A Europa à volta de uma mesa

A EUROCITIES é uma rede de grandes cidades europeias que pretende promover o intercâmbio das melhores práticas e representar os interesses das grandes cidades junto das instituições comunitárias. Portugal está representado através das cidades de Lisboa, Porto e Braga como membros de pleno direito.

Entre 28 e 30 de novembro, a cidade de Edimburgo receberá a Assembleia Geral Anual da EUROCITIES. Aproveitando a ocasião de, em 2018, a Escócia celebrar o Ano da Juventude, a organização decidiu pedir aos seus membros que indicassem um “Jovem Embaixador” em representação da sua cidade, reservando-lhe um papel chave no desenvolvimento de todo o programa.

Esta iniciativa constitui-se como um excelente exemplo de uma política de juventude. Como sabemos, as políticas de juventude versam uma transversalidade enorme de áreas que devem ser trabalhadas em conjunto. Mas as políticas de juventude devem ter sobretudo um fim: a capacitação de cidadãos.

Hoje existem muitos programas para entreter a juventude, mas são poucos aqueles que verdadeiramente apostam na promoção da cidadania e da participação jovem. A verdade é que há uma nova realidade e essa realidade passa por entregar capital político aos jovens, por dotar os jovens de ferramentas para que os mesmos possam começar a resolver os seus próprios problemas, por mostrar que a política e o poder não podem ser vistos à distância.

A Assembleia Geral deste ano decorre num momento crítico da história da Europa, tendo como pano de fundo a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia e cerca de meio ano antes das Eleições Europeias. Mais do que nunca, é importante que as autoridades locais trabalhem com as pessoas que vivem nas suas cidades e, em particular, cheguem aos jovens no desafio de moldar a política de hoje.

São muitos os desafios que a Europa enfrentará num futuro não muito distante: o acentuar do inverno demográfico e dos fluxos migratórios, a emergência da robotização e da inteligência artificial, a sensibilidade das políticas de privacidade de proteção de dados, o combate às alterações climáticas e necessidade de apostar em modelos de desenvolvimento mais sustentáveis.

A tudo isto, acresce a ameaça dos populismos e dos extremismos, a relevância cada vez maior de figuras e de partidos políticos que colocam em causa não apenas a própria União, mas sobretudo os valores sob os quais a mesma foi fundada. E que, por isso, ameaçam aquela que é a principal conquista de seis décadas de União Europeia: a paz.

Há 25 séculos, Heródoto dizia que neste continente “em tempos de paz, os filhos enterravam os pais e em tempos de guerra, os pais enterravam os filhos”.

Mas como afirmou Herman Von Rompuy, na entrega do Prémio Nobel da Paz à União Europeia em 2012, “a paz é agora uma evidência. A guerra tornou-se inconcebível. Inconcebível sim, mas não impossível. A Europa deve manter a sua promessa de paz.”

E essa promessa de paz só pode ser cumprida através do desenvolvimento de uma identidade de cidadania europeia. Favorecendo o contacto entre cidadãos, sobretudo os mais jovens. Para que se conheçam, para que criem um clima de confiança, para que percebam que os desafios comuns que enfrentam exigem, também eles, abordagens comuns.

A União está, talvez hoje, mais dividida do que nunca. Permanece, porém, intacto o princípio sugerido por Jean Monnet: “Mieux vaut se disputer autour d’une table que sur un champ de bataille” (“É melhor discutir à volta de uma mesa do que num campo de batalha”).

Publicado por: Carlos Alberto Videira

Assessor do Administrador dos Serviços de Ação Social da Universidade do Minho. Mestre em Direitos Humanos e licenciado em Relações Internacionais pela Universidade do Minho, foi presidente da Associação Académica da Universidade do Minho entre 2013 e 2016. Integrou também o Conselho Nacional de Educação e é deputado municipal em Caminha.

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