Poupe em média 350€ por mês e venha estudar para o interior

Este podia ser o slogan de uma qualquer campanha publicitária que tivesse como objetivo poupar centenas de famílias aos encargos que lhes são pedidos para conseguirem colocar os seus filhos a estudar nos dois grandes centros urbanos em Portugal. Encargos esses que são naturalmente provocados pelas sucessivas ausências de políticas públicas, dos sucessivos governos, e que se traduziram num claro abandono do interior do país e numa consequente sobrepopulação do litoral do país.

E agora perguntam vocês, então é o Interior a solução de todos os problemas? E a resposta é não, claro que não, até porque este Interior que conhecemos hoje não está preparado para ser a solução a este problema.

Se não vejamos, no momento em que efetivamente muitas famílias percebem que é hoje impossível colocar os seus filhos a estudar no Porto e Lisboa, em Vila Real (exemplo que melhor conheço) registou-se o maior número de sempre de alunos a concorrerem à UTAD.

Uns irão apregoar que se deveu aos 5% das vagas retiradas ao Porto e Lisboa, outros que se deveu à reorganização interna que a Universidade está a enfrentar, contudo é objetivo que quem for estudar para Vila Real, e acredito que o mesmo aconteça em muitas das cidades do Interior com Universidades/Politécnicos, poupa no mínimo 350€ por mês, contabilizando-se apenas aluguer de casa com contas e propinas.

Estes números, que representam uma média muito simpática para Lisboa e Porto (hoje em dia conseguir encontrar um quarto em Lisboa por 500€ é um verdadeiro achado) , revelam que ao fim de 10 meses quem estudar, por exemplo, em Vila Real poupa 3500€ e ao fim de 3 anos de Licenciatura poupa 10500€ que, para os mais distraídos, é o mesmo que dizer 18 ordenados mínimos.

Contudo, nem tudo é uma mar de rosas nesta aparente vantagem de estudar no Interior, isto porque, o mesmo não está, neste momento, preparado para receber muitos mais estudantes do que os que recebe hoje em dia.
As universidades/politécnicos na sua maioria estão preparadas para este aumento, contudo as cidades não o estão.

Voltando ao exemplo de Vila Real, este ano já se verificou nesta cidade a problemática da Lei da Oferta e da Procura, onde a procura excede a oferta e o preço aumenta (cerca de 100 a 150€ por imóvel).

Rui Rio afirmava numa entrevista concedida ao Observador que: “Uma situação destas não deve estar sujeita ao livre arbítrio da oferta e da procura e deve haver uma política pública para o efeito, com mais ou menos ajuda municipal”, e de facto esta é uma questão que deve ser debatida e solucionada com a ajuda de todos, governo, municípios, universidade e serviços de ação social, quer seja através da construção de novas residências, quer seja através da requalificação de alguns edifícios para servirem de alojamento, pelo aumento do complemento de alojamento, ou por revisões ao mercado do arrendamento privado, o que importa é que algo necessita de ser feito para o país continuar a ser atrativo para os estudantes.

Como podemos constatar o Interior é atrativo em muitas matérias, nomeadamente na financeira, mas ao mesmo tempo não podemos querer que uns sejam mais atrativos que outros porque alguma coisa está mal nos outros lados, o interior não pode ser melhor porque em Lisboa e Porto é impossível viver, não pode ser apenas uma opção de recurso, de desespero.

O interior tem de ter os seus méritos e deméritos bem como o Litoral, no entanto, os deméritos de ambos é que não podem fazer com que estudantes fiquem à porta do Ensino Superior porque não têm condições de serem “roubados” mensalmente,

Por isso é obrigação de todos tornar o país atrativo e deixar que sejam os estudantes a escolher o que realmente querem.

Publicado por: André Coelho

Ex-presidente da Associação Académica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (AAUTAD).

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