Bloco quer ser governo na despedida do Casal Vistoso

O Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa, local associado às convenções nacionais do Bloco de Esquerda, recebeu a pela última vez a reunião magna dos bloquistas, pelo menos para já. Daqui a dois anos o Bloco de Esquerda muda-se de “armas e bagagens” para o Porto e espera, nessa bagagem, levar ministros da casa.

Foi a ideia dominante dos dois dias de trabalho: o Bloco de Esquerda está preparado para ser governo e quer ser governo. A ideia foi defendida pelos principais quadros do partido, desde Catarina Martins a Mariana Mortágua e até mesmo, de forma indirecta, por Francisco Louçã.

Depois de na abertura ter decretado a morte ao voto útil e ter anunciado o nome de Marisa Matias para cabeça-de-lista às eleições europeias de 2019, no discurso de encerramento, Catarina Martins disse que, “o Bloco de Esquerda terá força para ser governo quando o povo quiser”, resumindo assim a tónica dos dois dias de trabalho.

A coordenadora do Bloco de Esquerda confessou que, “negociar com tantos ministros às vezes são conversas que davam para ganhar o céu” e foi mais longe ainda ao dizer que, “só houve um momento em que a legislatura esteve em risco: quando o Governo decidiu compensar os patrões pela subida do salário mínimo com uma redução da TSU, a contribuição da empresa para a segurança social”.

Catarina Martins terminou a intervenção final deixando cinco exigências para o Partido Socialista e que podem marcar o tom para o longo ano eleitoral de 2019: aprovar a Lei de bases da saúde em 2019; combater as desigualdades sociais; ​​​​​combater as alterações climáticas; nacionalizar o setor energético e a banca e promover a transparência.

Mesa Nacional: Lista de Catarina Martins conquistou 457 votos contra 62 da oposição

Catarina Martins foi confirmada novamente a coordenadora do Bloco de Esquerda com uma votação avassaladora. Nas eleições para a Mesa Nacional, o órgão executivo do partido, a Moção A conquistou 457 votos, contra apenas 62 da Moção C, encabeçada por Paulo Teles Silva e Mónica Ferreira.

Nas urnas registaram-se ainda 57 votos brancos e oito votos nulos. Foram apresentadas mais moções, mas apenas com orientações politicas, sem candidatura aos órgãos do partido, entre elas a mais crítica da opção da geringonça, apelidada de “O Bloco não se encosta”.

Na lista vencedora estão figuras como Marisa Matias, Pedro Filipe Soares, Luís Fazenda, Joana Mortágua, Mariana Mortágua, José Manuel Pureza, Jorge Costa, José Soeiro, Moisés Ferreira, Pedro Soares, Luís Monteiro, Maria Manuel Rola, Sandra Cunha e João Vasconcelos e ainda Manuel Grilo, o vereador que substituiu Ricardo Robles na autarquia de Lisboa.

Moção M contra a geringonça

Historicamente o Bloco de Esquerda é um partido de correlações difíceis, devido às várias correntes internas. Desta vez a oposição não surgiu daí, visto que as várias tendências integraram a lista de Catarina Martins, mas sim de um grupo de jovens precários que apresentaram a debate a Moção M, a mais crítica da geringonça.

Inês Ribeiro Santos foi uma das militantes mais críticas, ao dizer no púlpito que, “o Bloco é um partido fantasma, que não está nem nem no Governo, nem na oposição”, acrescentando ainda que, “os partidos de esquerda que apoiam governos perdem a sua identidade, porque abrem-se brechas à demagogia e ao populismo”, defendendo uma, “radicalização do discurso e da ação, no Parlamento, nas sedes e nas ruas!”

A moção que defende a saída da NATO, o aumento do salário mínimo para 900 euros, a diminuição da idade da reforma para 62 anos, e a proibição dos estágios não remunerados, entendeu no entanto não ter condições para se candidatar aos órgãos nacionais, considerando que, “faltam condições para ter um trabalho no qual nos revíssemos nos órgãos nacionais” e optando por manter o trabalho nas estruturas locais.

As intervenções em destaque

Para além das intervenções já destacadas anteriormente, subiram ainda a palco diversas figuras do Bloco de Esquerda. Fernando Rosas foi uma das mais aplaudidas, mas também Francisco Louçã, o anterior líder do partido, que, citando o filme Toy Storie, disse que, “há dias via o Toy Story com as minhas netas e uma personagem perguntava para onde vai e diziam-lhe que era até ao infinito e mais além. Eu sei que este Bloco é mais humilde. Sabemos para onde vamos. E a tua força, a nossa força, é que também sabemos de onde vimos: é da Helena Lopes da Silva, de Miguel Portas, de João Semedo e de tantos outros”, disse apelando às emoções no Pavilhão do Casal Vistoso.

Apontada como uma das “ministeriáveis” do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua subiu também ao palanque para afirmar que, “vamos ser governo? Estamos prontos”, numa intervenções onde abordou a via económica do executivo e criticou os salários elevados dos gestores, tendo utilizado o exemplo do CEO da EDP, António Mexia.

No capitulo de discursos mais característicos, o deputado do Porto, José Soeiro, foi ao palco para falar dos problemas laborais e para ilustrar a sua intervenção foi munido de pedras, luvas de limpeza, uma escala de turnos e uma tshirt.

A luva de limpeza ilustrou o trabalho das mulheres da limpeza, a escala de turnos a luta dos trabalhadores da Groundforce, a tshirt para a luta do movimento dos cuidadores informais e, por fim, a pedra, a dos trabalhadores das pedreiras. O deputado bloquista conclui ao dizer que, “são símbolos de lutas e da possibilidade de ganharmos, [estamos] preparados para ganhar”.

A XI Convenção Nacional do Bloco de Esquerda decorreu nos dias 10 e 11 de novembro, no Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa.

Descomplicador:

A 11ª convenção do Bloco de Esquerda deu o mote para o ano eleitoral de 2019, com o Bloco a afirmar-se com vontade de integrar uma solução de governo, deixando as suas exigências ao Partido Socialista. Catarina Martins foi reeleita com uma percentagem esmagadora.

Publicado por: Miguel Dias

Licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social. Assessor de comunicação numa federação desportiva, colabora com a imprensa regional na sua cidade, Almeirim e criou um conjunto de projectos temporários sobre politica local e nacional. Fundou ainda uma rádio regional e é comentador convidado de ténis da Eurosport.

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