André Neves: “O problema está na JSD e não na juventude portuguesa”

André Neves é membro da Comissão Politica Nacional mas encabeça uma das candidaturas à liderança da JSD. Presidente da distrital de Aveiro, André Neves é advogado.

Panorama: Tem sido praticamente unânime que a JSD tem perdido nos últimos anos peso politico e mediático. Em caso de vitória, o que é que farás no curto-prazo para inverter essa tendência?

André Neves: Acredito que a pertinência da JSD enquanto estrutura não está em causa. Isto é, no nosso contexto, a JSD – enquanto a principal estrutura política de juventude – é mais útil do que nunca para o panorama político nacional e na defesa da juventude portuguesa.

Agora, é verdade que o nosso peso político e mediático tem decrescido. Acredito que é conjuntural. E é por isso que é urgente uma viragem com atores novos, abordagem fresca e coragem de rutura.

Não podemos esperar ter relevância quando a forma como comunicamos está obsoleta: não enviamos um sms, um mail aos nossos militantes. Quando não criamos as ferramentas internas para que todos os militantes sejam valorizados. Acima de tudo, quando a nossa agenda política está desadequada dos problemas reais dos jovens portugueses.

Portanto, esse é o meu plano: falar a mesma linguagem da nossa geração; facilitar e alargar a participação; defender os problemas reais dos jovens de hoje.

Não podemos esperar ter relevância quando a forma como comunicamos está obsoleta

P: Quais são as três prioridades que terás na JSD nos próximos dois anos?

AN: O nosso projeto está estruturado em torno de dois vetores fundamentais: refundação interna da estrutura e uma nova agenda política externa.

Em primeiro lugar, a nível interno, é fundamental alargar os métodos de participação. A JSD não pode estar fechada nalgumas cúpulas, não pode ignorar os militantes que não conseguem votar por estarem longe da sua concelhia; não pode centrar a gestão em duas ou três pessoas e, mais importante que tudo, não pode ignorar o trabalho mais valioso: o trabalho em cada concelhia por mais pequena que seja.

O meu projeto é alargar e intensificar a participação dos militantes na vida da estrutura nacional. Não podemos cingir a participação nacional à eleição de delegados ao Congresso de dois em dois anos. É necessário que a opinião e o trabalho de todos os militantes seja valorizado nas decisões da estrutura nacional e, acima de tudo, que a Comissão Política Nacional (CPN) possa voltar a apoiar verdadeiramente o trabalho concelhio.

Em segundo, a nível externo, é crucial que a JSD volte abraçar os problemas dos jovens de hoje e volte a ser a estrutura que, no PSD e em Portugal, seja capaz de ver mais à frente, ter a coragem de propor o que parece impossível. A nossa história está carregada de sucessos, desde a criação do cartão jovem (anos 90), o fim do serviço militar obrigatório (2004) ou a revisão do regulamento das bolsas escolares (2013). Mas parece que desde então não temos causas, bandeiras, conquistas. Não é por falta de problemas, não é por falta de temas. O problema está na JSD e não na juventude portuguesa.

O problema está na JSD e não na juventude portuguesa.

P: Existem vários temas diretamente mais associados às politicas de juventude, um deles é o Ensino Superior. Qual deve ser o papel da JSD junto das associações de estudantes e das associações académicas por forma a fazer a ponte com o poder político?

AN: Terá que ser necessariamente um papel de articulação e de proximidade, salvaguardando naturalmente a independência do movimento associativo estudantil. Do ponto de vista da articulação e proximidade, assumiremos o compromisso de reunir com o movimento associativo estudantil após a realização de cada Encontro Nacional de Direções Associativas (ENDA) ordinário, ou seja, de três em três meses. Sendo que colocaremos na agenda, política e mediática, os temas e as causas com os quais nos identifiquemos. Do ponto de vista da independência, o que posso garantir é que nunca irão ver a JSD a reclamar exclusivamente para si méritos que sejam do movimento associativo e, por isso, de todos os estudantes.

Nunca irão ver a JSD a reclamar exclusivamente para si méritos que sejam do movimento associativo

P: Ainda no que toca ao Ensino Superior, o melhoramento da ação social continua a ser a prioridade, ou neste momento, assuntos como o alojamento ganham outra relevância devido ao acentuar de dificuldades bastante rápido? Que propostas tens neste ponto em especifico?

AN: A questão do alojamento não deixa de ser um instrumento de ação social, ainda que indireta, E a verdade é que, ao longo dos últimos anos, esta tem sido uma área descurada pelos diversos agentes, assumindo-se atualmente como um dos principais problemas do sistema de Ensino Superior em Portugal.

Esta é uma situação que se tem agravado cada vez mais, nomeadamente nos grandes centros urbanos, tendo em conta o crescimento do turismo e da oferta de alojamento local. Com as residências lotadas, os estudantes mais carenciados, mesmo que sejam bolseiros de ação social, vêm-se impossibilitados de cumprir o pagamento de rendas mensais que chegam a superar os 300€ por quarto.

Nós entendemos que o Governo deve concretizar o mais rapidamente possível as condições relativas à linha de financiamento com a qual se comprometeu na Lei de Orçamento do Estado para 2018 e que na negociação do próximo quadro comunitário deverá ser dado particular enfâse à canalização de fundos para a construção de novos espaços de alojamento, nomeadamente residências universitárias para estudantes deslocados. Além disso, propomos um programa de incentivo à criação de oferta privada de alojamento, estabelecendo um conjunto de incentivos, financeiros e processuais, a proprietários que optem por direcionar o arrendamento para estudantes do Ensino Superior e cuja certificação deverá ser levada a cabo pelos Serviços de Ação Social das universidades e institutos politécnicos;

Incentivo à criação de oferta privada de alojamento

No que diz respeito à ação social direta, entendemos que também ainda existe espaço para melhorias ao atual Regulamento de Atribuição de Bolsas de Estudo. Para além das reivindicações relativas à contabilização de rendimento líquidos em detrimento dos rendimentos brutos, propomos a reintrodução do “complemento de transporte”, independentemente da existência de cursos congéneres no respetivo local de residência, para todos os estudantes do território continental. Esta medida vai ao encontro de outra preocupação que temos que é a de promover a coesão territorial através do Ensino Superior.

P: Ainda dentro das politicas de juventude, a questão do emprego jovem é também uma das maiores preocupações dos jovens. O caminho deve ser o de criar condições para a contratação de mais jovens, ou o fomento do empreendedorismo e da criação do próprio emprego?

AN: Acredito que os caminhos são complementares. Nem toda a gente tem de criar o seu próprio emprego, nem toda a gente tem vocação para empreender. É preciso ter os pés assentes na terra e não embarcar em discursos fáceis.

O emprego jovem é um tema que merece uma resposta transversal e não sectária. Neste ponto a JSD tem de ser corajosa. Os nossos licenciados recebem hoje praticamente menos 20% que há 20 anos atrás. Dados como este levam-nos a questionar se devemos ou não ter um salário mínimo para graduados. Todos sabemos que a forma como hoje está pensado um Centro de Emprego está obsoleta, a JSD tem de ter a coragem de propor um novo modelo. Estes temas, fundamentais, na minha proposta política estão explicados em detalhe na Aplicação de Estratégia Global já disponível na playstore.

Para além disso, é fundamental que os programas que já mostraram bons resultados, como os incentivos à realização de estágios profissionais funcionem. Eu próprio beneficiei de um, foi o meu método de inserção no mercado de trabalho. Mas hoje não funcionam. Todos sabemos de casos em que a aprovação das candidaturas demora mais de meio ano, as empresas demoram a receber o incentivo. Não funciona. Ou melhor, funciona no papel, mas não no mundo real, como a maior parte da ação deste governo.

Nem toda a gente tem de criar o seu próprio emprego

P: Que bandeiras tem a JSD que assumir para a juventude, na próxima década?

AN: A JSD tem de ser capaz de assumir as causas do futuro.

Para além dos problemas de que já falámos, como o Ensino Superior ou o Emprego, há causas que esta JSD tem de ser capaz de abraçar.

A inovação social, com a implementação de métodos que permitam aos empreendedores sociais colaborar com o Estado, com toda a sua criatividade e capacidade de inovação, na resolução dos problemas sociais. É fundamental, por exemplo, que em Portugal se consagre o estatuto de social enterprise.

A renovação dos modelos de proteção social. O surgimento de novas profissões, de novos métodos de trabalho, deixou os métodos de proteção social – pensados há 50 anos – obsoletos. A JSD tem de ser capaz de assumir a defesa dos jovens que trabalham em remote work, que trabalham nas start ups de hoje.

Por outro lado, temos de ter uma posição sobre os verdadeiros temas fraturantes da nossa geração: já não são os mesmos de há 20 anos atrás. A JSD tem de ser capaz de discutir a engenharia genética, ter uma posição sobre as criptomoedas que estão a abanar o sistema financeiro mundial. Esta é a minha JSD de futuro.

A JSD tem de ser capaz de assumir a defesa dos jovens que trabalham em remote work

P: No que toca aos “temas fracturantes, deve a “jota” manter a sua postura mais irreverente face ao partido, por exemplo, ou há abertura para assumir uma postura mais conservadora?

AN: Há abertura para tomar a posição que os militantes decidirem, independentemente da posição do Partido. Como dizia há pouco, acredito que é fundamental dar voz aos militantes e as ditas causas fraturantes são um dos momentos em que quero dar voz aos militantes para que possam decidir o posicionamento da estrutura.

Quero promover a utilização de uma ferramenta democrática que está prevista nos nossos estatutos e que só utilizámos uma vez: referendo interno. Como tenho dito em algumas sessões, quero que a estruture ‘cacique em ideias e não em pessoas’

P: Ao nível interno, que propostas tens para aproximar a JSD dos jovens que não “consomem” política?

AN: A nossa prioridade tem de ser, em primeiro lugar, a valorização e aproximação dos militantes da JSD da estrutura nacional. Para isto, são precisas propostas concretas.

Em primeiro lugar, temos de garantir que a eleição do líder é feita por voto direto, em que todos os militantes possam participar. Estando longe ou não da sua concelhia, através de voto eletrónico. Para além disso, a gestão do orçamento da JSD será feita através de uma forma participativa para que, todos os militantes, eletronicamente tenham oportunidade de propor e participar.

Em segundo, tem de ser dado o devido papel às concelhias – das mais pequenas às maiores. O trabalho concelhio é o mais difícil, mas mais valioso, e as estruturas concelhias têm de voltar a ser apoiadas como merecem. O pulmão da estrutura não pode viver com restos de apoios de há 6 e 8 anos atrás. Os recursos financeiros não são vastos, mas é uma questão de prioridades. E o apoio à atividade das concelhias será uma prioridade.

Por último, uma proposta que acho central no meu projeto: a escolha de uma indicação a deputado da JSD por concurso. Para se ser deputado da JSD não podem valer os sacos de votos ou os padrinhos. Temos de dar o exemplo e mostrar que, na nossa estrutura, vale o mérito. Por isso, na escolha de pelo menos um deputado, adotaremos o método de concurso, onde vale a experiência, o currículo e não a área geográfica ou qualquer outro critério.

Temos de garantir que a eleição do líder é feita por voto direto

P: A gestão de consensos tem sido uma tónica nos últimos anos da JSD, o que é que levou, no teu entender, a existirem duas candidaturas oriundas da mesma direcção nacional?

AN: Em primeiro lugar, acho muito saudável que, ao fim de tanto tempo sem disputa nacional, que a JSD volte a ter mais do que uma candidatura. É fundamental para promover o debate, a participação e a clarificação. Deixa-me dizer que, na minha opinião, a permanente gestão de consensos foi uma das razões para o nosso afastamento da juventude portuguesa.

Em segundo, o motivo para esta disputa é claro: eu assumo que estamos mais distantes da juventude portuguesa porque pecámos por defeito. Que é preciso a coragem para identificar onde falhámos e fazer mais e melhor. Até agora, apesar de ter integrado esta CPN não tive essa oportunidade. Mas chegou altura de romper, de ter a coragem de refundar totalmente a nossa estrutura, e voltar a termos a JSD que a juventude portuguesa merece. Nem todos concordamos com esta abordagem, por isso há duas listas. O que só é saudável e revelador de um espírito aberto e democrático.

A permanente gestão de consensos foi uma das razões para o nosso afastamento da juventude portuguesa.

P: A campanha está na rua há várias semanas. Os delegados já foram eleitos e o congresso está a menos de 15 dias. Que balanço fazes até ao momento desta “jornada” que tem sido a candidatura à liderança da JSD?

AN: Tem sido uma experiência notável. Acima de tudo, pelos contributos que tenho recebido para o meu projeto.

Desde o início que, em todas as oportunidades que tive para falar com militantes, disse que um projeto nacional só pode ser construído com o contributo de todos. Eu não quero ser dono do meu projeto, nem tenho a pretensão de conhecer com detalhe todos os problemas e ser eu a propor todas as soluções. Sempre pedi que todos contribuíssem.

Esta candidatura não é unipessoal e a qualidade e quantidade de contributos que tenho recebido tem sido, sem dúvida, o melhor balanço deste trajeto.

O Panorama publicou também uma entrevista com a Margarida Balseiro Lopes, disponível aqui.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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