Rio e Santana Lopes, respectivamente) lhe atendiam o telefone, tendo sido acusado por alguns dos congressistas presentes como tendo uma liderança fraca. Mais à frente, Bragança Fernandes disse “ter feito bem em zangar-me”, pois acabou mesmo por garantir os lugares para a sua distrital.

No entanto, nem todas as histórias acabaram bem e distritais como Viseu, Algarve, Santarém ou Setúbal ficaram descontentes com a falta de representatividade nos órgãos nacionais do PSD.

Um dirigente distrital, que não adiantou o nome, disse ao Observador que “parece que os donos do partido se juntaram, dividiram o partido ao meio e escolheram os amigos”, criticando assim a falta de pluralidade regional nas listas nacionais.

Pedro Alves, líder da distrital de Viseu, era também um dos dirigentes chateados com o processo, tendo-lhe sido oferecido apenas um lugar no Conselho Nacional. “Telefonei a todos os autarcas e dirigentes do distrito, e ninguém quis aceitar, porque um lugar na lista não é dar um sinal político de prioridade para o interior”, desabafou o líder distrital ao Observador.

Certo é que com algumas distritais descontentes, a unidade estará posta à prova nos próximos meses, nas hostes sociais-democratas.

Descomplicador:

A intervenção de Luís Montenegro, a escolha de Elina Fraga, os resultados finais e o descontentamento de algumas distritais do partido, são alguns dos assuntos em destaque no final do 37º Congresso do PSD.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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